Les Premiers Etats généraux de la Lusodescendance 
12 janvier 2017
Agitateur lusophone dans ton école !
12 janvier 2017

A hora de Paulo Emílio

Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977) foi o maior crítico brasileiro de cinema, além de precoce militante político, historiador, fundador da Cinemateca Brasileira e professor. Não foi o intelectual que mais escreveu sobre a implantação da cultura no Brasil — nesses confins do capitalismo —, mas foi, sem dúvidas, aquele que melhor soube formular e ilustrar a contradição contida nesse processo: “Não somos europeus nem americanos do Norte, mas, destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro.” A citação é célebre e contém dois dos traços fundamentais do pensamento do crítico, a saber: a capacidade de captar o essencial e a dialética.

Formulações originais e penetrantes como essa poderão ser encontradas pelo público francês no livro recém-lançado por aqui, intitulado “Paulo Emílio Sales Gomes ou la critique à contre-courant”, uma antologia dos melhores textos inéditos do crítico brasileiro, escritos entre 1950-1960, sobre diversos temas, como o cinema russo e soviético, o neorrealismo italiano, o cinema francês, a crítica de André Bazin, a conjuntura política e cultural brasileira da época , importância das cinematecas etc. A seleção dos artigos ilustra bem o pensamento dialético de Paulo Emílio, que analisa os filmes do ocupante europeu e americano sem deslumbre e defende o cinema nacional do ocupado brasileiro sem patriotismo; ou seja, consegue abordar a inescapável contradição mencionada acima sem se contradizer.

Mas talvez seja importante destacar que essa antologia está longe de ser a primeira publicação de um trabalho de Paulo Emílio na França, já que, em 1957, foi publicado originalmente nesse país o seu estudo sobre Jean Vigo, obra considerada por François Truffaut como “le plus beau livre de cinéma jamais écrit”.

Além da seleção dos textos, o livro lançado este ano, dirigido por Isabelle Marinone e Adilson I. Mendes, apresenta também contribuições de especialistas brasileiros e de pesquisadores franceses reconhecidos. Dentre os primeiros, destacaria o ensaio do crítico litérario José Antonio Pasta, “Pensée et fiction chez Paulo Emílio”, sobre as Três mulheres de três PPPês. Ao analisar as três novelas — “Duas vezes com Helena”, Ermengarda com H” e “Duas vezes Ela” — Pasta demonstra como Sales Gomes recorreu à prosa de ficção para expressar uma negatividade dificilmente adaptável ao discurso da crítica e teoria de cinema, consequência “(…) da evidência clamorosa do vale-tudo em que entrara a ordem burguesa no Brasil” durante os anos da ditadura militar.

Comemoramos o centenário de Paulo Emílio Sales Gomes em 2016, ano politicamente difícil tanto para o Brasil quanto para a Europa. Nestes tempos decisivos em que vivemos, a radicalidade e o engajamento presente em sua obra fazem desta raro exemplo a ser seguido tanto por franceses quanto por brasileiros. É hora de pensar dialeticamente e ir ao que interessa.

 

Plínio Birskis Barros