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A «outridade» : pergunta central do Festival da incerteza

Nada é permanente, tudo se transforma. Por mais que se planeie, se organize, a vida é uma inconstância perpétua que flutua. O ser humano sempre procura a estabilidade, uma estabilidade que lhe garante uma segurança, um conforto, porque receia a incerteza e o vazio. Essa «comodidade», encontramo-la não só nas instituições como nas tradições. A tradição constitui uma aliança perfeita entre a certeza e a segurança, porque é a repetição do já conhecido, uma herança intocável erigida a verdade. Uma verdade que não dá espaço às diferenças, ao desconhecido ou como diria Bernardo Soares, à outridade. É essa outridade que se questiona no festival da incerteza.

 

Por ocasião dos 500 anos do termo “utopia” inventado por Thomas More na sua publicação homónima, a delegação francesa da fundação Calouste Gulbenkian organiza um festival, conhecido como Festival da incerteza inspirado em Fernando Pessoa. Este festival será o palco de várias conferências e ateliês e a ocasião idónea para visitar duas exposições comissariadas por Paulo Pires do Vale. Estas exposições não são apresentadas ao mesmo tempo: a primeira exposição, De l’intranquilité, tem lugar de 4 de outubro a 6 de novembro e a segunda, Du possible, terá lugar de 17 de novembro a 18 de dezembro.

 

De l’intranquilité ou Do desassossego conta com obras dos artistas João Onofre, Fernando Calhau, Dora Garcia e Pierre Leguillon. O termo “desassossego” é uma clara referência ao Livro do desassossego de Bernardo Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. O tema desta mostra tem por base a “outridade”, uma palavra inventada pelo criador do drama em gente, Fernando Pessoa. Qual é o significado desta palavra? A outridade é o movimento pelo qual um individuo torna-se outro individuo. Esta “nova identidade” é uma construção permanente de um Eu que já é outro, diferente dos outros, mas também diferente do próprio individuo. Essa outridade poderá entender-se através duma parte da biblioteca pessoal de Fernando Pessoa, exatamente 800 dos 1200 livros que a compõe, levada espacialmente para Paris para esta exposição.

 

Du possible conta com obras de Douglas Gordon, Corita Kent e Lara Almarcegui propondo desta forma uma reflexão à volta da utopia. Segundo Paulo Pires do Vale, o objetivo é “pensar a utopia não como um sonho longínquo, mas como uma força presente”. A imaginação é a “condição indispensável de investigação do possível”. É necessário imaginar para explorar as possibilidades, porque a consciência utópica procura sempre alternativas para corrigir o presente. Para além destas exposições, haverá conferências, entre as quais se destaca a de Richard Zenith, o principal tradutor da obra de Pessoa para inglês, e projeções de filmes.

Este festival é a ocasião idónea de descobrir e/ou conhecer melhor um dos escritores mais famosos da literatura portuguesa, Fernando Pessoa. Essa viagem pela incerteza, a outridade e a utopia é a ocasião não só para entender melhor a(s) personalidade(s) do autor como a(s) nossa(s) personalidade(s) cumprindo desta forma o desejo de Bernardo Soares: “Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação.”

 

Patricia Cabeço

Fonte : gulbenkian-paris.org