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A última corrida: o Alentejo em cena

A partir do dia 23 de fevereiro, o público parisiense poderá assistir ao espetáculo A Última corrida, encenado pela Compagnie des Rêves Lucides, no teatro La Croisée des Chemins. A peça reúne de maneira original duas manifestações culturais lusitanas muito tradicionais: os Forcados portugueses e o Cante Alentejano, este último considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade da Unesco.

 
A companhia formada em 2014, já apresentou em Paris a peça L’Architecte des Rêves, ou O Criador de Sonhos, realizada por Carlos Balbino, jovem ator, escritor e encenador português. Nesse primeiro espetáculo, científico e fantástico, que tem a fria Sibéria, na Rússia, como quadro, já podemos identificar certo talento da trupe para a representação de traços regionais, expressos sobretudo através do canto polifônico, a quatro vozes, de canções folclóricas russas. Foi justamente a originalidade da encenação de uma tradição local tão particular quanto a russa, que levou os colegas do realizador a desafiá-lo: por que não tentar fazer o mesmo com a realidade portuguesa e suas especificidades?

 
Carlos Balbino não só aceitou o desafio, como também escolheu como tema para o seu novo trabalho um dos traços regionais mais polêmicos e complexos da cultura portuguesa de nossos dias: as touradas. E a vontade de abordar o assunto veio-lhe após assistir ao documentário Pega de Caras (Taking the Face, 2008) de Matthew Bishop e Juliusz Kossakowski, em que os realizadores registram as corridas portuguesas tentando guardar um ponto de vista politicamente neutro. Em recente entrevista radiofônica, Balbino reconheceu que a tradição das corridas está sob ameaça: “A tourada, com os novos temas que são muito pertinentes, com a defesa do direito dos animais, foi ficando cada vez mais ameaçada, e há povos agora com esta globalização, esta coisa toda que está a passar no mundo, já ninguém sabe o que é que é…. Encontramos certas lojas de fast-food em todos os cantos e a comida tradicional está a se perder, os produtos regionais estão cada vez mais caros porque os agricultores regionais passam cada vez mais dificuldades… Como é que essas pessoas sentem-se quando se tira mais um dia de festa para elas, mais um motivo de comemorar a vida, a cultura e a identidade?” Hoje, parece-me, as arenas de touradas produzem, pela conjunção de violência real, beleza estética e força simbólica do espetáculo, uma encruzilhada de contradições, resultantes do choque entre tradição e contemporaneidade — emana daí, justamente, o grande potencial cênico da questão.

 
A peça já interessou ao realizador e produtor Tiago Pereira, criador da plataforma A Música <3 Portuguesa a gostar dela própria (MPGDP), que virá a Paris durante a primeira semana de fevereiro para gravar a antestreia de A Última corrida. Pereira seguirá de perto a vida da companhia e a preparação da peça — os ensaios de Cante, os ensaios de teatro, os jantares de grupo e os concertos feitos na rua —, com o objetivo de mostrar como as manifestações da cultura portuguesa, no caso, as corridas e o Cante Alentejano , disseminam-se fora de Portugal.

 

Plínio Birskis Barros

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