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Carminho Canta Jobim dia 15 de novembro em La Cigale

Foto: Leo Aversa

Fomos ao encontro da artista dois dias antes do concerto em La Cigale, em Paris.

Cap Magellan: A Carminho canta, mas também compõe. Que lugar é que tem a composição na sua carreira?

Carminho: A composição tem sido uma espécie de atividade assim mais lateral  à qual tenho dado menos importância, mas de alguma maneira tem sido muito importante para mim no que respeita à minha confiança. As poucas coisas que compus, são coisas que realmente gosto de cantar e por isso vejo-as com alguma calma e se calhar sem dar muita importância. Mas estas composições vão ganhando mais importância com o correr do tempo, sobretudo agora com essas parcerias que vou fazendo com alguns artistas, o que também torna tudo ainda mais entusiasmante para mim, independentemente de eu considerar que há compositores e poetas que nasceram com esse dom. Ainda estou numa aprendizagem, muito cedo tive que aprender essa arte, que está a ganhar mais protagonismo na minha vida, como é o exemplo de discos que estão a surgir agora como o disco dos Tribalistas.

 

CM: Relativamente ao seu novo disco, qual é a relação que tem entre o fado, o jazz e a música brasileira?

Carminho: Na minha perspectiva e como intérprete, de facto tenho-me dedicado, como todos sabem, àquela que é a minha linguagem materna, o fado e que, na verdade é uma linguagem que duma forma muito natural, é minha. Através do fado e por ter aprendido a viver através deste estilo musical, a ver outras músicas  e a conhecer outras áreas musicais, acabei também por abrir os olhos e os horizontes a outros estilos musicais como é o caso da música popular brasileira. As diferenças dos estilos são interessantes; (…) a cultura brasileira tem muitas diferenças com a cultura portuguesa : os escritos são mais optimistas, o que dá muita energia às canções, tem ritmo e percussão, e a portuguesa, no fado sobretudo, é mais nostálgica, mais intimista. Há uma probabilidade grande de cantar outros poetas e entender outras melodias e outras formas de expressão na música e isto também é possível porque sou curiosa. Tento pesquisar muitos poetas e compositores que não são do fado e sobretudo, quando essas oportunidades surgem, eu agarro-as duma forma intensa. Tudo isto faz crescer o universo de cada pessoa e o meu neste caso.

 

CM: A Carminho sempre teve uma ligação muito forte com o fado, justamente a sua mãe é fadista, conviveu com vários fadistas, mas sendo miúda, achava-se à altura para este mundo do fado?

Carminho: Quando uma pessoa conhece uma cultura desde muito pequenina, essa pessoa questiona-se se a verdade é essa. Eu não questionava o fado, porque é um bocadinho como questionar o falar português. Uma pessoa quando começa a crescer e percebe que fala português, não questiona porque é que fala a língua portuguesa que aprendeu desde pequeno e é um bocado isso que acontecia com o fado. Eu não questionei nunca o fado, só consegui perceber que o fado talvez fosse um pouco elitista ou exclusivo de algumas pessoas quando, na escola, os meus colegas em Lisboa – sobretudo a partir do quinto ano – não gostavam de fado e diziam que era algo antiquado e que não fazia muito sentido uma criança ou uma pessoa jovem como eu cantar o fado. Isso, de repente, fez-me ter consciência de que o fado é algo de especial, mas também muito exclusivo e que talvez não fosse a coisa mais cool do mundo na altura. Apesar de tudo, não prescindi. Era um grande encontro comigo, um momento de grande libertação. Havia um crescimento muito grande da minha personalidade nessas noites e uma grande aprendizagem, por isso nunca desisti de cantar, nem de desenvolver o fado independentemente da pressão dos meus colegas e das pessoas com quem eu convivia e portanto, com o passar dos anos, isto tornou-se algo tão importante e vital na minha vida. Independentemente de ser a minha profissão, sabia que tinha de ir cantar sempre e que isso fazia parte da minha energia vital e da minha sobrevivência. Só mais tarde, depois de fazer a minha faculdade, de fazer uma viagem pelo mundo e de perceber que cantar e fazer aquilo de que se gosta não é contrário a ter uma profissão nessa área, é que percebi que podia entregar-me profissionalmente ao fado. Só foi aos 25 anos, depois de uma tentativa de autoconhecimento grande. Foi assim um crescimento lento e cuidadoso, pois passei por várias casas de fado, ganhei algum dinheiro para poder fazer essa viagem, portanto foi todo um processo muito natural e intuitivo, sem grande premeditação.

 

CM: A Carminho diplomou-se em marketing e publicidade no IADE. Como é que surgiu então essa escolha de curso e de carreira?

Carminho: O curso foi porque achei que para ter uma profissão era preciso estudar, mas a verdade é que não havia necessidade se calhar de fazer uma faculdade para vir a ser fadista. Escolhi marketing e publicidade, porque achei que era algo bastante criativo, que passava pela minha disponibilidade criativa. Também é claro que o curso me fez bem, porque todos os cursos académicos trazem muitas coisas boas, tais como a disciplina, metodologias. Aquele curso não foi inútil, mas também não diria que sentia muito apego por essa profissão. Daí essa ideia de uma viagem de volta ao mundo para poder fazer voluntariado, algo que já fazia durante a universidade, e esse desafiar-me e desacomodar-me da minha zona de conforto foi vital para perceber o que é que eu poderia vir a ser. O que o mundo me deu como resposta foi que eu poderia ser aquilo que eu quisesse. O fado era aquilo de mais natural que havia em mim e do que eu mais gostava. Foi preciso se calhar sair dele e abandoná-lo para entender que me queria entregar ao fado.

 

CM: Para além de uma melhor compreensão da sua pessoa e das suas afições, o que é que lhe trouxe o contacto com outros povos e outras culturas que pudessem modificar a sua arte?

Carminho: Tudo o que trazemos de uma viagem vem em bruto, é um investimento e o retorno vem todo em purificado. São imagens que nós vemos, muitas pessoas que conhecemos, histórias, culturas, cheiros e arte de lugares, somos nós que aos poucos temos que descodificá-los e perceber o efeito tributário em nós também. Para além de perceber a pluralidade cultural, essa viagem trouxe-me a capacidade de perceber que as culturas são diferentes e há que aceitar essas diferenças e estarmos abertos para receber maneiras de pensar distintas. Isso tudo ensinou-me tanto na tolerância como no espanto e na vontade de conhecer mais. Essas viagens continuam a trazer-me frutos, a descobrir coisas que não sabia, e de facto é o mundo que nos dá conhecimentos para podermos avançar. Não podemos estar fechados, porque o pensamento esgota-se e é necessário saber reinventar-se. E é o que continuo a fazer cada vez que enfrento um público novo e que conheço novas cidades.

 

CM: Como é que surgiu a escolha de Jobim?

Carminho: O Jobim não foi uma escolha, foi uma condição. Na verdade é que para além deste percurso no Brasil que eu comecei já com o meu disco Alma, comecei a fazer vários concertos pelo Brasil, com os discos que fui fazendo e com os artistas com quem trabalhei e continuei a trabalhar. Esse caminhar nunca parou e criou relações de amizade profundas que continuam a crescer. Muitas vezes juntávamos-nos simplesmente para conviver uns com os outros, sem pretensão de fazer música. Durante um desses jantares, cantávamos todos muitos poetas e cantores brasileiros, um deles era o Tom Jobim que conheço desde as novelas da Globo de quando eu era miúda, e que fui explorando melhor com a escolha de querer conhecer mais esses compositores e intérpretes e mais tarde com todas as relações que estabeleci no Brasil. Nesse jantar, estavam presentes a mulher do Tom Jobim e a Ana Jobim que sugeriram essa ideia de fazer um disco e propuseram então que marcássemos um encontro com o Paulo Jobim, um dos filhos de Tom. Fiquei muito entusiasmada, mas também precisei de pensar sobre a pertinência desse trabalho já que foram feitos tantos discos do Jobim. Pensei: qual seria o meu contributo? Pensei bastante nisso até que conheci o Paulo Jobim que me entregou as canções para a mão (quase 400 ao todo). Ele disse-me para eu escolher, e que gostaria de fazer esse disco comigo. Primeiro, foi uma ideia com a orquestra, depois com a formação dos músicos que acompanharam o Tom Jobim nos últimos dez anos da vida dele que se chamava a Banda Nova. Quando ele me apresentou isso, não tive argumentos para recusar, era um privilégio e ao mesmo tempo, senti-me muito segura por estar com essas pessoas que conhecem tão bem a obra dele e que também queriam provavelmente com a generosidade que têm, deixar ser eu própria a cantar as minhas interpretações, a fazer novas interpretações daquelas mesmas canções, de sugerir alguns pormenores da minha identidade a este repertório que todos conhecem, porque também começo a sentir que este disco é um bocado meu. E isto aconteceu, foi maravilhoso estar com eles em estúdio e tudo correu bem.

Agradecemos a disponibilidade e simpatia de Carminho e convidamos os nossos leitores a assistirem ao seu concerto no próximo dia 15 de novembro na La Cigale de Paris.

Patrícia Cabeço
capmag@capmagellan.org