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Cinema : Entrevista com Diego Avelino

A Cap Magellan e a revista CAPMag lançaram recentemente uma parceria com a Universidade Lyon II chamada :  « Crónicas dos alunos de português da Université Lumière-Lyon-II ». Este mês, os estudantes tiveram a oportunidade de realisar uma entrevista com Diego Avelino, jovem ator brasileiro, presente no filme “Meio Irmão”, realizado por Eliane Coster.

 

 

Cap Magellan : Qual é seu percurso para chegar até aqui, como ator?

Diego Avelino: Trabalho no teatro desde 18 anos. Comecei o teatro numa escola privada, escrevia meus próprios textos teatrais e encenava também os meus textos. Desde pequeno me interessava ao teatro.

Fiz palhaço, fiz circo, fiz teatro na escola de artes dramáticos da USP que é uma referência no teatro no Brasil, especificamente em São Paulo. Trabalhei como palhaço nos hospitais, numa ONG que se chama Doutores da alegria que são ‘clube’ que vão nos hospitais para ajudar os moços, as pessoas enfermas. Minha formação de palhaço foi com eles, e trabalhei com eles no hospital. Foi a melhor experiência da minha vida.

Mas foi o teatro que mudou a minha vida. Eu comecei fazendo na escola, depois havia um projeto do governo que era “Amigos da escola” e lá conheci o meu primeiro professor de teatro e ele me levou para um bairro vizinho próximo, onde tem um espetáculo que é muito famoso que é a representação da paixão do Cristo, mais antigo de São Paulo. Tem quase 60 anos. Foi lá que fui fazendo amigos, que comecei a entender mais sobre teatro. Cheguei num grupo de teatro que existe até hoje. Nós construímos um teatro, fomos nós que colocamos tijolo por tijolo, que compramos as cortinas. Fizemos um espaço teatral na cidade que não tinha, que está na serra, que é também uma coisa mais afastada porque já é o interior de São Paulo. Mas não é o interior da grande São Paulo, é uma coisa também mais complicada ainda como a gente divide um pouco a cidade.

 

Cap Magellan :  Você sempre quis ser ator e não realizador?

Diego Avelino : Eu sempre quis construir um percurso para chegar nesse lugar. Desenhei esse percurso tomando conta desse percurso. Sempre quis fazer escola dramática, sempre quis fazer letras e depois fazer cinema para ser um realizador, para ser um diretor como gente diz em português. Então estou nesse meio caminho para fazer letras, falta agora fazer cinema.

 

Cap Magellan : Qual é o seu projeto na França?

Diego Avelino : Eu vim especificamente para aprender a língua. Eu sou estudante de letras português -francês, é a dupla habilitação. No Brasil é um pouco difícil de aprender a língua porque na mesma classe há as pessoas que já conhecem o francês e outras que não sabem nada. É difícil avançar. Aqui eu trabalhei com o cinema, fiz dos longos metragens.

 

Cap Magellan : Você vai apresentar um filme no festival do cinema ibérico e latino-americano Les Reflets no cinema Le Zola, em Villeurbanne, chamado O animal cordial. Que história o filme nos conta?

Diego Avelino : É um filme de horror que acontece num restaurante. Esse restaurante é assaltado. O dono do restaurante reage ao assalto, e na verdade ele passa a sequestrar todo o mundo que está dentro do restaurante. Ele, o próprio dono.

 

O plano de fundo é a contradição do que há no Brasil. É um país difícil porque há muito racismo, há muito sexismo, misoginia, homofobia e isso é o plano de fundo. São as relações entre os ricos e os pobres, o patrão e os empregados, o povo branco e o povo negro, o homem e a mulher, os heterossexuais e os homossexuais.

 

Esse ambiente é o lugar propício para demostrar esse tipo de relações. O mais interessante é que o realizador é uma mulher, e que escreveu também o cenário. No cinema há pouco mulheres realizadores e no género de horror ainda menos. Ela se chama Gabriela Amaral Almeida, é uma pessoa incrível.

 

Cap Magellan : Que papel você tem?

Diego Avelino : Uma pequena participação porque é um filme com atores muitos conhecidos no Brasil e foi meu primeiro filme. Sobre o papel, eu sou um garçom assim como gente diz em português. O que é mais importante eu acho que, nesse personagem que se chama Lucio, ele não participa totalmente na história. É muito importante na cinematografia brasileira porque geralmente são os negros que são os ladrões. Culturalmente é reconstruído dessa forma. E a Gabriela teve a sabedoria de retirar os personagens ante de toda tragédia que acontece, ele não está envolvido. Geralmente o negro é vítima da violência ou ele é o próprio feitor da violência. Há sempre essa visão no Brasil.

 

Cap Magellan : Vi que este filme vai participar numa competição. Em que consiste essa competição?

Diego Avelino : Eu não sei bem como funciona a competição para esse festival. O Animal foi lançado no agosto do ano passado, ele já participou a alguns festivais, é premiado no festival internacional de Rio e alguns festivais internacionais aqui pela Europa. Então não sei no que consiste a competição porque parece nova para esse festival, mas eu acho que eles vão escolher o melhor filme.

 

Cap Magellan : Então é o primeiro papel que você tem num filme, e depois atuou em outros?

Diego Avelino : Meio irmão foi meu segundo filme, teria um terceiro, mas não pude como as gravações eram junto com o segundo filme da Gabriela. Ela dirige um segundo filme que está para estrear também que se chama A sombra do pai. As gravações eram concomitantes, então o diretor de Meio irmão quis me liberar para gravar outro filme. Depois eu gravei uma pequena participação na segunda temporada de uma série, também bastante conhecida no Brasil que se chama Carcereiros.

 

 

Cap Magellan : Sabe se depois do festival será exibido num outro cinema uns desses filmes?

Diego Avelino : O Animal não sei por que já foi lançado; aqui na Europa aparentemente ainda não foi lançado, mas na América Latina e no Brasil já está. Não sei como anda nesse processo para O Animal Cordial é um pouco parado com cinemas daqui na Europa porque ela está cuidando do segundo filme dela, já está concorrendo alguns festivais, já está nesse meio caminho para também estrear, então já está cuidando dessa segunda produção. O Animal é um pouco mais esquecido. Meio irmão vai se lançar, e a gente está correndo atrás de festivais. Seria uma oportunidade de participar de festivais aqui porque é um filme mais independente. O Animal Cordial é uma grande produção, teve uma grande produtora, por atrás um nome de um grande produtor: o Rodrigo Teixeira é hoje um dos maiores produtores do cinema no Brasil ou pelo menos a referência porque trabalha também com alguns filmes de Hollywood, com personalidades de Hollywood, já foi decorado de um óscar com o filme Call me by your name. Concorreu o ano passado. Ele é bastante conhecido. O Animal Cordial tem essa característica também, é uma grande produção.

 

Cap Magellan : Você é um dos protagonistas do filme Meio irmão. Do que se trata?

Diego Avelino :  Meio irmão, como O animal cordial, também lida com as questões de relações humanas e raciais no Brasil, diferentemente no Animal – isso está por detrás. Você tem que perceber, é quase uma metáfora. As relações patrão / empregada, hetero / homossexual, homem / mulher, se você não as lê, você acha que é um filme de horror. Essas coisas estão bem por atrás, estão bem escondidas. Um brasileiro quando vê o filme ele não reconhece, não sabe como ler o Brasil dessa forma.

 

Já, no Meio irmão, eu acho que está dado, é um garoto negro que tem um irmão branco porque no Brasil isso é muito normal. Somos um país de mestiços, na sua maioria um país negro, mas que não é reconhecido como país de maioria negra. Então a contradição já está dada. E é na periferia de São Paulo, mas não é qualquer periferia de São Paulo. É a periferia mais afastada que tem no extremo da zona leste, nos lugares mais esquecidos pelo governo. Aí basicamente não há trabalho, as pessoas se deslocam, não tem oportunidades, a violência é alta como é na zona sul, o índice de escolaridade é baixo ; é a periferia da periferia onde nós fomos gravar que também não é retratada no cinema, e que é difícil no cinema retratar isso. Existe a periferia, mas é o clichê da periferia também no cinema nacional.

 

Então o filme trata basicamente disso, trata dessa relação porque esses dois irmãos vão crescer juntos, eles são filhos da mesma mãe, não do mesmo pai por isso se chama Meio irmão. Essa relação é ainda complicada no Brasil. Na vida real, minha história é como a história do filme: tem dois irmãos, minha irmã é branca como você.

 

Tem outra questão principal, no filme trata da homossexualidade que é uma coisa também pouca discutida no Brasil; existe um grande tabu, é a homossexualidade do homem negro.  Ademais são adolescentes.

 

Cap Magellan : Quais são o seus futuros projetos?

Diego Avelino : Ainda não sei por que fiz uma escolha difícil. Eu parei minha carrega quando não estava certo, para fazer intercâmbio. Isso é um pouco difícil porque já é difícil você trabalhar com teatro, com cinema. E é muito mais difícil você ser um ator negro no Brasil. Você tem poucas oportunidades, as oportunidades nunca são para boas coisas, são sempre a retomada de um clichê: para fazer o bandido, o empregado, o escravo, quando você consegue chegar ao posto porque tem um monte de atores negros. As pessoas brancas escrevem para as pessoas brancas; o amor, a felicidade são sempre para as pessoas brancas. É assim na dramaturgia brasileira. Então você não ocupa muito esses lugares.

 

Foi difícil chegar onde cheguei e foi uma escolha difícil, então vim para o intercâmbio ficar um ano e pegar um duplo diploma. Quando parei eu não estava certo, eu sei quando voltar tenho que recomeçar de zero. Porque também tenho o objetivo de, além de continuar com teatro e cinema, também ser professor. Eu tenho que devolver de alguma forma para a sociedade, nunca paguei para meus estudos, nunca fiz nada. Sou o primeiro da minha família que chegou na universidade então, de certa forma, tenho que devolver isso para a sociedade. Para que mais pessoas tenham a possibilidade de chegar onde cheguei. No Brasil se a gente não faz isso o governo não vai fazer e hoje, atualmente, ainda mais. Hoje está muito complicado então a gente tem que fazer nossa parte.

 

Não sei, eu quero voltar e trabalhar com teatro e cinema, mas eu quero também fazer essa outra parte.

 

Cap Magellan : O que acha a família de suas ambições?

Diego Avelino : Minha família é uma família muito simples, eu não sou de São Paulo, somos do nordeste do Brasil, região esquecida do Brasil. Eu sou do agreste pernambucano aonde não chove, onde as pessoas morrem de fome. E a questão cultural para essa região que é o trabalho: se você não trabalha, você não come, se você não come, você não é ninguém. Então minha família sempre se preocupou com o trabalho, a educação, eu nunca faltei na escola.

Você viver de teatro, ser ator é um sonho, não é coisa tangível. Não tive apoio porque não é concreto dentro da minha realidade.

 

Hoje tenho um apoio muito forte de minha família porque entendi muito bem. E reconhece também o percurso que eu quis fazer para mim. Eu sempre quis ser ator mais nunca deixei de fazer trabalhos comuns: o ator no Brasil não é só ator, faz diversas coisas. Comecei a trabalhar com doze anos. Nunca deixei de trabalhar tampouco nunca deixei de estudar. Eu fiz espetáculo e fazer letras para garantir um futuro porque não sei que será o dia de amanhã. Ser professor é a profissão menos valorizada no Brasil, não tem estatutos e ganha mal, sofre com a segurança. Mas eu não escolhi ter dinheiro, escolhi ser feliz

 

Entrevista realizada por Camille Bonneton
« Crónicas dos alunos de português da Université Lumière-Lyon-II »
capmag@capmagellan.org

 

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