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Em Fevereiro, tem Carnaval !

Carnaval do Rio © DR

O Carnaval do Rio de Janeiro, com os desfiles na Sapucaí, é o maior Carnaval do Mundo. No entanto, não é o único país que “trabalha o ano inteiro por um momento de sonho, para fazer a fantasia de rei ou de pirata ou jardineira, para tudo se acabar na quarta-feira”.

Mesmo se os cálculos nem sempre colocam o Carnaval no mês de Fevereiro, este é o mês ao qual mais associamos estas festividades.

Em alguns países, o Carnaval continua a ser uma comemoração maioritariamente religiosa. Em outros países, perdeu esta conotação e está mais associado a festas de rua, música e dança. Quando falamos em festas de Carnaval, pensamos imediatamente no Carnaval do Rio de Janeiro e dos desfiles no sambódromo. Contudo, os restantes países lusófonos também participam em festividades de Carnaval.

 

Carnaval no Brasil

Falar de Carnaval significa falar do Rio de Janeiro. As festividades de Carnaval são momentos muito esperados e especiais para os cariocas. Cada escola de samba passa o ano a preparar os carros alegóricos, cada centímetro  das roupas, e cada compasso de música, para que tudo seja perfeito para aquele que é o momento mais importante do ano. O maior momento do evento é aquele que acontece no Sambódromo da Marquês da Sapucaí, com os desfiles das escolas de Samba. Estes desfiles começam na sexta-feira de Carnaval e terminam na segunda-feira e é apenas no sábado após o Carnaval que se realiza o desfile das escolas Campeãs. Todavia esta não é uma festa popular e não é acessível a todos, uma vez que os preços diários variam entre os 100 euros(arquibancada) e os 1 400 euros (camarote).

Para aqueles que preferem uma festa mais barata ou menos ostentadora, existem cerca de 464 blocos de rua espalhados pelos diferentes bairros da cidade, que desfilam nas ruas, em carrinhas que transportam o grupo de música, que é chamado de bateria. Estes eventos populares atraem cerca de 6 mil-
hões de pessoas.

No total, o Carnaval do Rio de Janeiro em 2017 atraiu cerca de 1,1 milhão de turistas, movimentando cerca de 764 milhões de euros, acabando por ser uma semana extremamente benéfica para a economia da cidade .
Se o Carnaval do Rio é o das Escolas de Samba, o de Salvador da Bahia e o dos trios elétricos, atrai também, cerca de 1 milhão de turistas, que na sua maioria são nacionais. A comemoração carnavalesca é uma grande manifestação cultural e popular que reúne pessoas de diversas idades, estilos, classes e gostos. A tradição dos trios elétricos surgiu em 1950 com o primeiro trio que tinha o nome de “Clube das Vassourinhas”. Na década seguinte a tradição tomou forma definitiva quando a cidade organizou concursos de trios, gerando uma certa competitividade e e levando muitos a melhorar os seus carros a cada ano. Hoje em dia, são cantores nacionalmente e internacionalmente conhecidos que participam nos trios que se espalham na cidade.

Mesmo se o Carnaval é uma festa que se comemora em qualquer cidade, vila ou aldeia do Brasil, existem, tal como no Rio de Janeiro e em Salvador, outras cidades com carnavais emblemáticos. É o caso das cidades de Recife e Olinda, no Estado do Pernambuco.  A festa da capital pernambucana é uma das maiores e mais expressivas do Brasil com a maior mistura de estilos musicais: frevo, caboclinho, maracatu, boi, samba, afoxé e música contemporânea. O grande abre alas da festa é o Galo da Madrugada, o bloco que arrasta milhares de pessoas pelas ruas do centro de Recife, no Sábado de Zé Pereira, acordando a cidade e dando as boas vindas ao Carnaval. A poucos quilómetros desta festa, decorre o Carnaval de Olinda, conhecido pelo desfile de bonecos gigantes, sendo assim o Carnaval mais popular do Brasil.

 

Carnaval em Portugal

As Festas de Carnaval da ilha da Madeira procuram manter as suas raízes populares, assim, é tradição ter dois grandes cortejos na cidade do Funchal: o Cortejo Alegórico e o Trapalhão. As festas ligadas ao Carnaval da Madeira remontam ao século XVI,o que leva a acreditar que a tradição terá sido levada para o Brasil através da emigração daí oriunda.

Juntamente com o Carnaval da Madeira, os mais importantes carnavais portugueses são o de Estarreja (que apesar de ser dos mais antigos de Portugal, tomou uma vertente mais brasileira a partir do final da década de 80) o de Ovar, Loulé (com os cabeçudos e gigantões), Sesimbra (com escolas de samba e grupos de axé), Sines, Elvas e Torres Vedras com os seus carros alegóricos de grande conotação satírica.

Em suma, apesar do Carnaval português ter a sua própria forma e expressão, acabou por sofrer da influência da cultura brasileira, através dos media e da imigração brasileira em Portugal, a partir da década de 80.

 

Carnaval em Guiné Bissau

O Carnaval em Guiné Bissau é um dos maiores carnavais de África. Todos os anos, Bissau recebe uma vaga de turistas que chegam de todas as regiões do país, e também de fora, quem vem de propósito para participar das festividades carnavalescas. É devido à mistura de identidades artística, social e cultural que este evento se torna uma manifestação popular muito rica e festiva.  Tem uma duração de 3 semanas e comemora as diferenças culturais e a união das diferentes etnias. Assim, nos meses que antecedem o Carnaval, preparam-se, em segredo, os carros alegóricos que seguem o tema dado.

Os mais novos também participam das festas de Carnaval fazendo as suas máscaras com lama que depois são pintadas pelas mesmas, indo, de seguida, a votação.

Ademais as etnias querem apresentar e representar as suas tradições, danças, culturas, costumes, vestuário, hábitos alimentares… Durante alguns dias, Bissau mora aos ritmos dos tambores Bijagós, dos bombolongs Ajamat e das canções Balantas durante toda a noite.

 

Carnaval em Cabo Verde

Carnaval do Mindelo tem as suas raízes nos subúrbios da cidade. Reúne os habitantes da ilha como também muitos emigrantes que escolhem esta época de festividades para visitar os familiares. O Carnaval do Mindelo caracteriza-se por um desfile de carros alegóricos, de marchas, com música e dança, e utiliza muitos dos elementos que fazem parte da cultura e da história da ilha. Desta forma, a mulher cabo-verdiana tem um papel central nesta festa, sendo que ao homem cabe divertir e entreter as pessoas. Hoje em dia, o Carnaval do Mindelo é uma festa tradicional com blocos de rua. É organizado pelas pessoas oriundas dos bairros limítrofes, que às vezes até transportam alusões aos locais de onde provêm, que recorrem aos artistas suburbanos para a conceção e execução das comemorações.

O Carnaval é organizado da seguinte forma:  no sábado é o dia reservado para os bailes. No domingo o dia é dedicado aos grupos de crianças, em representação das respetivas escolas, que desfilam nas principais artérias da cidade. Na segunda-feira, um grupo carnavalesco semelhante aos das escolas de samba brasileiras, desfila pelas principais ruas do Mindelo, como que preparando os foliões para o grande desfile de blocos, com estruturas próprias e aos quais se juntam figurantes prazenteiros, que desfilam na terça-feira, constituíndo, assim, o momento alto do Carnaval.

 

Carnaval em Angola

Em Angola também existe a tradição de celebrar o Carnaval com grandes desfiles. No entanto a sua história é mais conturbada: em alguns momentos da História houve interrupções. A primeira interrupção deu-
-se nos anos 1940 com a eclosão da IIª Guerra Mundial. Mais tarde, foi entre 1961 e 1963, as celebrações de carnaval foram censuradas pelo governo ditatorial português devido aos inícios de luta de libertação nacional. Ainda 1975 a 1977, houve uma interrupção nas festividades.

O carnaval pós-independência está intrinsicamente ligado a Agostinho Neto (primeiro presidente da República Angolana) que apelou aos Angolanos à celebração das vitórias conquistadas pelo país, resgatando o legado cultural do país e suas manifestações, desig-
nando assim o carnaval da vitória. Hoje em dia,o Carnaval decorre na Marginal de Luanda, sendo esta palco dos desfiles de grupos de todas as idades, tanto oficiais, como amadores.  Estas manifestações carnavalescas contam com uma enorme variedade de cantos e danças nacionais de origem africana.

 

Carnaval em Moçambique

Moçambique não é um país de tradição carnavalesca, no entanto, existem comemorações na cidade de Quelimane, capital da Zambézia, uma das províncias da região central do país. Durante a época colonial o Carnaval era apenas festejado nos salões dos clubes e foi só na década de 1990 que o Carnaval saiu às ruas da cidade tomando uma forma mais popular.

O sucesso do Carnaval de Quelimane foi crescendo com o passar dos anos e actualmente atrai turistas dos diferentes continentes. A cidade ganhou o nome de “pequeno Brasil” devido às formas brasileiras que esta festa possui: carros alegóricos, música essencialmente proveniente do Brasil, rei e rainha do Carnaval, etc. Todavia tem uma particularidade própria: os “mascarados” que são aqueles que participam com fantasias assustadoras, feitas com os materiais disponíveis e com muita criatividade e imaginação. Muitas vezes estas fantasias têm apelo e carga social, ou ainda criticam os abusos do período colonial.

As comemorações carnavalescas dividem-se entre dois fins de semana e no segundo e último final de semana, os foliões celebram o enterro do “Senhor Carnaval”. Isto é,  vestem-se de preto e percorrem as ruas carregando um caixão com uma pessoa (viva!) no seu interior. O desfile consiste em choro, velas e uma mensagem fúnebre antes do Senhor Carnaval sair do caixão e todos começarem a cantar e a dançar dando vivas ao Carnaval do ano seguinte.

 

Carnaval em São Tomé e Príncipe

Em São Tomé e Príncipe também o Carnaval tem a sua própria expressão: o TRUNDU YÁ YÁ. Infelizmente esta tradição tem caído no desuso, porém tem sido o trabalho do Governo Regional de a resgatar.

Este costume consiste na formação de um grupo com cinco figurantes, todos homens, que se disfarçam com máscaras exóticas e óculos escuros ou ainda se disfarçam de mulher. Tocam viola, chocalho e tamborim, entoando canções e criando pequenas intervenções teatrais que muitas vezes traduzem críticas sociais, com muitos gestos e distorção de voz para representar figuras femininas.

Estes grupos saem às ruas, andando de porta em porta, seguidos por um cortejo de alguns curiosos ou ainda apresentam-se a pedido de determinadas pessoas que queiram, num ambiente mais particular, desfrutar e divertir-se com as cenas representadas. Este tipo de actuação é, de um modo geral, remunerada. 

 

Florence Oliveira
CAPMag 274