Soldados portugueses da Grande Guerra homenageados
11 avril 2018
Portugal revalida título de campeão europeu de râguebi em sub-20
16 avril 2018

Encontro com Criolo, voz do rap e do samba

A Cap Magellan teve a oportunidade de conversar com Criolo na sua passagem por Paris para o lançamento, em França, do seu album «Espiral de Ilusão», que estreou no Brasil a 28 de abril de 2017.

Kleber Gomes, alguns o conhecem como Criolo Doido, outros apenas por Criolo, mas independentemente do nome, ele já é uma das grandes referências musicais brasileiras da actualidade. Criolo já se apresentou em palco com grandes artistas tal como Ney Matogrosso, Milton Nascimento, Ivete Sangalo, Emicida e actualmente tem uma série de concertos programados, no Brasil, ao lado do grande nome do rap brasileiro: Mano Brown.

Nascido e criado no bairro do Grajaú, periferia da zona sul de São Paulo, Kleber cresceu numa mixórdia musical: rap, samba, embolada, etc.

Filho de pais cearences, pai metalúrgico e mãe professora, que deixaram Fortaleza para a capital económica do país, como tantos o fizeram, à procura de uma vida melhor. Foi dessa mistura de amor e energia que nasceram Kleber e seus irmãos.

Kleber conta uma infância muito dura e difícil: a família viveu num barraco durante seis anos, antes de conseguir uma casa com 3 cómodos, no mesmo bairro. Um barraco junto a outros, com uma janela para um córrego e outra para uma viela, criando um efeito labirinto. É assim que ele descreve o lugar onde viveu na “arquitectura e geopolítica do excluído.”

Mas vê-se como alguém com sorte: sorte de ter tido pais que valorizam a arte e a palavra. Um pai, que ao seu jeito, trabalhou a vida toda para poder sustentar toda a família e uma mãe que dedicou a sua vida ao estudo da palavra. Alfabetizada pelo seu pai, esta concluiu os estudos secundários juntamente com o seu filho e em seguida fez um curso superior em filosofia.

Kleber partilhou uma história da sua mãe, que ele acredita ser uma história de esperança: “quando ela veio de Fortaleza com o meu pai, para São Paulo, ela estava com as suas malas de roupa e no meio do caminho ela voltou. O meu pai acreditou que ela tivesse desistido dessa aventura de se mudar, mas ela voltou para pegar todos os livros que coubessem nas malas. Uma jovem de 23 anos de idade, já tinha deixado tudo, levando duas maletinhas de roupa, mas no meio do caminho ficou desesperada pois não queria deixar os livros para trás. Como o seu pai faleceu quando ela tinha 6 anos e que foi ele que a alfabetizou através da leitura de jornais, acredito que esse amor pela palavra também venha do pouco período de tempo que ela pode passar com o seu pai.”

Assim, a paixão pela palavra e a importância dada à educação se trasmitiu de uma geração para outra, chegando a Criolo.

Na escola pública teve a sorte de encontrar professores dedicados e entregues à sua missão, pessoas que nasceram professores: “despidos dos seus egos” e que partilham com todos o que vivenciaram junto a outros mestres. Estes professores e as acções de actividades sociais, por educadores e oficineiros fizeram a diferença e impactaram a sua vida: “lembraram-nos que éramos seres humanos”, e que ao lado da sobrevivência bruta, cada um tinha as suas sensibilidades, necessidades e individualidades.

 

Quando tinha 11 anos, viu um amigo fazer uma rima e percebeu que existia uma fonética que fazia com que as sílabas pudessem rimar. Foi aí que fez o seu primeiro verso. “Veio de uma vez”, nos diz Kleber. Só mais tarde é que ouviu, na rádio, uma música comprida, onde tudo rimava e que parecia falar de coisas com as quais concordava ou vivia, e a isso chamava-se rap.

Expor as suas ideias, expressar os seus sentimentos e fazer o todo rimar foi, para ele, um grande desafio. Mas uma vez as palavras no papel, o seu pensamento existia e também existia o desejo de o comunicar aos outros.  Nesse desejo de partilha, surgiu o seu nome artístico, Criolo. Durante séculos “criolo” foi utilizado no Brasil de modo pejorativo. Kleber acreditou que, tal como nós todos, tem o poder de trasformar a palavra, ou que q própria palavra nos transforma: “ela pode ter o tanto de energia que eu coloco nela”.

Mas o rap não é o único registo musical que Criolo encontrou para partilhar os seus pensamentos. Apesar de achar que o desafio de fazer samba era reservado às capacidades de pessoas muito especiais, Kleber sempre teve a vontade de fazer um album de samba, sem nunca forçar o processo.

Crédit Photo: Fred Siewerdt

Foram vivências especiais e muito fortes do último ano que fizeram com que os sentimentos se desaguassem em samba”, explica, “eu não escolhi, foi uma coisa que aconteceu assim. Essa energia desse acontecimento foi percebida pelas pessoas próximas de mim e foi respeitada. E assim achamos que fosse o momento”.

Entre sambas muito diferentes uns dos outros, surge o single “Menino Mimado” e música que dá o título ao album “Espiral de Ilusão”, nos fazendo relembrar sambistas como Cartola, mas ainda temos “Filha do Maneco” e “Boca Fofa” que se parecem às críticas sociais de Bezerra da Silva. Mas o que surpreende nesse CD é a música que o encerra: “Cria da Favela”. “Cria da Favela” é uma embolada, através da qual Criolo nos apresenta, com muito orgulho a sua raíz nordestina.

Kleber nos explica que essa versatilidade musical se deve áquilo que ouviu enquanto criança. Morar num barraco, em que as paredes são improvisadas com pedaços de madeira e lonas de caminhão, cria um espaço em que se ouve músicas e sotaques de todo o Brasil. São essas vozes, assuntos e músicas que ficam gravadas nas memórias. Ainda acrescenta que “quando você escuta o que você quer e o que não quer, escuta tudo porque é a vida que se apresenta como ela é“.

A sua evolução musical também se deve à dedicação daqueles que o rodeia: “eu não tenho um director musical acomodado, nem tenho um irmão de palco acomodado, não tenho pessoas ao meu redor me dando tapinha no ombro. Se não estiver bom para todos, não está bom para ninguém.

Estes são todos os motivos do seu sucesso, para além do seu carisma, da sua genuinidade e da celebração musical que caracteriza as suas apresentações em palco. “Eu tenho a sorte de ter a música para desabafar e pedir desculpas ao mundo. Mas nem todos têm essa sorte.”

 

 

 

“Espiral de Ilusão”, lançado em França a 9 de março de 2018, à venda na Franc a partir de 14,99€.

 

 

 

 

 

 

Florence Oliveira