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Encontro com Nuno Gomes Garcia

O autor de « O Soldado Sabino », e de « O Dia em Que o Sol se Apagou » (finalista do prémio Leya)  volta às bancas com « O Homem Domesticado ». No ambito da publicação do seu terceiro livro, a Cap Magellan conversou com o autor.

Cap Magellan : No teu livro crias um mundo imaginário, mas que é ao mesmo tempo coerente e verosímil. Julgo ser, entre outras, uma das grandes forças da tua história, porque é um “E se…” plausível que nos faz pensar sobre a sociedade atual e o que ela poderia, de facto, ser.

Nuno Gomes Garcia : A força das distopias, que é do que se trata aqui, a meu ver, parte justamente da plausibilidade das premissas. O futuro mostrou que o “1984” ou o “Admirável mundo novo” eram e são plausíveis. Ora, neste meu romance essa plausibilidade é garantida pela premissa, na sua versão invertida, ser uma realidade desde que a humanidade existe. Falo, claro, da submissão da mulher ao homem. Ou, se quisermos ir mais além, da submissão da fêmea ao macho em quase todas as espécies devido ao dimorfismo sexual que faz dos machos, em comparação com as fêmeas, organismos maiores e mais fortes. O que fiz neste livro foi apenas inverter o paradigma, tornando as mulheres no sexo dominante, numa espécie de fêmeas alfa, se quiseres. Claro que, partindo desta premissa, havia todo um mundo e um enredo por criar. Aproveitei-os para tentar passar uma mensagem.

 

CM : Falas da mensagem feminista. Sabes que é, por vezes, visto com alguma desconfiança que os que estão em situação de poder se apropriem, de certa forma, das lutas daqueles que oprimem. Neste caso és um homem, pertences à categoria tida como opressora das mulheres, e, no entanto, escreves um livro que apresentas como feminista. Provocações à parte, qual é para ti o lugar do homem na luta feminista?

NGG : Às vezes, noto que tenho de relembrar aos meus camaradas de luta, seja na causa feminista ou na causa antirracista, por exemplo, que vivemos na Europa de 2017. A evolução nos direitos civis, nos direitos das mulheres, nos direitos dos homossexuais e das minorias avançaram mais em 50 anos do que em cinco séculos. A minha geração cresceu a considerar a igualdade de direitos como algo de natural e inquestionável. Portugal, por quase impossível que isso pudesse parecer há 30 anos, é dos países mais evoluídos do mundo a esse nível. Mais evoluído, a meu ver, do que a França. Basta comparar as reações contra o casamento gay em Portugal e em França. Foram residuais em Portugal e maciças em França.

Por tudo isso, considero que não faz sentido essa “desconfiança”. Se as mulheres acham que um homem progressista, como eu me considero, pertence aos “opressores” e que não devemos lutar a lado, mulheres e homens, por uma igualdade de género absoluta… Bem, acho tudo isso muito triste e contraproducente, pois favoriza a argumentação dos e das antifeministas que utilizam argumentos falaciosos como o do “lá estão elas a queimar soutiens”. O papel do homem na luta pela causa feminista é igual ao da mulher.

 

CM : Para além da questão feminista, e até do racismo, também tocas na questão LGBT. Mostras o amor gay com uma grande naturalidade, sem disso fazeres um problema, o que me parece uma das formas inteligentes de abordar a questão e mesmo de lutar contra a homofobia.

NGG : Como considero o amor gay tão natural como o amor heterossexual, pois amor é amor, foi muito simples tratar o tema com a naturalidade devida. A homofobia advém do desconhecimento, da ignorância e da ortodoxia religiosa. Esses três elementos são os principais combustíveis da intolerância. Tenho a esperança de que em uma ou duas gerações esse preconceito mais do que idiota possa desaparecer.

 

CM : Com todas estas questões de sociedade que abordas no teu trabalho, sentes-te sobretudo um artista ou um ativista? Ou seja, colocas a mensagem ao serviço da arte ou a arte ao serviço da mensagem?

NGG : São coisas diferentes, mas que é normal que se misturem, visto eu ser a mesma pessoa. Existem escritores que dizem, um pouco ridiculamente, que são como que possuídos pelos personagens ou por uma entidade metafisica qualquer que tomam o controlo da obra. Ora, eu quando termino um romance não preciso de uma sessão espirita que me exorcize e me liberte dos personagens que escrevem por mim. Não sofro nenhum processo de desindividuação durante o meu trabalho. Assim, como estou sempre muito consciente, creio que meto a arte ao serviço da mensagem e a mensagem ao serviço da arte.

 

CM : Este é o teu 3° livro, e em todos demonstras algum ceticismo na natureza humana, ou melhor algum pessimismo no destino da humanidade, fruto de comportamentos individuais e coletivos. É algo que dirias que acontece por acaso ou é uma mensagem consciente que queres fazer passar, uma espécie de alerta? E não tens medo que esse pessimismo conduza à passividade e não à revolução?

NGG : Eu sou um otimista. Mas tento não ser um otimista ingénuo. Tenho a noção de que, apesar dos problemas, apesar das crises humanitárias, a humanidade como um todo nunca viveu tão bem. Os avanços da medicina, o aumento da esperança de vida, as transformações na produção agrícola são globais. O inacreditável salto em frente na exploração espacial que dentro de poucos anos fará de nós uma espécie pluriplanetária da mesma maneira que nos tornámos pluricontinentais. A evolução da humanidade é de tirar o fôlego. É impossível não ser otimista.

Agora, persistem problemas. A guerra, as questões geopolíticas que empobrecem os povos, a discriminação racial e das minorias, a violência contra as mulheres. São problemas que devem ser denunciados, inclusive pela literatura. E é melhor, mais positivo, creio, ser um otimista a denunciar os podres da sociedade. Um otimista tem a esperança de que esses podres sejam resolvidos. Um pessimista, que, à partida, já perdeu a esperança, não tem vontade de resolvê-los porque está resignado.

 

CM : Nos teus livros atribuis um lugar importante ao Conhecimento, pois ora tens como pano de fundo a 1ª Guerra Mundial, ora os Descobrimentos, ora concebes um mundo imaginário dominado pela bioengenharia, passas da História, para a Ciência, passando pela Psicologia. Ou seja, quem lê os teus livros acaba também por, de maneira subtil, aprender muito sobre diversas matérias. Como consegues esta proeza de instilar Conhecimento sem cair na lição escolar, no ensaio ou na docuficção?

NGG : Seria de uma arrogância enorme ter a pretensão de ensinar seja o que for a alguém. Tenho 39 anos, ainda dizem que sou jovem, e sinto-me cada vez mais ignorante. Vou dar-te um exemplo. Desde há uns anos tornei-me um nerd de astronomia. Leio tudo o que me apareça à frente sobre o assunto. Mas quanto mais leio, maior se torna o universo e logo mais noção tenho das minhas limitações e da minha ignorância.

Eu escrevo sobre o que gosto e sobre o que conheço com o mínimo de profundidade. Por exemplo, eu gostaria muito de escrever um romance passado no Japão, mas sei que o meu desconhecimento sobre essa cultura não será compensado nem por mil livros que venha a ler. Por isso, tenho a noção de que nunca escreverei esse livro.

Mas, respondendo concretamente à tua pergunta. Não é proeza nenhuma. Limito-me a escrever livros que gostaria de ler.

 

CM : O escritor-ativista James Baldwin dizia que quando se escreve, tenta-se encontrar algo que não se saiba, e vai mais longe, escrever até se encontrar algo que não se quer saber, algo que não se quer encontrar, mas existe algo que te força a fazê-lo na mesma. Isso aconteceu-te com “O Homem Domesticado”, encontraste algo que não sabias ou até que não querias saber?

NGG : Não, isso não me aconteceu. Escrever, por um lado, é uma atividade que me ajuda a organizar, a estruturar as minhas próprias ideias e até convicções. Por outro lado, ao escrever sinto-me como uma criança na feira popular com todas aquelas montanhas russas que causam vertigens.

Quando era arqueólogo, também tinha desses momentos de vertigem, mas para ter um minuto dessa vertigem precisava de mil horas de tédio. Ao escrever, durante o processo de criação, quando está tudo ainda em bruto, a vertigem é constante. Já a revisão final de um livro é tão excitante como escavar a camada vegetal de um aterro dos anos 80.

Para mim, escrever é isso: a estruturação mental e a busca de prazer. Só encontro coisas que desconheço quando converso com alguém inteligente ou quando leio um livro.

 

CM : O teu livro já teve reações surpreendentes por parte de pessoas que o leram, ou não, ora te acusaram de machismo por pareceres denunciar um mundo em que os homens deixaram de ter o poder, ora te acusaram de feminismo exacerbado porque agora elas querem “tornar-se donas disto tudo”. Esperavas este tipo de reações?

NGG : Claro que esperava. É tão normal como uma má crítica suceder a uma boa crítica ou se detestar um livro que ganhou um prémio. É tudo muito subjetivo e depende dos gostos e das convicções, até ideológicas, do leitor ou do crítico. Conheço pessoas que desgostam tanto um autor enquanto ser humano que são incapazes de ler um livro desse mesmo autor porque não conseguem desligar o homem ou a mulher da obra. Isso acontecia muito com o Saramago, por exemplo.

Mas se pensarmos bem, essas reações acabam por ser positivas, pois forçaram uma reação, não deixaram o leitor indiferente. É esse o meu objetivo.

 

CM : Em entrevista, Umberto Eco citou um professor da universidade que lhe dizia que continuamos a vida toda a perseguir, através de aparências diversas, sempre a mesma ideia. O escritor dizia que demorou tempo a compreender que o seu professor tinha razão, mas que aos 82 anos ainda não a tinha encontrado e que esperava a morte para enfim saber a qual era a ideia fundamental da sua vida. Aos 39 anos, já consegues saber qual é essa ideia que persegues na tua obra literária em particular e talvez na tua vida em geral?

NGG : É difícil responder. Eu procuro tanta coisa ao mesmo tempo, encontro umas, outras não sei se irei encontrar. Poderia responder-te como uma concorrente do concurso miss universo, dizer-te que procuro a paz, a justiça, a igualdade. O que é verdade, também as procuro. Mas sabes, o mundo e o ser humano são tão complexos. E, às vezes, tenho a impressão de que os escritores dizem essas coisas porque sentem que têm de dizer algo, que as pessoas estão à espera de que eles digam algo. O escritor tornou-se uma espécie de popstar, o que o obriga a uma exposição que, às vezes, julgo contrária à própria definição deste trabalho, que constrange a um grande isolamento. Vês, é tão difícil responder.

 

CM : A última pergunta do questionário do célebre programa de televisão francês “Bouillon de Culture” apresentado por Bernard Pivot era: se Deus existe que gostarias que ele te dissesse? E eu pergunto-te, porque sei que é alguém que respeitas imenso, se o Saramago tivesse podido ler o teu livro o que gostarias que ele te dissesse?

NGG : Eu sou alérgico às idolatrias ou aos cultos da personalidade, mas, sim, o José Saramago, que nunca conheci pessoalmente, foi alguém que, através da sua obra, me ajudou a crescer. O que eu gostaria que ele me dissesse? Não sei bem, talvez um “gostei muito, camarada.”

 

Agradecemos a disponibilidade e simpatia de Nuno Gomes Garcia e convidamos os nossos leitores a descobrirem o seu terceiro livro, O Homem domesticado, já disponível.

Entrevista realizada por Luísa Semedo

Cap Magellan