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Encontro com o ator Nuno Lopes

O filme “São Jorge” da dupla Marco Martins & Nuno Lopes estreou em França.

O filme “São Jorge” realizado por Marco Martins, com a colaboração estreita do ator Nuno Lopes estreou em França. “Saint Georges”, como o título do filme foi traduzido em  francês, conta a história de Jorge (Nuno Lopes) um pugilista desempregado que se vê obrigado a entrar no mundo das cobranças de dívidas difíceis para tentar sobreviver. São Jorge é um filme dramático e realista, cuja ação se desenrola nos bairros pobres da Bela Vista e Jamaica durante a intervenção da “troika” em Portugal e as medidas de austeridade que lhe foram impostas.

Cap Magellan – Tal como atores como Mark Whalberg no The Fighter ou evidentemente como o mítico De Niro em Ragging Bull tu também procedeste a uma transformação física para seres credível enquanto pugilista. Como é que esta transformação foi feita?

Nuno Lopes – Nós ficámos 5 anos a trabalhar no filme que partiu de uma ideia minha, e acompanhei todo o processo.  Ao acompanhar o crescimento do filme fui-me preparando psicologicamente durante todos estes anos, e foi assim que fui construindo na cabeça o personagem do Jorge. Fisicamente eu comecei dois anos antes com aulas de boxe no clube Paulo Seco, só que durante ano e meio, na verdade não treinei, ia lá a fingir que treinava e basicamente, ouvia, e estudava que tipo de pessoas é que eram, o que falavam, e tentei conhecer mais o mundo do boxe e depois, nos últimos seis meses, é que entrei na preparação física a sério e passei a treinar de cinco a seis horas diárias boxe e crossfit.

CM – Pois, há a parte física, mas igualmente a psicológica, porque também é uma questão de atitude, de mentalidade, de maneira de se mexer, de olhar. Imagino que deve ter sido um trabalho de observação intenso.

NL – Eu acredito muito numa coisa que o realizador João Canijo diz que é “ser ator por osmose”, ou seja, estar presente no género de trabalho e de ambiente em que está o ator é qualquer coisa que fica agarrada a nós como quando se vai para o Porto e se fica com o sotaque do Porto ou quando se vai para França e se fica com o sotaque francês, não é que nós queiramos, acontece, fica-nos agarrado ao corpo. O Jorge é uma espécie de síntese destes cinco anos, das pessoas que fui encontrando ao longo deste tempo. Não só na pesquisa nos locais onde se faz boxe, mas também nos bairros sociais que visitámos para escolher onde iríamos filmar, neste caso o Bairro da Jamaica e da Bela Vista. Mas sobretudo houve uma grande imersão durante dois anos no Paulo Seco e também estive muito tempo no bairro da Bela Vista com as pessoas com as quais o Jorge supostamente vivia, e elas foram fundamentais para a preparação. Muitos dos residentes do bairro entram no filme com verdadeiros papeis e ajudaram-me imenso a perceber que tipo de linguagem e de gestos o Jorge deveria de ter.

 

CM – Mas mesmo depois da preparação, durante a filmagem do filme, tu estás constantemente num estado de grande dificuldade, sobretudo psicológica, a tentar sobreviver, a tentar reaver a mulher que amas, a proteger o teu filho, o espectador sofre contigo, mas imagino que deve ter sido desgastante para ti. Tu és daqueles atores que sai do personagem quando sai do plateau ou o personagem persegue-te?

NL – Depende, no teatro não, o personagem fica sempre no palco, nunca vem comigo para casa, no cinema é mais ambíguo porque a capacidade de adaptação deve ser mais forte. Ao passo que  no teatro nós sabemos exatamente o que vamos fazer no dia seguinte, no cinema eu estou constantemente a ser surpreendido com um plano novo, uma ideia nova, com um sítio onde ainda não tínhamos filmado ou uma mudança do guião, há um lado de adaptabilidade que me obriga a estar sempre mais ou menos no mundo do Jorge, portanto quando faço um personagem como este, durante os dois meses de rodagem, não vejo comédias, oiço o tipo de música que o Jorge ouviria, tento não sair da bolha, do mundo, das referências que me são fundamentais para o personagem.

CM – Os filmes sobre pugilistas são muito interessantes porque são diretamente dramáticos, são metafóricos, com personagens que lutam no ring pela própria sobrevivência, há também esta mistura entre o personagem que é ao mesmo tempo violento e sensível, é um contraste que funciona muito bem. Como foi gerir essa duplicidade no teu trabalho de ator?

NL – É muito engraçado, porque isso parece um cliché de alguns filmes de boxe, mas é o que acontece na realidade. Quando se chega a uma academia de boxe, uma das coisas mais surpreendentes é que temos a ideia de um desporto absolutamente violento, mas quando nos deparamos com as pessoas que o fazem percebemos que há um respeito enorme pelo adversário. Aconteceu-me dezenas de vezes ver pugilistas a sair do ringue, com a cara desfeita e a abraçarem-se ao adversário, a dizer jogaste bem. Aliás, eles nem dizem combateste, dizem jogaste, logo isso é muito demonstrativo da atitude que eles têm perante este desporto. É muito curioso perceber que a maior parte das pessoas que encontrei no boxe não são violentas. As que eram aprenderam a gerir a violência por causa do boxe, e a maior parte dos boxeurs são pessoas que têm um coração terno, e isso tinha que estar no filme, não se podia fugir ao que parece ser um estereótipo, mas que é uma realidade. É sempre interessante interpretar num filme um personagem que tem um interior oposto ao exterior, o que é o caso do Jorge que parece um tipo enorme, confiante, mas por dentro tem a idade de uma criança, tem uma sensibilidade e uma inocência que não divergem muito do filho. Ele é uma pessoa especial que cresceu num meio onde isso não é permitido e ele teve de construir uma imagem exterior para esconder essa inocência e essa sensibilidade. Ele é um tipo que luta, é um pugilista, mas que odeia conflitos.

CM – O Marco Martins filma-te em boa parte do filme em planos aproximados ou grandes planos. Como é gerir essa proximidade da câmara, saberes que cada gesto e expressão tua vai ser mostrada de forma muito detalhada? O realizador informa-te, por exemplo, da escala do plano ou estes pormenores não te influenciam e esqueces-te completamente da câmara?

NL – Não, nunca me esqueço da câmara, porque 50% do meu trabalho é saber qual é o plano, e saber exatamente o que é que a câmara vai filmar. O cinema tem um lado técnico, e isso passa por saber como deves representar para cada tipo de plano, se estás ou não em movimento, se estás próximo ou longe. Eu tenho uma relação de muita proximidade com o Marco, o filme foi construído em conjunto, portanto não somente eu já tinha uma ideia do tipo de planos que íamos filmar como da planificação  do Marco. E depois no local vou sempre sendo informado do tipo de plano que ele vai fazer e como é que me está a filmar, para eu interpretar da melhor maneira, porque é, por exemplo, completamente diferente representar uma cena para um grande plano e para um plano médio.

CM – A realidade dos bairros sociais está extremamente bem mostrada, sente-se que estiveram no coração da vida do bairro e não a trataram de alto ou de longe. Como foi esse trabalho de imersão?

NL – Começámos por ensaiar com os residentes, para fazer uma escolha, para ter informação sobre o que era o bairro e quais eram as preocupações das pessoas que ali viviam. Começámos a ver que era mais interessante do que a história que já estava escrita e, portanto, começámos a achar que aquelas caras contavam elas também uma historia, e resolvemos pô-las no filme, pôr aquelas pessoas a falar na primeira pessoa. O discurso não é um discurso imposto por nós, durante esses ensaios fomos criando relações da amizade e fomos ficando cada vez mais próximos. E eu para continuar o trabalho de imersão, a partir de certa altura, comecei a ir vestido, e com o corte de cabelo e tudo o mais do Jorge e chegou a haver momentos em que alguns deixaram de me tratar como ator e passaram a tratar-me como personagem, e houve mesmo um que me disse “quando acabares o filme, eu arranjo-te trabalho nas pinturas”, e na antestreia em Portugal era incrível todos eles vinham falar comigo sobre o filme e tratavam-me por Jorge, diziam “Jorge estás tão diferente”. Ao contrário do que se pensa, a rodagem poderia parecer uma invasão daquele espaço, mas fomos tão bem-recebidos, e eu a dada altura era visto como só mais um habitante do bairro.

CM – O filme não é de todo maniqueísta e mostra a realidade dos bairros, onde há também muito racismo, intolerância ou egoísmo, ou seja, a pobreza não é mostrada de forma angelical, não é porque se é pobre que se é santo tal como não é porque se é pobre que não se ri, e não se dança. Esse ponto de vista foi adotado já à partida na escrita do argumento ou foi algo que foi depois inserido quando passaram à fase de imersão?

NL – O argumento no início era um argumento clássico muito ficcional. Nós partimos de uma ideia que era fazer um filme sobre o boxe, não era sobre cobranças, depois acabou por ser um filme que fala de muito mais coisas que de boxe, que passou a ser um pormenor. Nós fomos construindo o filme aos poucos. Começámos por pesquisar o boxe, depois quando descobrimos as cobranças descobrimos que havia pugilistas que trabalhavam em cobranças difíceis, e percebemos, que tínhamos aí um guião, a historia de um homem que tem dívidas e que para as pagar tem que cobrar a outras pessoas que estão na mesma situação que ele próprio. Depois, à medida que fomos pesquisando, os assuntos foram aparecendo. O filme não era para ser necessariamente sobre a crise, mas ela entrou-nos pelo filme adentro, não havia ninguém que não falasse da crise naquela altura. Era impossível não falar disso e escapar a esse tema. Não queríamos fazer com este filme uma cartilha politica nem dizer que os ricos são maus e os pobres são bons. Para nós não foi, por exemplo, uma surpresa quando vimos o Trump ganhar ou a subida da Le Pen em França. Fomos percebendo que as pessoas que são marginalizadas, que são tratadas à margem a vida toda pela política, quando aparece alguém que lhes diz “eu não faço parte deste sistema que sempre vos enganou” é natural que as pessoas sigam este discurso demagógico e votem nestas pessoas, e que acabem por procurar culpados, o que leva à xenofobia e ao racismo. E, portanto, achámos que isto tinha que estar no filme, porque era evidente demais. Sobretudo no bairro da Bela Vista que é um bairro socialmente falhado, que junta pessoas provenientes de vários bairros problemáticos e de várias etnias, junta caucasianos, negros, ciganos… No bairro da Jamaica por exemplo, há muito mais alegria porque é um bairro que funciona como uma comunidade coesa, quase todos emigrantes da mesma zona que construíram uma espécie de família gigante. Por exemplo, a festa que se vê no final de filme é uma festa verdadeira que se passa todas as semanas na Jamaica. Portanto, foi isso quisemos, trazer a realidade para o filme e não impor um discurso nosso.

 

CM – Um dos temas mais marcantes do filme é esta ideia de pobres que exploram pobres que lembram outros tempos. A um momento, tu dizes ao teu filho Nelson, protagonizado pelo pequeno David Semedo, “homem não come homem”, e no entanto é precisamente esse um dos temas do filme. Os cobradores que são pobres passam o tempo a dizer “ajude-me a ajudá-lo”, a outros que também estão em situação limite, é um sistema completamente sinistro e cínico, de explorados que participam na exploração de outros explorados.

NL – Sim, o filme também acaba por ser uma metáfora do que a Europa nos estava a fazer nessa altura, cobrava-nos uma dívida que nós não podíamos pagar. A Europa também era uma cobradora difícil. Há, assim, uma metáfora no próprio filme em relação ao que se estava a passar em Portugal e na nossa relação com Bruxelas. Isso está sempre presente no filme. O Jorge tem uma espécie de nuvem negra por cima da cabeça que o acompanha durante todo o filme como se fosse uma espécie de tragédia, ou fado. Ele está destinado a sofrer por causa de algo que lhe é superior e que neste caso, na minha opinião é a Europa.

 

CM – Sei que tens, com o Marco Martins, o projeto de um filme sobre emigrantes portugueses no norte de Inglaterra, também fugidos da crise. Vocês posicionam-se um pouco na linha dos filmes sociais dos irmãos Dardenne da Bélgica, do britânico Ken Loach ou do francês Laurent Cantet. Ora, estes filmes conseguem mostrar uma verdade, penso que todos os que vivemos a pobreza, os bairros de lata, os bairros sociais nos reconhecemos na realidade que é exposta, mas para além disso, desse exercício de “verdade pela ficção” para que servem estes filmes? Achas que podem mudar alguma coisa, mentalidades ou políticas?

NL – Este tema social é muito recente para mim e para o Marco. Nós começámos a abordá-lo quando fizemos uma peça com os trabalhadores dos estaleiros navais de Viana do Castelo que estavam há dois anos parados, iam todos os dias trabalhar, mas não tinham o que fazer. Fizemos uma peça com eles e foi muito importante porque foi aí que trabalhámos pela primeira vez com não-atores. Como te disse, não temos uma cartilha política mas às vezes estamos num momento da nossa história em que nos parece impossível falar de outra coisa, não tem a ver com o desejo de falar disto, tem a ver com a impossibilidade de naqueles anos de crise em Portugal falar de outra coisa. O mundo das artes, estranhamente, passou na época um pouco ao lado disto, e, no entanto, também nos atingiu como atingiu a todos, este filme, por exemplo, esteve parado um ano. Quando há o  Brexit, quando a Europa esta à beira de um surto de fascismo vamos falar sobre o quê? Histórias de amor? Naquele momento era-nos vital falar de algo que nos chocava daquela maneira.

CM – Ganhaste um Prémio Orizzonti para Melhor Ator no Festival de Cinema de Veneza para esta performance, como lidas com as recompensas e quais são as tuas ambições a nível artístico, como desejas que o teu trabalho evolua?

NL – As minhas ambições artísticas são continuar a fazer as coisas que me interessam fazer, não tenho nenhuma ambição internacional ou nacional, ou de prémios. Até aqui tenho sido um privilegiado porque tenho conseguido ter um percurso artístico feito só com coisas que me apetecem mesmo fazer e, portanto, gostava de continuar assim durante muitos anos, e de continuar a ter o mesmo tipo de colaboração que tive com o Marco, em que entro não só como ator mas em que tenho a possibilidade de acompanhar todo o processo desde a criação do filme.

CM – E pensas passar diretamente para a realização?

NL – Claro que é algo que me interessa. Eventualmente um dia, mas para já ainda é cedo…

 Agradecemos a disponibilidade e simpatia de Nuno Lopes e convidamos os nossos leitores a descobrirem o seu filme “São Jorge”. 

Luísa Semedo