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Encontro com Sérgio Godinho

Sérgio Godinho deu um concerto no âmbito da oitava edição de “Chantiers d’Europe”, no Espaço Pierre Cardin do Théâtre de la Ville no passado dia 20 de maio. A Cap Magellan conversou com o cantor umas horas antes.

 

Cap Magellan: Aos 20 anos foi viver para a Suíça. Pode-nos contar um pouco do que o levou a emigrar e como se passou esse exílio?

Sérgio Godinho: Sim, fui estudar Psicologia para Genebra e cheguei mesmo a ser aluno do Piaget. Foi numa altura em que, por um lado, tive mesmo a necessidade de abrir asas, de conhecer outras coisas, de ser autónomo, e, por outro, tinha obtido um adiamento do serviço militar porque tinha estado a estudar dois anos no ensino superior em Portugal, mas sabia que ia ser chamado, que teria de ir para a guerra colonial em África. E, para além disso, tanto eu como a minha família tínhamos ideias em relação ao regime de Salazar e daquela guerra estúpida, que matou muita gente dos dois lados, e mesmo os que voltaram para Portugal não chegaram em muito bom estado mental e físico. Portanto, para mim, isto era uma questão importante e nunca me passou pela cabeça ir fazer essa guerra. Fui então para Genebra. Fiz dois anos de Psicologia, mas a certa altura percebi que não era nada o meu caminho, e que naturalmente me interessava pelas artes, nomeadamente pela música. Embora ainda não compusesse, já tinha, desde os quinze anos, comprado uma guitarra acústica e era algo que me interessava muito.

 

CM: As suas primeiras composições foram aqui em França. Foi o ambiente da altura, de pré-Maio 68, e o convívio com outros músicos Portugueses exilados, que o despertou para a composição e a escrita de canções ou já trazia consigo de Portugal essa vocação?

SG: Já vinha comigo, já era uma coisa que estava completamente em mim. Venho de uma casa que sempre foi muito dada à musica e à literatura, a minha mãe tinha o curso superior de piano, e eu até cheguei a tocar dois anos, mas depois desisti. Ouvia-se muita música em casa e o meu pai era um grande melómano, ele ia muitas vezes ao estrangeiro por causa do trabalho, a Paris e a Londres, por exemplo, e trazia muitos discos. Lia-se também muito em casa, a minha avó paterna tinha sido atriz quando era mais nova e tinha um programa de rádio onde dizia poesia e para mim o som da palavra oral sempre foi uma coisa que me correu nas veias, não foi qualquer coisa que adquiri. Em França, conheci o José Mário Branco e o Luís Cilia que são meus amigos até hoje. Com o José Mário Branco, fiz várias canções, sobretudo nos nossos primeiros discos. Mas quando nessa altura comecei a compor e a escrever tinha um certo bloqueio em relação ao português porque me soava tudo ao que já existia, sobretudo ao José Afonso ou então a poetas como Alexandre O’Neill. E então fiz algumas canções em francês e depois, entretanto, fiz a audição para o musical Hair, em que se apresentaram seis mil pessoas e fui escolhido. Foi muito importante para mim porque me ensinou a estar num palco, a cantar e a representar. Em 1971, houve um desbloqueio em relação à língua portuguesa, o que foi maravilhoso, e, no fim de contas, cheguei à conclusão que a relação mais forte e afetiva era realmente com o português, e, estando longe, escrever na minha língua foi uma maneira de não perder o contacto com a minha cultura.

 

CM: E como foi, então, viver o Maio 68 em França?

SG: Eu estava extremamente disponível, não tinha aqui família, só mais tarde tive crianças, portanto houve muitas noites que vivi Maio 68 por dentro, noites em que dormia na Sorbonne, em que ocupávamos a casa de estudantes portugueses na Cité Universitaire, pois quem vivia lá eram sobretudo as elites ligadas ao regime, e tivemos ali um fórum permanente. Voltei muitas vezes para casa com os olhos vermelhos por causa do gaz lacrimogéneo. Foi um tempo em que estava com as antenas completamente ligadas, como sempre estive e sempre estou, porque, de facto, todos os dias nas ruas se ouviam conversas, as pessoas discutiam umas com as outras, conversavam, arranjavam soluções, e essas soluções eram contestadas. Foi um movimento social, mas também vivencial muito forte no qual estive realmente envolvido.

 

CM: Recebeu a notícia do 25 de abril quando já estava a viver no Canadá. Como foi viver a Revolução à distância?

SG: Eu, entretanto, depois de ter estado ainda em vários países, deixei de ter passaporte. Só me davam a possibilidade de voltar diretamente para Portugal, o que queria dizer ser preso e ir para a guerra em África, o que estava fora de questão. Comecei, na altura, a viver com uma mulher canadiana, a Sheila, que me informou que poderia ter papéis de imigrante no Canadá porque eles estavam a precisar de gente. Fomos então para Montreal e mais tarde para Vancouver. Ao contrário da minha experiência na Europa, no Canadá não tinha praticamente nenhum contacto com Portugueses. Li então num jornal uma notícia muito lacónica que dizia apenas que tanques tinham invadido a praça central de Lisboa. Mas como tinha havido, anteriormente, uma tentativa de golpe a 16 de março, pensei que até fosse um golpe da extrema-direita, porque aqueles generais mais fascistas achavam que o Marcelo Caetano era um líder fraco. No dia seguinte, telefonei ao meu pai e compreendi o que se passava pelo entusiasmo da sua voz. E também li num jornal sobre o programa do MFA, sobre a autonomia das colónias, ainda não se falava de independência, e que os presos políticos tinham sido libertados e pensei “alto que isto é a sério!”. Havia, de facto, qualquer coisa que se estava ali a passar e que não era só cosmética. Por felicidade, já tinha uma viagem marcada, que o meu pai tinha comprado para França, porque ele fazia sessenta anos e queria reunir os três filhos. Cheguei no 1° de Maio a Paris. Tentei falar aos meus amigos, ninguém respondia porque já estavam em Portugal, e eu fui também. Foi uma época muito exaltante, fazíamos aqueles espetáculos coletivos em vários locais, as pessoas conheciam os meus primeiros discos e cantavam “A liberdade está a passar por aqui…” da canção Maré Alta. Nessa altura, só estive dez dias porque estava a trabalhar com uma companhia de teatro em Vancouver e tinha de voltar, a Sheila também estava grávida e já estava tudo planeado. Mas, entretanto, já tinha iniciado a preparação do meu terceiro álbum, o “À Queima-Roupa” e depressa senti que o meu lugar era em Portugal e que tinha de voltar. Era o que fazia sentido e voltei em setembro de 1974.

 

CM: Na sua obra transparece uma verdadeira exigência e busca musical, mas é ao mesmo tempo uma obra engagée, militante. Como consegue este equilíbrio entre a arte e a mensagem?

SG: Eu acho que as minhas canções são de todos os géneros. Há umas que têm um lado mais social, outras que falam mais de amor, de percursos, de interrogações. Algumas das minhas canções consideradas mais importantes têm, sim, um conteúdo social mais marcado, mas outras não, como “Um brilhozinho nos olhos” ou o “O primeiro dia”, ou ainda a “Etelvina” que é sobre a vida de uma rapariga de rua, que entra mais no género de retratos que também gosto muito de fazer. Tenho muita ficção nas minhas canções, mas eu acho que faz tudo parte da vida e também faz parte de olhar para a sociedade e ver o que está mal, e o que se pode melhorar. Eu detesto etiquetas e detesto barreiras. As minhas canções são um género hibrido, são canções urbanas, muito pessoais, e a pessoas reconhecem esse meu universo particular.

 

CM: Mas quando está a criar uma canção dá mais importância à letra ou à música…

SG: Eu sei que sou muito conotado com as letras, com um universo poético-literário forte, mas a música para mim é fulcral. Geralmente, começo pela música. Há pessoas que se espantam porque as palavras são marcantes, mas começo pela música e depois é que encontro o sentido, frases, maneiras de desenvolver um tema, um point de vue como se diz em francês, e, portanto, a música é muito importante. E eu toco sempre com músicos, quase não toco guitarra apesar de a utilizar para compor, mas é porque há no concerto uma parte teatral e com a guitarra estou mais preso, e eu gosto de andar pelo palco, de utilizar as mãos, os gestos. Mas, de maneira mais geral, gosto muito de mudar de rumo porque é-me importante experimentar a criatividade e, portanto, também posso ser intérprete de cinema ou teatro, fazer filmes. Aliás, escrevi e realizei três curtas-metragens de meia hora, gosto imenso de experimentar estas coisas. Este ano, por exemplo, saiu um romance meu, o “Coração mais que perfeito”, depois de uma coletânea de contos que já tinha escrito, a “Vidadupla”.

 

CM: Gosta de assumir riscos…

SG: Sim, é isso, não ficar só na zona de conforto, ir procurar outras coisas. Tenho mesmo essa necessidade de criar.

 

CM: No concerto em Paris tem como músicos a acompanhá-lo, para além do pianista Filipe Raposo, a rapper Capicua. O Sérgio já trabalhou com estes géneros mais urbanos, penso, por exemplo, na sua colaboração com os Da Weasel. Como vê esta nova geração pós-25 de Abril que também é engagée nas suas letras e que se referem a si como fonte de inspiração?

SG: Sim, eles dizem uma coisa engraçada. Que eu sou o primeiro rapper português, pois há uma maneira de lançar a frase do ponto de vista rítmico que é comum. Mas, para mim, a melodia é essencial, e isso distingue-me muito da estética Rap. Acho que a Capicua é alguém que tem grande talento para a escrita e tem uma voz muito pessoal. Isto é uma interação que me é natural. Eu acho que me entendo bem com gente de várias idades. Por vezes, há pessoas que me vêm dizer “ai somos da mesma geração” e eu não sei o que isso quer dizer, porque há pessoas da minha geração com as quais não tenho nada a ver e outras mais novas com as quais me sinto em casa.

 

CM: E como é para si voltar a França, guarda aqui amigos, referências, tem aqui hábitos?

SG: Eu gosto muito de voltar aos locais que conheço. É um enorme prazer voltar a Paris porque é uma cidade onde sei andar à vontade nas ruas e falo a língua. Mas, com raras exceções, os meus amigos voltaram para Portugal e até alguns grandes amigos franceses foram para lá viver porque queriam mudar de vida. Sem contar com os casos mais tristes dos amigos que já morreram.

 

CM: O Sérgio teve uma vida extraordinária, é considerado uma referência para gerações de Portugueses, o que lhe resta ainda fazer, o que o move?

SG: Neste momento, interessa-me muito a escrita, tenho um segundo romance pronto, mas que necessita de uma revisão séria. Quero dar continuidade a esta atividade, até já comecei a escrever o terceiro, mas agora parei porque ando a trabalhar nas canções do meu próximo disco que sairá em outubro. Também tenho concertos com as minhas formações musicais, a minha banda e o Filipe Raposo. Vou fazer um espetáculo no Porto, com uma orquestra de Jazz com dezassete elementos a tocar as minhas canções e comigo a cantar.  Portanto, mudo muito de chip. E gosto de pensar em termos de presente e de futuro próximo e esse futuro próximo, como vês, já está preenchido.

 

CM: E não está farto disto, que o chamem de gigante, monumento, monstro sagrado, de referência?

SG: Não levo isso muito a sério. Eu acho que é tudo muito agradável de ouvir, as pessoas dizem-me coisas muito simpáticas na rua, e eu respondo, é uma coisa genuína, não é uma coisa de vaidade. Porque alguns dos meus heróis são pessoas de quem nunca se ouviu falar, são pessoas que têm um comportamento na vida que para mim é incrível, mas não são mediatizadas. Eu acho que levo isso com uma distância saudável, porque é tudo muito efémero. No outro dia, estava a falar numa sessão do meu livro, numa biblioteca, que este livro demorou um ano e meio a ser escrito e é um livro que escrevi todos os dias. Não escrevo muito, porque me canso, sou um bocadinho de pavio curto, tenho de fazer outra coisa, mas todos os dias escrevia, e nos dias de concerto tinha as pessoas a aplaudir de pé, com emoção, uma energia que damos, mas que também recebemos, e isso é muito bonito porque é um verdadeiro momento de comunhão. Mas depois ia para casa, abria o computador e ia escrever na solidão. E sentes que já passou, que aquilo foi só assim um momento. Isto é muito terapêutico. E, portanto, eu tenho muita consciência disso, o que não me permite resvalar.

 

CM: E para o tentar desmistificar, não quer partilhar um defeito seu?

SG: (risos) Ai eu, às vezes, sou impaciente porque me irrita um bocado que as pessoas sejam incompetentes ou melhor que não sejam briosas, porque podemos ser incompetentes para muita coisa, mas não gosto que não tenham brio nelas e tenho pouca paciência para isso.

 

CM: Mas exterioriza essa impaciência, grita por exemplo?

SG: (risos) Tem de se mandar vir de vez em quando, mas não sou muito de gritar, pode haver coisas em que uma pessoa se passa, mas tem de ser uma coisa tão forte, tem de tocar ali num ponto muito sensível, mas teríamos de estar aqui em psicanálise, eu deitado no divã…

 

CM: Foi o Sérgio que fez Psicologia…

SG: Pois, (risos) eu achava interessante, mas o curso não era como eu pensava, era muito direcionado para a epistemologia genética, a maneira como a inteligência se desenvolve. Eu cheguei até a entrar em crise no meu segundo ano, punha o despertador, mas não me conseguia levantar, tinha um sono patológico, era já a recusa. Mas ainda bem que assim foi, porque isso permitiu-me encontrar a minha verdadeira via, a das artes. Perguntam-me por vezes se a Psicologia me ajudou para escrever canções, mas de facto não, o que me serviu foi pela primeira vez viver sozinho, viver a minha vida em outros países, ser responsável por mim mesmo. Portanto não foi a Psicologia, mas a vida que me ensinou coisas.

 

Agradecemos a disponibilidade e simpatia de Sérgio Godinho e convidamos os nossos leitores a descobrirem o artigo sobre o seu concerto na CAPMag de Junho.

Entrevista realizada por Luísa Semedo

Cap Magellan