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Entrevista : Luisa Rocha

A Cap Magellan propôs a uma turma do Liceu International do Este Parisiense a participação numa Master Class com a fadista Luisa Rocha na Académie de Fado (Vincennes). Os alunos tiveram ocasião de fazerem umas perguntas à cantora e ouvi-la a cantar um belo fado no final. Aqui fica o registo da pequena entrevista que lhe foi feita.

 

Cap Magellan : Boa tarde e obrigada por nos dar essa oportunidade de lhe fazer algumas perguntas. Como surgiu essa vontade e curiosidade de começar a cantar fado?

 

Luisa Rocha : Não sei explicar muito bem. Eu era tão nova… Foi alguma coisa que estava comigo e foi crescendo comigo. Em minha casa ouvia-se muita música porque os meus pais são de uma região de Portugal – que é o Alentejo – em que normalmente todas as festas de família acabam com cantos. E tem o Canto Alentejano, um canto próprio que neste momento é também património mundial.

O fado foi crescendo, e eu fui querendo mostrar ao público como era mas tinha vergonha e tinha que superar o meu medo.

Não era bem uma vontade dos meus pais ou da minha família que eu cantasse, que eu fizesse parte do Canto Alentejano… Eles gostariam muito mais que eu cantasse como eles, mas eu tinha uma inclinação para o fado, não sei explicar muito bem o por quê. E então nessas festas em que se cantava eu terminava sempre com o fado porque eu gostava de fado e acalmava-me. Eu era uma criança muito ativa e então a forma que a minha mãe arranjou de me “medicar” era com fado. A cada vez que eu estava mais agitada e ela queria sossego, punha fado, e isso acabou por me influenciar. Aos cinco anos não percebia bem o tipo de poemas que estava a cantar, é para vocês verem como a música é forte e conquista-nos independentemente do idioma que se fala. Portanto eu apaixonei-me pela melodia do fado tal como as pessoas que não percebem bem o português, mesmo sem conhecer a língua. Depois obviamente fui crescendo, fui começando a querer mostrar-me ao público, mas com muita vergonha, com muito medo.

Com 6 anos, na escola primária, já era conhecida como a “cantora”. A minha professora primária ainda está viva e ainda hoje me vê e me diz: « olha a minha cantora ». Nas festinhas da escola eu queria cantar fado e os miúdos achavam aquilo aborrecido. Foi uma coisa que cresceu naturalmente em mim. Depois passei por todo um percurso. Sempre que havia concursos de fado amador eu participava. Nuns ganhava, noutros não. Depois passei às coletividades. Sempre que havia festas nas comunidades de fado eu ia. Até que um dia num concurso de fado amador há uma pessoa que me ouviu e que me apresentou à Alexandra que é uma figura do panorama musical português muito importante e que fez de Amália numa das peças do encenador Felipe Lafere. Precisamente ali se abriu uma casa de fados e eu fiz parte desse primeiro elenco. Foi para mim um momento de viragem no meu percurso. O primeiro elenco fui eu, o Ricardo Ribeiro, a Alexandra e o António Laranjeira. Este elenco era um elenco fixo. Neste momento o Ricardo Ribeiro tem uma carreira internacional fortíssima, é um excelente fadista. A Alexandra continua com uma casa de fados e continua a fazer os seus trabalhos. Foi aí que eu tive o meu primeiro contacto com profissionais, e essa aprendizagem fez toda a diferença no meu caminho e até mesmo nas decisões que tomei na minha carreira, como por exemplo o facto de se ter gravado um disco. Eu já cantava profissionalmente há dez anos quando decidi gravar um disco, quando me senti com coragem e com maturidade para gravar um disco. Portanto todas estas experiências fazem-nos evoluir enquanto profissionais e enquanto pessoas.

 

 

 

Cap Magellan : Nós também fizemos algumas pesquisas e sabemos que fez uma paragem durante algum tempo antes de recomeçar. E eu queria saber qual foi a sensação de voltar depois de algum tempo ?

 

Luisa Rocha : Eu tive um problema de saúde. Também vos posso contar porque no fundo dar a conhecer este meu exemplo também pode ajudar outras pessoas a ultrapassarem fases difíceis da nossa vida que às vezes acontecem. Também faz parte, infelizmente. Eu tive um tumor na glândula da tireóide que é muito perto das cordas vocais. Eu tinho 23 anos. Foi um momento complicado para mim de gerir quando eu achava que ia investir-me um pouco mais na minha carreira e tive que fazer uma paragem de sete anos, o que é dificil… Mas ultrapassei, fiquei ótima, fiquei brava, continuei a cantar, não me afetou nada a voz e portanto recomecei no Museu do Fado com o António Rocha que é um dos maiores estilistas de fado ainda vivo. Ele é conhecido como o rei do fado menor, exatamente pelo estilo porque canta o mesmo fado vinte, trinta vezes, sempre de forma diferente. E depois fui para o Museu do Fado e fiz com ele alguns melhoramentos. Não se pode aprender isto na escola, porque o fado não se aprende, o fado nasce connosco, mas tal como outros gêneros pode-se aperfeiçoar e eu fiz isso no Museu do Fado. E por curiosidade mais tarde fui colega do António numa casa de fados muito emblemática. Para vocês verem como a vida é engraçada…

 

 

Cap Magellan : A senhora fez também uma participação no album “Fadário”, que foi um projeto envolvido com literatura. Como estudamos literatura no liceu, queríamos saber a sua opinião na importância que a poesia pode ter num estilo musical como o fado.

 

Luisa Rocha : Claro que sim, é importantíssimo, as palavras são uma arma que nós temos. As palavras quando são realmente fortes e ditas com um máximo de verdade e emoção, para quem canta é o que nos faz emocionar e é o que nos faz ter verdade e ter força para transmitir o que temos a dizer às outras pessoas. Portanto é muito importante a forma como queremos cantar, a forma como escolhemos os poetas. Obviamente que a literatura é francamente importante para que haja um leque de escolhas que se adapte, uns mais a mim e outros a outras pessoas. É muito importante. Aliás, vocês que estudam literatura podiam começar a escrever para o fado, o que é que acham? (risos) O fado tem uma métrica específica mas depois podemos conversar sobre isso.

 

Cap Magellan : Continuando a falar em palavras, nós sabemos que uns dos temas principais do fado é a saudade e na sua opinião porque é que tem tanto peso e tanta importância essa palavra no fado?

 

Luisa Rocha : A saudade pode ser das coisas melhores e piores, mas é uma palavra muito marcante. Vocês se calhar até conseguem explicar isso melhor do que eu porque a maioria vivem em França e são de outras origens. Pode ser até uma dor boa sentir saudades de alguém, mas é uma coisa que não se consegue bem explicar, tal como o fado. Não tem tradução, faz parte da cultura. E nós somos os filhos de uma geração que teve que emigrar para França para ter uma vida melhor mas continuamos a ter uma ligação especial com o nosso país, com Portugal. Saudade também pode ser de um cheiro, de uma comida, de uma pessoa que não vemos há algum tempo. A saudade faz parte das nossas vidas. Há sempre a saudade de qualquer coisa. A palavra existe mais na nossa língua mas o facto é que todos sentimos saudades de alguma coisa.

 

Cap Magellan : Em setembro de 2015 foi lançado o disco “Fado de Neve”. Como foi a preparação desse álbum e qual foi a sensação de ter lançado um disco?

 

Luisa Rocha : Este foi o meu segundo disco e é sempre um trabalho muito intenso porque é um registro que fica para toda a vida. Eu acho que há uma diferença entre cantar num concerto e fazer um registro que fica para toda a vida. Eu acho que é um trabalho que tem que ser muito cuidado e demoro sempre muito tempo de um disco para o outro porque acho que para fazer um registro discográfico há que ter alguma coisa para acrescentar. Acrescentar, para mim, é na maturidade. Não na maturidade que eu ganho a cantar mas na maturidade que ganho com as minhas vivências. Há sempre um cuidado muito especial na escolha das letras, na escolha das palavras, na escolha dos fados porque nem todos os fados se adaptam às nossas vozes. Depois há a escolha dos músicos, há os arranjos, é um processo bastante demorado e criativo. Juntar todas as equipas também não é fácil porque as pessoas do fado felizmente têm muito trabalho fora do país. E depois é aceitar ir ao estúdio também, para quem está habituado a cantar diretamente para o público, como eu sempre estive desde criança. Neste segundo disco eu já estava mais habituada, mas no primeiro disco eu sentia-me num aquário, faltavam-me as pessoas, isso impactava até na maneira de cantar. Mesmo num concerto ou na casa de fados faz toda a diferença a maneira como o público reage à minha forma de cantar. Neste segundo disco já tinha conhecimentos adquiridos do primeiro disco mas é um processo que não é fácil para quem está muito habituada com o público. Para mim pessoalmente não é um processso de todo fácil, não é a minha zona de conforto mas portanto é necessário fazer os discos e temos que arranjar maneiras de nos defendermos disso. Quando acaba obviamente, fico muito feliz com o resultado mas também sou muito crítica de mim mesma. Mas é uma satisfação enorme poder dar ao público um trabalho cuidado e que nos deixa felizes.

 

 

Cap Magellan : Quais são as tres principais competências para ser fadista na sua opinião?

Luisa Rocha : Ser fadista é uma coisa que não se explica. Nós sabemos distinguir quem é fadista ou quem canta muito bem fado. Mas não sabemos explicar porque uma pessoa é fadista ou porque ela canta muito bem fado. É uma linguagem, é uma forma de estar na vida, é a capacidade de tu interpretares um poema naquela linguagem ou naquela emoção. Os músicos são importantíssimos porque há um diálogo entre os músicos e o fadista. Mas não te sei explicar o que leva uma pessoa a ser fadista. Não há uma razão específica.

O fado é muito mais fé que razão. Para mim é religioso. Estar numa casa de fados e quando se pede silêncio… Tem uma razão específica ao silêncio que nós pedimos no fado. É porque é uma concentração nas palavras que temos a dizer que se há um barulho, desconcentra-te. E aquilo é religioso para nós. É o momento em que estou a passar uma palavra a alguém, e eu quero tocar alguém com aquela palavra. É essa a minha função: dar vida àquela palavra. Se alguém provoca um distúrbio é aflitivo para quem está a cantar. Agora o que se pode fazer para ser fadista, para atingir isso, eu não sei explicar. É uma vocação.

Há qualquer coisa que é mais que razão. Que é fé e é emocional. Isso não se aprende. É como perguntares como é que um pintor faz uma pintura fabulosa, ou como é que ele aprendeu. Ele não aprendeu. Ele pode aperfeiçoar mas é uma arte que se pode aperfeiçoar, não se pode aprender. Por mais técnica que me ensines eu nunca vou pintar um quadro que é uma coisa para qual eu não tenho jeito nenhum. É um dom que tens e podes aperfeiçoar mas é uma dádiva que não podes atingir se não te for dado.

 

 

Cap Magellan : Qual foi o maior obstáculo que já superou na carreira?

Luisa Rocha : Há a paragem que tive que fazer mas foi pessoal. As partes técnicas são talvez as mais complicadas de ultrapassar. Há muita concorrência, há muita gente a cantar bem e para se destacar não é fácil. Tem que se trabalhar imenso e é uma vida diferente das “vidas normais” (riso), ninguém tem os mesmos horários. Eu por exemplo tenho uma filha e é complicado fazer a gestão de estar muitas vezes fora de Portugal. Tento ter um equilíbrio, mas é uma vida completamente diferente das “vidas normais”. É uma das coisas que temos que ter sempre atenção e ultrapassar, porque é isso que nos faz feliz e ser feliz é o mais importante da nossa vida e eu também não saberia ser feliz se não cantasse.

 

 

Cap Magellan : Para terminar, queriamos perguntar se tem algum objetivo de um projeto final?

Luisa Rocha : Sim, agora tenho o objetivo de fazer um terceiro disco ao vivo exatamente para ultrapassar aquela minha lacuna de estar em estúdio e já estamos a preparar, estamos na fase de preparação, na escolha dos poemas, e vou fazer o disco ao vivo com público provavelmente na casa de fado onde eu canto que é O Fado Em Si, uma casa lindíssima e que tem um ambiente propício ao fado então esse é meu próximo passo.

 

 

Outras perguntas:

Cap Magellan : Há algum exemplo de fadista que leve para a vida toda?

 

Luisa Rocha : Há duas pessoas. Amália Rodrigues obviamente é o maior exemplo que nós temos. Eu costumo chamar-lhe minha professora da alma. Ela tem qualquer coisa que não se explica mas quando ouço, ela ensina minha alma. Foi a pessoa mais importante do fado até hoje. Nesta nova geração, a pessoa que me toca profundamente é a Carminho. Vou muitas vezes ouvi-la, até para inspiração. Ela é um grande exemplo do que é ser fadista.

 

Cap Magellan : Além do fado, quais são suas influências musicais?

 

Luisa Rocha : O Canto Alentejano, que é um canto que normalmente é só de vozes e é extraordinário. É muito emocionante e dá para levar dali algumas influências para o fado. Gosto também de jazz, de soul, exploro de tudo um pouco.

 

 

Cap Magellan : Como funciona a métrica do fado?

Luisa Rocha : O fado tem quadras, quintilhas, sextilhas e decassílabos. Essa é fundamentalmente a métrica do fado tradicional. Dez fadistas podem cantar o mesmo fado tradicional com letras diferentes, é só agarrar na letra, se tiver aquela métrica, e por-na no fado. Depois existe o fado canção, que é o fado que já tem o couplet e o refrão então tem que ser musicado. O fado tradicional não tem refrão, só tem melodia, é sempre igual. O fadista é que vai estilar, mas obviamente no respeito da melodia. Normalmente fazemos sempre a primeira e a última como o escritor a fez, e o resto improvisamos um bocado como se faz no jazz. Por isso cada um tem o seu estilo, e as próprias palavras nos ajudam a procurar um estilo.

 

No final da entrevista, a Luisa Rocha presenteia-nos cantando um fado.

Jessica Assard e os seus alunos
capmag@capmagellan.org

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