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Exposição-manifesto de Bordalo II em Paris

Nativo de Lisboa, artista do mundo, Artur Bordalo, aka Bordalo II, viaja incansavelmente com uma arte que de tudo faz para sensibilizar a nossa sociedade para a necessidade de salvar o planeta.

Pelo amanhecer do ano, Bordalo II escolheu Paris como palco de sua exposição-manifesto, Accord de Paris, com o intuito de despertar a consciência colectiva para a devastação da natureza, consequência da nossa sociedade consumo. Em trinta esculturas de animais ameaçados de extinção, Artur Bordalo traz os animais de volta à vida, usando o que os mata: o plástico. A Cap Magellan foi ao seu encontro.

Cap Magellan : Quais são as tuas influências artísticas?

Artur Bordalo : As referências vão evoluindo, mas posso citar Steve Cuts, Farewell, Bárbara Daniels, Pawev Kuczinsky, e o maior para mim, Sebastião Salgado.

Cap Magellan : Quando e como surgiu a ideia de usares lixo para fazer a tua arte?

Artur Bordalo : Foi um percurso natural. Já tinha começado a fazer experiências com lixo, explorando diferentes temáticas e composições. Materializou-se com a peça “Big Crab” realizada em 2013 para o festival Walk&Talk nos Açores, em Ponta Delgada.

Cap Magellan : O que te seduz nesse material pouco nobre?

Artur Bordalo : Gosto de utilizar material desprezado para que possa ser apreciado de outra forma, dando-lhe uma 2ª oportunidade. Os que ninguém vai aproveitar, ou os mais poluentes, dar uma segunda vida ao decadente é algo que me motiva.

Cap Magellan : Qual é o processo de criação?

Artur Bordalo : É um processo muito livre, freestyle. Obtenho os materiais, corto-os em pedaços, e utilizando uma imagem ou esboço de referência, componho a peça até a transformar no que pretendo.

Cap Magellan : Como surgiu o tema dos animais? Existe alguma ligação com material usado?

Artur Bordalo : Sempre gostei de bichos e da Natureza, e mesmo que não tenha criado os Big Trash Animals com esse propósito inicialmente, a ideia surgiu por experimentação, e rapidamente cheguei a esse caminho. Percebi que o meu conceito e a consciência ambiental tinham de estar relacionados. Vi o potencial de usar estes materiais para fazer os retratos deles. O material utilizado pode dar outra alma às peças, e neste caso eu pretendo que as temáticas estejam relacionadas com os problemas ambientais. Isto não falando das texturas e cores gastas que estes materiais proporcionam. Com o meu trabalho, a ideia passa por representar uma imagem da natureza, neste caso os animais, construída com aquilo que os(a) destrói — o lixo, a poluição, o desperdício e a contaminação. Os animais são a forma directa de retratar a Natureza, pois têm expressões, movimento, sentimentos, e agem de uma forma que nos pode sensibilizar. Assim são o melhor meio para pintar e modelar, quando se pretende abordar questões ambientais.

Cap Magellan : Qual é o segredo para imprimir tanta expressividade no olhar dos animais criados?

Artur Bordalo : Não há segredo. Os olhos são um dos elementos mais importantes para dar expressão a uma personagem, para mim devem ser feitos com atenção especial, de forma simples e directa, e com um toque de brilho subtil.

Cap Magellan : Muitos dos teus animais têm um olhar bem terno, mas triste : como pretendes transmitir uma mensagem optimista ?

Artur Bordalo : A natureza está triste, sim, mas isso quer dizer que ainda está viva. Portanto ainda há uma oportunidade de mudança.

 

Foto : Manuel Manso / Raymesh Cintron / Brian Tallman / Bordalo II

 

Cap Magellan : Que reações percebes em quem se depara com o teu trabalho ?

Artur Bordalo : Tendo em conta que o início do trabalho começa com o acumular de um grande monte de «lixo», as reacções iniciais são de curiosidade, mas não obrigatoriamente de interesse positivo. Com o decorrer da construção, a confusão fica ainda maior, e algumas pessoas entendem que é um processo de transformação para fazer algo, outras acham que estou a fazer uma confusão ainda maior.

Depois há o momento mágico em que a peça é colocada na parede e começa a ser pintada, e aí em pouco menos de uma hora com alguma pintura, salpicos, escorridos e cortes a imagem ganha vida, e é a parte de transição das reacções do público – normalmente passam a ser positivas. Mas o que me interessa é que se entenda donde veio tudo aquilo, e porquê.

Cap Magellan : Isso quer dizer que sentes uma responsabilidade militante enquanto artista ?

Artur Bordalo : A arte é livre, não deve ser condicionada por motivações políticas ou sociais, mas, para mim a arte ganha bastante se não for superficial e tiver alguma presença activa na vida das pessoas.

A minha responsabilidade como artista com visibilidade é enviar todas as mensagens para que as pessoas possam pensar sobre o que realmente interessa. Para mim, é fulcral ter uma palavra a dizer. É um desperdício trabalhar num espaço com visibilidade e não ter nada relevante para dizer.

O meu objectivo é fazer o público pensar sobre o que está por detrás das cores, formas e da imagem no seu todo. É uma mistura de mensagens subliminares, onde eu falo sobre como os nossos hábitos estão a destruir o mundo, a natureza, os animais, e na realidade o nosso habitat. Quero confrontar as pessoas com o desperdício que produzimos, para que questionemos os nossos hábitos.

Cap Magellan : Tens visto alguma evolução das mentalidades nesse sentido ?

Artur Bordalo : Sim, mas ainda há muito para fazer, e enquanto neste momento ainda estamos na batalha da reciclagem, já entendemos também que temos que trabalhar no próximo passo que é diminuir significantemente o consumo e o desperdício. Isso é responsabilidade de cada indivíduo, mas também das marcas que todos adoramos e que nos impingem as suas novas tendências semana após semana, que nos fazem acreditar que sem elas seremos extremamente infelizes ou inferiores ao vizinho do lado, o que é um tremenda mentira, porque na verdade as melhores coisas da vida são de borla.

Cap Magellan : A tua exposição-manifesto leva o nome propositado, imagino, de Accord de Paris. Como te sentes em relação às posições de alguns actores desses acordos e de outras figuras políticas actuais sobre questões ecológicas?

Artur Bordalo : Ainda estou chocado com o facto de personagens como o Trump, Bolsonaro e outros ainda não respeitarem o meio ambiente nem as pessoas enquanto indivíduos. Terem chegado ao poder neste século só demonstra que a desinformação e o não investimento na educação podem dar frutos catastróficos. De facto é mais fácil comandar um povo desinformado e sem capacidade de análise dos factos. A História deveria ter-nos ensinado isso.

Cap Magellan : Daí a faceta pedagógica da tua exposição ? Podes falar-nos mais sobre isso?

Artur Bordalo : Completamente, o meu maior objectivo é « falar » para os miúdos, porque temos que treinar as gerações mais novas a não cometer os erros que vemos ser cometidos hoje. Por isso, as manhãs da exposição serão reservadas para os miúdos, com dispositivos e materiais educativos (folhetos informativos, painéis, vídeos, etc.) e oficinas divertidas.

Cap Magellan : O que tens a dizer à comunidade portuguesa de França?

Artur Bordalo : Espero que tenham consciência do mundo em que vivemos, que façam pelo menos os mínimos em relação a reciclar e não desperdiçar, e que não alimentem algumas políticas assustadoras que temos visto crescer em França, porque afinal de contas não há muito tempo eram eles os refugiados e os imigrantes, que deixaram o nosso país à procura de oportunidades melhores, independentemente da cor, religião, crenças, moda ou motivações de fuga.

Agradecemos a simpatia e disponibilidade do Bordalo II e convidamos todos os leitores a descobrir a exposição.

Accord de Paris de Bordalo II é uma exposição apresentada pela galeria Mathgoth, a decorrer de 26 de janeiro a 2 de março de 2019 no 10/12 avenue de France no 13° arrondissement de Paris, num espaço bruto de 700m.

A inauguração ocorreu a 26 de janeiro. A exposição tem entrada livre, de terça-feira a domingo, entre as 14h e as 19h, estando as manhãs reservadas às crianças em idade escolar.

Vanessa Capela
capmag@capmagellan.org

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