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O bilinguismo : uma riqueza social, cultural e educacional

O conceito de bilinguismo tem sido alvo de várias interpretações ao longo dos anos. Segundo vários autores existem muitas formas de ser bilingue! Se para uns a definição apenas se valida para quem domina pelo menos duas línguas na perfeição, para outros, fazer-se entender em dois idiomas já é suficiente.

 

A transformação geracional impulsionou uma grande movimentação social que fez aparecer uma mescla de culturas e línguas que coabitam numa sociedade moderna onde já não é possível falar apenas uma língua. Este crescimento linguístico enfraqueceu o monolinguismo, conceito defensor de que a aprendizagem simultânea de duas línguas era prejudicial ao desenvolvimento escolar das crianças. Segundo este conceito, a criança bilingue possuia menos capacidades nas duas línguas mesmo que uma delas fosse a sua língua materna. Porém, a necessidade de contacto entre os povos fez com que o monolinguismo, fosse dando lugar a um multilinguismo onde se misturam e interligam várias línguas.

Em 2016, François Grosjean referiu que metade da população do mundo era bilingue. E enumerou fatores tais como a migração política, económica, religiosa e a educação como os motores que impulsionaram e valorizaram o bilinguismo, inovando o conhecimento e alargando as competências linguísticas das gerações futuras. Presentemente, existem cerca de 195 países em todo o mundo e estima-se que o número de línguas faladas pela população mundial varie entre 6500 e 7.000. O bilinguismo é qualificado como um ato natural uma vez que ele existe em todos os países do mundo, em todas as classes sociais e em todas as classes etárias.

Com base nesta interculturalidade realizaram-se vários estudos para perceber melhor o fenómeno do bilinguismo e procurar dar respostas a nível educativo, sobretudo às crianças que no seu contexto escolar e familiar têm de preparar-se para este desafio. Apesar de alguns teóricos especularem sobre a capacidade das crianças em aprender duas ou mais línguas em simultâneo, a professora Cristina Flores refere que “a criança que é exposta a dois idiomas é capaz de adquiri-los como duas línguas maternas, sem desvantagens cognitivas e acrescenta ainda que a mente humana está preparada para o bilinguismo.

A escola assume assim um papel fundamental na ajuda e apoio ao bilinguismo. Além de respeitar a língua materna das crianças, ensina-lhes a língua da sociedade em que estão inseridas permitindo que adquiram competências linguísticas equivalentes nas duas línguas. O que põe em causa frequentemente estas competências é o prestígio com que a sociedade caracteriza cada uma delas, isto é, quando ocorrem situações em que há uma grande desvalorização de uma língua em relação à outra, a criança tende a exprimir-se na língua valorizada pondo de parte a que é considerada de menor importância. Nestes casos, pode acontecer um grande desnível na aprendizagem das duas línguas levando mesmo ao abandono de uma delas.

 

O receio de uma má integração, tanto dos pais a nível social como da criança junto dos seus novos colegas, prepara todo um caminho que direciona a aprendizagem para a língua do país de acolhimento. Para preservar a unidade familiar, muitas famílias optam por abandonar a sua língua materna resolvendo desta forma um problema que creem vir a existir na criança, com a aprendizagem de duas  línguas em simultâneo. Agindo desta forma, levam a uma situação contrária à desejada pois haverá um corte de aproximação com os familiares pelo facto da criança não se exprimir na língua materna dos progenitores.

 

Os adultos temem pela identidade da criança bilingue, pelo seu equilíbrio interior, pela sua posição complicada face à aprendizagem de duas ou mais línguas. Mas, colocar de parte uma das línguas não a vai ajudar a viver mais feliz, deve antes ser preparada e orientada para ser capaz de lidar com realidades culturais e linguísticas diferentes da sua realidade familiar. Diz-se que a experiência do bilinguismo não tem nada de excecional pois o homem nasce de um pai e de uma mãe que em tempos foram completamente estrangeiros um para o outro e oriundos de culturas diferentes.

Le metissage (o cruzamento), de acordo com aquilo que os genetistas apregoam, será cada vez mais frequente e a garantia de vida e vigor das gerações futuras. Não há que temer a mistura de línguas numa criança. O facto é que ela tem ao seu dispor muitas palavras que vai aplicar sem realmente ter a noção do seu significado. Não há razão alguma para que os pais julguem que os filhos padecem de algum problema de personalidade quando pronunciam frases sem nexo.

Carl Dodson, professor linguístico, refere que durante os primeiros anos a criança não tem consciência de estar a utilizar duas línguas. Só depois, entre os três e os cinco anos é que começa a separá-las. Claudine Brohy que estudou o comportamento linguístico em vinte famílias de Friburgo concluiu que a aquisição das línguas evolue qualquer que seja a atitude adotada pelos pais. Para um maior rigor deve esclarecer-se que existem duas hipóteses de a criança aprender duas línguas em simultâneo, ou a aquisição começa como um todo para se separar em seguida; ou as línguas desenvolvem-se separadamente desde o início do contacto, o que não exclui algumas interferências. Ambas as hipóteses levam a um mesmo objetivo, a criança ser capaz de usar duas línguas no seu quotidiano.

Chega um momento em que a criança as distingue completamente e o mais sensato é não forçar situações e deixar que as coisas fluam naturalmente. Cabe aos pais respeitar a integração da criança na comunidade e o apropriamento da língua e cultura locais e, de lhe facultar a liberdade de viver essa integração deixando-a sentir como é importante a oportunidade de poder exprimir-se em duas línguas. Se ainda existiam algumas dúvidas sobre as vantagens de uma criança ser bilingue, um estudo da Universidade de Oregon nos Estados Unidos demonstrou que as crianças que falam duas línguas beneficiam de vantagens decisivas na capacidade da atenção e aptidões escolares. Este estudo confirmou ainda que as crianças bilingues eram mais rápidas a nível do controlo inibitório (a aptidão de não agir sob o simples efeito de um impulso mas sob funções executivas) ditas “capacidades cognitivas” que permitem organizar pensamentos e comportamentos assim como as capacidades da atenção. O controlo inibidor e as funções executivas são competências fundamentais para o sucesso escolar e mais tarde, estas capacidades cognitivas, terão também efeitos positivos na saúde e bem-estar das crianças.

No contexto atual, onde há uma grande concentração de famílias multilingues, torna-se essencial valorizar todas as línguas e preparar as escolas para que as crianças possam desenvolver competências de aprendizagem que lhes permitam ter uma participação ativa na sociedade. Tendo em conta a literatura e a diversidade linguística do século XXI, a sociedade contemporânea perspetiva o bilinguismo como um fenómeno positivo a nível social, cultural e educacional.

 

Anabela Custódio, professora
Paru dans le CAPMag de septembre 2019
capmag@capmagellan.org

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