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E as personalidades lusófonas do ano de 2018 foram…

Tal como a tradição dita, o mês de Janeiro é, para a Cap Magellan, un momento de retrospectiva sobre o ano anterior. Assim, apresentamos as personalidades que marcaram o ano de 2018.


Política

Marielle Franco

Marielle Franco é sem dúvida uma das figuras de 2018. O seu assassinato teve uma cobertura mundial e tornou-se no símbolo da resistência aos extremismos. Marielle Franco era uma mulher brasileira, política de esquerda, negra, LGBT, oriunda das favelas do Rio de Janeiro. Condensava, portanto, várias características que são habitualmente o alvo do ódio de extremistas pelo mundo inteiro. Marielle Franco personificava a convergência das lutas. Era uma política filiada ao PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), socióloga, defensora dos Direitos Humanos e nomeadamente dos direitos das pessoas LGBT e militante feminista e antirracista.

Eleita nas municipais de 2016, Marielle Franco era vereadora do Rio de Janeiro para a legislatura de 2017-2020. E denunciava de forma corajosa a violência policial militar no Brasil sobretudo a que é exercida contra as populações mais vulneráveis das favelas.

Marielle Franco, de seu nome completo Marielle Francisco da Silva, nasceu a 27 de julho de 1979 e cresceu na favela do Complexo do Maré, nos subúrbios do Rio de Janeiro. Trabalhou como vendedora enquanto estudava e aos dezoito anos começou a trabalhar como educadora infantil. Em 2002 inscreveu-se na Universidade Católica do Rio de Janeiro e diplomou-se em Ciências Sociais com uma bolsa de estudos integral obtida através do programa “Universidade para Todos – Prouni”. Concluiu depois um mestrado em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense (UFF), defendendo uma dissertação intitulada “UPP – A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro”.

A ativista, assumidamente bissexual, teve uma filha, Luyara em 1998, com o primeiro namorado com quem casou. Em 2002 separou-se do marido, e iniciou um relacionamento amoroso com Mônica Benício com a qual tinha casamento marcado para fim de 2018.

Foi em 2006 que Marielle, iniciou a sua carreira política ao integrar a equipa de campanha do deputado Marcelo Freixo, tornando-se sua assessora parlamentar durante dez anos e assumiu a coordenação da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro onde o seu papel era o de prestar auxílio psicológico e jurídico às vítimas de homicídios, inclusive de polícias. Como vereadora, presidiu a Comissão de Defesa da Mulher e participou numa comissão de monitoração de intervenção federal no Rio de Janeiro.

Foi assassinada dia 14 de março de 2018 juntamente com o seu motorista por indivíduos que a partir de outro carro dispararam vários tiros para o interior da viatura onde se encontrava Marielle Franco.  São apontadas motivações políticas ou de vingança de autoridades policiais, visto os executantes não terem realizado nenhum furto de bens e o lote de munições utilizada ser proveniente da polícia federal.

Este assassinato levantou questões sobre o regresso de uma ditadura militar e da vulnerabilidade do estado democrático brasileiro. A emoção foi partilhada em muitos países nomeadamente nas redes sociais através do hasthag Marielle Presente e tornou-se num slogan de luta em muitas manifestações sobretudo durante a campanha para as eleições presidenciais brasileiras que viram ganhar Jair Bolsonaro, o único candidato à presidência que não emitiu um comunicado de pesar por Marielle Franco.

A Assembleia legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou em julho de 2018 uma lei que institui o dia 14 de março como o “Dia Marielle Franco – Dia de luta contra o genocídio da Mulher Negra” no calendário oficial do estado carioca. #MariellePresente

 

Luísa Semedo – capmag@capmagellan.org

 


Política

João Semedo
Médico de profissão, João Semedo faleceu em Julho 2018 aos 67 anos, vítima de cancro. Nascido em 1951, a vontade de intervir politicamente do antigo líder do Bloco de Esquerda desenvolveu-se nas cadeiras da Faculdade de Medicina quando participou numa manifestação contra a guerra do Vietname. Junta-se à União de Estudantes Comunistas em 1972 onde é eleito para a Associação de Estudantes e em 1973 é preso durante duas semanas em Caxias por distribuir panfletos pedindo eleições livres.

Depois do 25 de Abril, já militante do PCP, participa em campanhas de alfabetização para adultos. Em 1978, muda-se para o Porto e torna-se funcionário do partido. É o seu trabalho até 1991. O cancro nas cordas vocais acabou por o afastar da vida política e renunciou ao mandato na Assembleia da República, em 2015, depois de nove anos como deputado. Voltou à política nas últimas eleições autárquicas onde chegou a candidatar-se à câmara municipal do Porto, mas desistiu da corrida novamente por motivos de saúde.

Manteve, no entanto, a atividade política : publicou por exemplo um livro com António Arnaut sobre o Sistema Nacional de Saúde e coordenou outro sobre o movimento pela despenalização da eutanásia, a última das suas causas públicas.

Descrito pelas pessoas mais próximas como um homem muito bom e com um coração gigante, a vida de Semedo sempre se dividiu entre a política e a medicina. Destacou-se nos últimos anos pela defesa da despenalização da eutanásia e pela proposta de uma nova Lei de Bases da Saúde.

 

Literatura

Ana Margarida de Carvalho
Ana Margarida de Carvalho é jornalista e escritora, licenciada em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa. Este ano, o livro Pequenos Delírios Domésticos venceu o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco instituído em 1991. Este último distingue uma obra em língua portuguesa de um autor português ou de país africano de expressão portuguesa, publicada em livro, 1.ª edição, no decurso do ano de 2017.

O júri, constituído por Cândido Oliveira Martins, Fernando Batista e Isabel Cristina Mateus, considerou que é «um conjunto de contos que surpreendem o leitor pela invulgar atualidade temática e sociológica» com um «notável trabalho de precisão e depuramento da palavra e, acima de tudo, a um olhar atento aos dramas humanos, independentemente do lugar mais ou menos doméstico que lhes serve de palco.»

Os contos abordam temáticas diferentes : os incêndios que devastaram o país em 2017, os dramas íntimos de portugueses convertidos ao estado islâmico ou ainda a vida de refugiados sírios num lar de idosos…

A escritora já tinha recebido também, por duas vezes, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores.

 

Cinema

Leonor Teles
Leonor Teles nasceu em Vila Franca de Xira em 1992. No início de 2016 venceu o Urso de Ouro de melhor curta-metragem no Festival de Berlim com “Balada de um Batráquio”. A sua segunda curta-metragem relacionava-se com a temática da primeira, “Rhoma Acans” (2012), um projeto de escola onde se confrontava com a realidade de muitas raparigas da sua idade de origem cigana. “Balada de um Batráquio”continuava a falar dessas mesmas origens, mas desta vez não dentro da comunidade, mas dos sapos que as pessoas colocam na entrada de edifícios para afugentar ciganos. Um filme punk-rock, não só pela atitude que Leonor Teles tinha para com os sapos – parti-los, claro –, mas porque sentia-se um quebrar com um passado português de “primeiras curtas”. Leonor Teles faz parte de uma nova geração do cinema português.

Esta primeira longa-metragem, “Terra Franca”, estreou em março do ano passado no Festival Cinema du Réel (onde recebeu o SCAM International Award) e tem sido projetada em diversos festivais. Em “Terra Franca”, Leonor Teles fala do lugar onde nasceu, Vila Franca de Xira. O filme recebeu, em novembro o Prémio de Melhor Primeira Obra da Competição Internacional na 33.ª edição do Festival Internacional de Cinema do Mar da Prata, na Argentina, e também foi distinguido com o Prémio Cidade de Amiens, no 38.º Festival Internacional do Filme, que se realiza nesta cidade a 120 quilómetros a norte de Paris.

 

Fotografia

Gérald Bloncourt
No mês de Outubro passado, faleceu Gérald Bloncourt, um fotógrafo e pintor haitiano que teve um papel considerável como testemunha da história portuguesa tal como a condição de vida dos emigrantes nos anos 60 em Paris, a Revolução dos Cravos…

Gérald Bloncourt apaixonou-se pelos grandes descobrimentos portugueses folheando os livros da mãe e promete-se que um dia irá ao encontro desse povo. Fundador do partido comunista haitiano e resistente, o artista foi expulso do país nos anos 40 e instalou-se em França onde se formou em fotografia. Torna-se repórter independente e trabalha para vários jornais, fotografando o mundo do trabalho da classe operária e as lutas sociais que marcaram a segunda metade do século XX.

Para ele, a fotografia é um meio extraordinário para testemunhar, denunciar e participar nas lutas para uma sociedade mais justa.

Foi finalmente, pela primeira vez, para Portugal em 1966 e fotografou a miséria do povo português que sofria da ditadura portuguesa. Também esteve presente em Lisboa em 1974 durante a Revolução dos Cravos. O livro Le Regard engagé avec les fils des grands découvreurs retraça a magnífica obra de Gérald Bloncourt em Portugal, dividida em quatro partes: sob o jugo da ditadura, nas estradas do exílio, nos bairros de lata da região parisiense e finalmente num país libertado por uma revolução atípica.

Em 2016 recebeu uma decoração pelo presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa…

 

Desporto

Futebol
Este ano, a seleção portuguesa sub-19 conquistou pela primeira vez o primeiro título de sub-19. Até agora, Portugal “só” era o país com maior número de finais perdidas – oito, em 1971, 1988, 1990, 1992, 1997, 2003, 2014 e 2017 -, as três últimas já com o atual modelo competitivo. Felicitações aos nossos jogadores !
A seleção portuguesa de futsal para atletas com síndrome Down sagrou-se também campeã da Europa ao derrotar na final a Itália, por 4-0, numa competição que decorreu em Terni na Itália. Muitos parabéns !

 

Rosa Mota
Este ano, a portuguesa Rosa Mota venceu a mini-maratona de Macau, aos 60 anos, três décadas após ter conquistado a medalha olímpica em Seul, na Coreia do Sul.
A ex-campeã do mundo e da Europa foi convidada pela organização da 37.ª Maratona Internacional para assumir o papel de ‘embaixadora’ antidoping e bateu o tempo alcançado em 2016.

 

Arte

Helena Almeida
Nascida em 1934 em Lisboa, onde viveu e trabalhou, Helena Almeida completou um curso de pintura no Departamento de Belas-Artes da Universidade de Lisboa em 1955 e expôs regularmente desde o final de 1960. Desde sempre, ela explora e põe em causa as formas tradicionais de expressão, especialmente a pintura, seguindo um desejo constante de quebrar o espaço delimitado pelo plano pictórico. Helena Almeida é considerada uma das maiores artistas portuguesas contemporâneas. A sua longa carreira permitiu-lhe estabelecer-se como uma figura importante no desempenho e arte conceitual na década de 1970, incluindo a participação em grandes eventos internacionais, como a Bienal de Veneza em 1982 e 2005.

Nas suas obras – pintura, fotografia, vídeo e desenho – o corpo regista, ocupa e define o espaço. A obra de Helena Almeida é um ato condensado, cuidadosamente cenografado e altamente poético. A intransigência com que Helena Almeida trata esses assuntos faz de sua obra, como Isabel Carlos disse, «um dos mais radicalmente consistentes de arte Português da segunda metade do século XX.» Faleceu em 2018.

 

Julio Pomar
Em maio, faleceu Júlio Pomar, uma figura fundamental da arte portuguesa. Frequentou a Escola António Arroio, onde foi colega de artistas e escritores como Marcelino Vespeira, Mário Cesariny de Vasconcelos… Em 1942 entra na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e, na sequência de uma exposição que faz com colegas no atelier que partilhavam na Rua das Flores, Almada Negreiros compra-lhe um quadro, que faz expor no VII Salão de Arte Moderna do Secretariado de Propaganda Nacional.

Em 1944, devido à discriminação de que eram alvo em Lisboa os alunos vindos da António Arroio, transfere-se para a Escola de Belas Artes do Porto, onde se liga ao grupo que organiza as Exposições Independentes (Fernando Lanhas, Júlio Resende, Amândio Silva). Em 1945 Júlio Pomar junta-se às Juventudes Comunistas e fará parte no ano seguinte do MUD Juvenil, o que o torna preso pela PIDE em 1947. Algumas das suas obras neo-realistas mais emblemáticas serão expostas na Exposição Geral de Artes Plásticas desse ano, como Almoço do Trolha (inacabado) e Resistência, que será apreendido.

Os temas que pinta vão desde a relação com a literatura, a tradição popular e os acontecimentos da época, como o Maio de 68. Em 1974 é um dos 48 artistas que participam na pintura do mural do 10 de Junho, manifestação de arte colectiva para comemorar a recente revolução de Abril.

A sua longa carreira conta com inúmeras exposições em Portugal e no estrangeiro e numerosas distinções, entre elas o prémio da Associação Internacional dos Críticos de Arte – Secretaria de Estado da Cultura (1994), o prémio Celpa/Vieira da Silva (2000) e o prémio Amadeo de Souza-Cardoso (2003).

Várias exposições antológicas têm sido organizadas. Entre as mais recentes contam-se a de 2004, no Museu Berardo em Sintra, intitulada Autobiografia, e a de 2008, no Museu de Serralves que colocava em relação obras das diferentes fases da sua carreira e a que o artista escolheu chamar Cadeia da Relação. n

Joana Alves – capmag@capmagellan.org

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