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Universidade Católica, bufas e Neto de Moura: à conversa com Ricardo Araújo Pereira

Foto: João Porfírio

Aproveitámos a oportunidade do grande humorista Ricardo Araújo Pereira vir fazer uma visita a Paris para lhe fazermos uma perguntas sobre a sua vida, os seus pontos de vista e a sua carreira. Como seria de esperar, foi simpático, aberto e descontraído. Aqui fica o registo da entrevista:

Cap Magellan: Tendo em conta a importância para um humorista em não perder o tato e permanecer jovem, o Ricardo tem algum cuidado particular para continuar a par daquilo que é o fluxo de conhecimento que chega às novas gerações?

Ricardo Araújo Pereira: Às vezes mesmo que eu não queira porque tenho jovens em casa. Tenho duas meninas em casa e elas vão-me mostrando coisas. Eu acho que é importante estarmos atentos a tudo. Aliás, o objetivo do humorista é olhar para tudo e ver tudo ao mesmo tempo. Porque o humor é uma operação do olhar, uma maneira de olhar para as coisas, e portanto é importante não ignorar nenhuma.

Cap Magellan: Já refletiu sobre o facto de Portugal ser até agora o único país da Europa poupado pelos populismos e pelo nacionalismo? Será porque ninguém leva a sério o PNR, ou será mais do que isso?

Ricardo Araújo Pereira: (risos) Eu acho que é muito provável que Portugal, não tendo neste momento nenhum problema grave de desemprego, nenhum problema grave provocado por choques culturais eventuais que possam existir com a emigração por exemplo, ou com o acolhimento de refugiados, não tem nenhum dos problemas que costumam ser aqueles que alimentam esse tipo de movimentos. Espero que quando tivermos esses problemas saibamos lidar com eles de uma forma que não estimulasse o aparecimento desse tipo de movimentos. Mas sim, eu acho óptimo que as sondagens – ao que tudo indica – para as próximas eleições reforçam que esse tipo de grupo em Portugal não tem nenhuma repercussão eleitoral e ainda bem.

Cap Magellan: O humor tem cultura?

Ricardo Araújo Pereira: Eu acho que podemos argumentar que há um humor que tem mais referências do que o outro. Quanto mais larga for a nossa base de conhecimento, melhor. É como estar a jogar lego com muitas peças – se temos só quatro peças no lego não podemos fazer grande coisa – mas também não gosto quando as pessoas dizem “isto é humor inteligente porque é sobre um tema inteligente”: não necessariamente, é possível fazer humor inteligente com temas muito rasteiros. Por exemplo, há um livro do Jonathan Swift que se chama “The benefits of farting” que basicamente é ele a falar sobre bufas.

Cap Magellan: Costumava direccionar o mais áspero do seu humor à direita, e há quem pudesse descrever o seu trabalho enquanto crítica política situada desde a esquerda. Mas tem evoluído para um humor que toca mais a todos os campos políticos. Há alguma razão para esta evolução?

Ricardo Araújo Pereira: O meu ponto de vista continua a ser o mesmo, mas o que se passa é que eu não estou ali para fazer campanha eleitoral. Eu muitas vezes faço pouco do partido para o qual eu voto, e uma coisa não é incompatível com a outra. Quem está exposto daquela maneira como por exemplo os cabeça de lista e os candidatos estão, é muito frequente – e ainda bem para nós – tropeçar. Quem tem aquela exposição pública e está constantemente em contacto, exposto, é óbvio que isso vai produzir alguma coisa que ao nosso olhar é engraçado. Mas não deixo de ter a minha posição de votar nos partidos em que voto e é muito provável que mesmo as críticas que eu faço tenham esse ângulo, ou seja venham de um ponto que é mais à esquerda do que à direita. E acho que não há mal nenhum nisso, aliás é o que eu tenho sempre dito: sim, sou de esquerda e nota-se isso em princípio naquilo que eu faço mas eu não estou aqui para fazer proselitismo nem campanha eleitoral.

Cap Magellan: O Ricardo estudou num colégio católico, mas não é uma pessoa religiosa. O que é que acha sobre o conceito de colégios e Universidades Católicas?

Ricardo Araújo Pereira: Eu não tenho nada contra, antes pelo contrário. Às vezes as pessoas perguntam-me se sou ateu porque frequentei uma escola de freiras na primária, depois um colégio de padres jesuitas, e a Universidade Católica no fim. E não é, é o contrário. Eu sou ateu apesar disso tudo. Tive a melhor experiência. Não sei se se lembra de um livro do Christopher Hitchens chamado “God is not great” em que o subtítulo era “como a religião envenena tudo”. Eu não sou capaz de subscrever que a religião envenena tudo. Eu acho que a religião envenena de facto muitas coisas – isso é inegável –, mas não diria que a religião envenena tudo e as pessoas religiosas que eu conheci – os padres e as freiras que eu tive a sorte de apanhar – tinham uma generosidade e uma abertura de espírito que eu depois mais tarde não sei se foi muito frequente voltar a encontrar em mais pessoas porque de facto é gente que dedica a vida aos outros de uma forma bastante desinteressada e acho que isso é bonito.

Cap Magellan: Fala muitas vezes sobre temas sérios mas sempre com um ponto de vista de humor. Sente alguma pressão para ter de ser sempre engraçado, ou é algo que gosta genuinamente de fazer constantemente em público por sentir que essa abordagem é a que mais se adequa consigo?

Ricardo Araújo Pereira: A pressão existe mas eu não me posso queixar dela, é a mesma coisa que um canalizador dizer “ai é insuportável esta pressão para arranjar canos”. A profissão é essa, o contrato tácito que eu tenho com as pessoas é: elas lêem-me, ou ouvem-me, na medid em que eu as faça rir ou não. Ninguém está interessado na minha opinião. É claro que eu uso a minha opinião porque não tenho outra e o meu ponto de vista é a base daquilo que eu digo mas aquilo que interessa às pessoas em mim – se é que alguma coisa lhes interessa – é a minha capacidade eventual de as fazer rir. Elas para ler opiniões sensatas procuram outra pessoa (risos).

Cap Magellan: Como é que ficou a história com o Juiz Neto de Moura e o processo dele contra si?

Ricardo Araújo Pereira: Para já para já eu não recebi nenhuma notificação. Ele cometeu aquele erro terrível de anunciar no jornal que ia processar, o que eu acho inútil e até contra-producente. Não sei se a reação pública não foi demasiado avassaladora e se ele não voltou atrás com a decisão. Se calhar achou que mais valia não mexer mais nisso.

Obrigada ao Ricardo por nos proporcionar este momento de conversa e de reflecção, sempre com um tom descontraído e humorístico. E não se esqueçam de ver “Gente que não sabe estar” no próximo domingo!

 

Isis Bernard

Publié le 04/06/2019

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