
Inês Grosso: Curadora do Museu de Arte Contemporânea de Serralves
18 mai 2026Pierre Aderne é um autor, compositor e performer brasileiro de 60 anos. Nascido em Toulouse, cresceu no Brasil antes de se mudar para Lisboa há 15 anos. Pioneiro das músicas contemporâneas e do mundo, colaborou com artistas mundialmente reconhecidos como Melody Gardot, Seu Jorge e Tito Paris. Dirige também o coletivo Rua das Pretas. A 10 de abril de 2026, publicou o seu 12° álbum, chamado Povo Brasileiro, que foi apresentado a 12 de maio no Studio de l’Ermitage em Paris. Cap Magellan foi ao seu encontro para falar sobre este álbum e sobre a sua carreira.
Cap Magellan: Qual é a importância da música brasileira na sua carreira?
Pierre Aderne: A música brasileira é muito importante para mim e julgo também para todos que falam português, em Portugal e na África. Acho que a música brasileira reflete a síntese da nossa criação enquanto povo, desses portugueses que chegaram, dos povos originais que já lá estavam no Brasil e dos africanos escravizados que chegaram 100 anos depois. Essa multiculturalidade fez nascer a música brasileira e a cultura brasileira como um todo: a música, o carnaval, o candomblé, a capoeira.
Apesar de eu ter nascido na França de um pai português e de uma mãe brasileira, a música brasileira é estrutural para mim.
CM: Cresceu no Brasil mas nasceu em Toulouse, uma cidade muito importante para a música francesa com artistas muito conhecidos como Claude Nougaro. Qual foi a importância da música francesa na sua carreira?
Pierre Aderne: Na verdade, eu não tive muita relação com a música francesa porque eu saí muito cedo de Toulouse. Meus pais foram para Brasília para serem professores da Fundação da Universidade de Brasília, criada pelo Darcy Ribeiro, que é quem inspira esse álbum, Povo Brasileiro. No entanto, na minha casa, ouvia-se bastante música do mundo e música francesa, de Charles Aznavour, Gainsbourg, Claude Nougaro e o belga, que é dito como francês, Jacques Brel.
Eu tive a oportunidade de conhecer Mélody Gardot, num sarau que fiz aqui em Paris depois de uma participação no show dela no Olympia. Eu fiz um sarau em cima do Olympia, na casa de um pintor brasileiro chamado Gonçalo Ivo e recebi alguns músicos, como eu faço sempre. Estava lá o David Links, um cantor de jazz contemporâneo francês que cantou no enterro do Claude Nougaro.
Foi essa relação que tive com a música francesa. Quando eu escuto ela, eu percebo muito e sinto que ela me deu, nessa escola da escuta, a possibilidade de perceber a importância de entregar um poema, principalmente com o Jacques Brel. No entanto, isso é transversal. Quando o francês canta, o poema está sendo dito, está sendo sublinhado e é isso que eu trouxe da música francesa.
CM: Vive atualmente em Lisboa. Qual é a sua relação com a música portuguesa?
Pierre Aderne: Eu estou há 15 anos em Lisboa mas já faço shows em Portugal há 20 anos. Comecei compondo para portugueses. Eu compus o Guia, que foi o tema que deu nome ao primeiro álbum do António Zambujo, no Brasil. Compus o Fado dos Barcos, com o Carvalho, para cantar com a Cuca Roseta, ainda antes do primeiro álbum dela, que foi tema de novela da Globo. Colaborei com muitos artistas portugueses e africanos como Jorge Palma: a gente tem uma música que tocou muito em Portugal, nas rádios todas. Também fiz um dueto com a Sara Tavares, em Nha Morinha, que também foi muito importante para mim. Conheci o Tiago Paris e fizemos um outro dueto.
Penso que o fado foi a minha primeira paixão pela música portuguesa e teve uma grande importância. Hoje, eu entendo a música portuguesa como uma música de língua portuguesa que acontece dentro do solo português. A comunidade imigrante africana, ou seja, quem está de São Tomé e Príncipe, Moçambique, Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde, Lisboa, etc., acaba também sendo responsável, nos últimos 15, 20 anos, pela construção da música portuguesa.
É importante para mim sublinhar que a língua portuguesa é a nossa casa comum, casa comum de africanos, brasileiros e portugueses. A música portuguesa também influenciou-se muito pelo Brasil, pela necessidade de escala. É um país de 220 milhões de habitantes. Portugal tem 10 milhões. Carminho canta Tom Jobim, Antônio Zambujo canta Chico Buarque, colocando sempre a língua à frente da bandeira. A música portuguesa, para mim, é isso.
CM: Afirmou, numa entrevista em 2020 para Star Wax, que “Lisboa é um paraíso para os apaixonados”. Como pode explicar este sentimento tão forte para Lisboa?
Pierre Aderne: Lisboa é uma cidade crioula, tem uma presença africana muito forte. Existe uma beleza das colinas e do Rio Tejo. O Tejo representa um imaginário dentro da literatura portuguesa e do inconsciente coletivo do cancioneiro popular brasileiro. Uma cidade que tem um clima fantástico e multicultural, dando assim um belo cenário para se apaixonar.
CM: A 10 de abril foi publicado um novo álbum chamado Povo Brasileiro. Como é que foi escolhido o título e como o definiria?
Pierre Aderne: O título, Povo Brasileiro, foi escolhido pelo livro que tem o mesmo homônimo do antropólogo e educador brasileiro Darcy Ribeiro. Nós fomos gravar na casa do Darcy Ribeiro, uma casa feita por Oscar Niemeyer, e esse livro é estrutural para nós brasileiros porque conta a construção do nosso povo, desde a chegada dos portugueses, dos povos originais africanos e desta língua portuguesa mutante, que vai ganhando contornos também em sons, em sotaques e dentro da contribuição africana, do iorubá, das linhagens da linguagem banto, kikongo, umbundo, quimbundo, tupi-guarani. Esse álbum representa um pouco disso tudo. É uma caravela, como se fosse uma caravela dos navegantes de 1500, regressando ao Brasil, dessa vez, com músicos de três continentes em cima dela.
CM: Decidiu reunir, no álbum, Portugal, Brasil e Cabo Verde. Como se passou a sua realização, com os diferentes artistas que participaram nele? Foi difícil ou “natural”?
Pierre Aderne: Todos os artistas que participam da Rua das Pretas, que foram muitos ao longo desses últimos 15 anos e tem apenas alguns aqui, são artistas que têm o mesmo entendimento que eu. O mais importante é a língua porque não há uma dissociação entre a música portuguesa e brasileira. Todos eles são submetidos a esses sotaques, a essas matrizes rítmicas e poéticas. Produz uma harmonia muito grande. Em nenhum momento eu me vejo com uma camisa do Brasil, uma camisa de Cabo Verde ou com a Ana Margarida Prado vestindo uma camisa de Portugal. A gente está se vestindo de língua portuguesa, criando assim uma relação absolutamente orgânica.
CM: A dia 12 de maio, o seu álbum vai ser apresentado num concerto excepcional no Studio de l’Ermitage. O que é que está à espera deste momento? Como é que se sente?
Pierre Aderne: Eu estou feliz. Aliás, nós todos estamos felizes com a possibilidade. Eu já tinha feito outras aparições em Paris, nomeadamente com a Melody Gardot, no Olympia, que foi a primeira vez que eu toquei aqui. Fui gravado também por ela. Tenho 7 músicas no álbum Sunset on the Blues, músicas que se tornaram conhecidas também para os franceses, músicas que têm muita circulação: C’est Magnifique, Femme Paris Vs Love, Um Beijo. Vai ser uma celebração.
Mais importante, na casa que revelou Cesária Évora, outra grande matriz, assim como Tom Jobim, João Gilberto, Amália em Cabo Verde, Amália em Portugal, Cesária em Cabo Verde. Estar nesta casa, para a gente, é muito especial. A gente espera se divertir, fazer a música que sempre faz e que o público esteja em harmonia connosco.
CM: Além do álbum, foi também realizado um pequeno filme. Porquê?
Pierre Aderne: Eu tenho um histórico de documentários musicais. Começou com a MPB – Música Portuguesa Brasileira -, em 2011, que foi seleção do Festival do Rio, em 2012, e prêmio do Ouro Filme Árvores. É importante precisar que os meus filmes são todos narrados. Eu conto uma história e, quando conto uma história para você, já estou vendo imagens. No dia da primeira gravação, na casa de Darcy Ribeiro, parecida a uma aldeia do Pinambá ou um assentamento indígena, subiu um drone por cima dela vindo o mar. Me veio essa imagem de que a caravela, dessa vez, estava voltando com músicos de três continentes. Aí eu achei que fazia sentido, para além de um making-of, que o documentário tivesse vida própria e que ele pudesse andar paralelo ao álbum. Foi então sendo construído e terminamos com esse curta-metragem.
CM: Há uma música, no álbum, pela qual tem mais carinho?
Pierre Aderne: Mais carinho não sei. Uma semana vou gostar mais uma do que outra.
No entanto, há uma música que é muito importante para o álbum, que é Cartão de Cidadão. É a vela da caravela.
CM: Trabalhou com artistas mundialmente reconhecidos, mas qual foi aquele que mais o impressionou? Como ajudaram no seu desenvolvimento enquanto artista?
Pierre Aderne: Na verdade, acho que quem mais me ajudou no meu desenvolvimento como artista foi um artista com quem eu não colaborei. Eu tive a sorte de conhecer Caetano Veloso de perto, desde criança. Minha mãe era muito amiga de Rodrigo Veloso. Na adolescência, também fiquei muito próximo. Em Lisboa, nos encontramos na minha casa com o Caetano e conversámos muito.
Caetano Veloso, mas também Tom Jobim, foram realmente muito importantes. Eu morei na mesma rua de Tom Jobim. Encontrei-me com ele uma única vez, numa banca de jornal.
Esses Caetano, Chico Buarque, Tom Jobim e João Gilberto foram muito importantes na minha formação. A gente aprende um com o outro. Todos esses nomes que eu falei aí, com quem colaborei, foram muito importantes, porque também foi um tipo de “escola”, sobretudo essa África que fala português.
CM: Já publicou doze álbuns. Doze ainda a chegar? Projeta publicar muito mais?
Pierre Aderne: Acredito que sim. Eu escrevo todas as manhãs, por isso tenho muitos projetos já prontos que a gente não lançou porque achei que não era no tempo ainda, como o Coliseu dos Recreios, a série Rodas Pretas RTP Coliseu. Tenho mais de 100 músicas já sendo lançadas e creio que vai acontecer mais.
Os desdobramentos que se fazem a partir dessa estreia aqui, mais a possibilidade de fazer uma série de teatros não só na França, mas no Luxemburgo, na Alemanha e no resto da Europa vai certamente permitir à gente ter outras colaborações com outros artistas e conceber um novo álbum. Já tenho um novo álbum que eu vou gravar, em Salvador da Bahia se for possível. Tem a ver com as raízes africanas.
CM: Prevê concertos ou pequenos tours?
Pierre Aderne: A gente tem um grande concerto dia 24 de maio no Rio de Janeiro, no Festival Remestre Rio, na Praça XV. É um concerto para 2 000 pessoas, no qual a gente é cabeça de cartaz. Vamos tocar com a a Adriana Calcanhoto e o Zeca Baleiro por exemplo. A partir do segundo semestre, a gente vai ter uma série de concertos pela Europa.
Aqui pode consultar o livro Povo Brasileiro escrito por Darcy Ribeiro, o álbum de Pierre Aderne e o documentário. Não perca mais informações no seu instagram.
Entrevista realizada pelo Estéban Gaillard,
e a Julie Carvalho, de Os Cadernos da Julie.
Publié le 18/05/2026.




