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À conversa com Mara Pedro (Carte Postale du Portugal)

No âmbito do lançamento do álbum “Carte Postale de Portugal”, a Cap Magellan conseguiu fazer algumas perguntas a Mara Pedro, uma dos três membros deste novo grupo.

Cap Magellan : O que é que o fado significa para si?

Mara Pedro : O Fado é mais do que um estilo de música, fado é um museu sentimental onde se encontra toda a história, dor e alegria de um País, mais ainda, a história de pessoas. Se partirmos da origem da palavra, significa destino e por isso o Fado pode ser tanta coisa, de acordo com a forma como o sentimos, porque cada um de nós tem um destino diferente.  Eu canto fado desde que me conheço, já é algo que faz parte de mim, mas posso dizer que me fez precoce, porque para cantar poemas é preciso interpretá-los, precisamos de perceber o que o poeta estava a sentir no momento em que escreveu, só assim consigo transmitir da melhor forma, uma mensagem ao público que nos ouve.

Nesse sentido amadureci mais rápido do que os restantes jovens da minha idade, por interpretar palavras adultas que contavam amarguras. Hoje canto determinados fados e sinto-me emocionada porque percebo cada vez melhor as palavras.

Não perdi contudo a minha juventude, por essa razão optei por ser criadora das minhas músicas que são espelho da frescura da idade.

CM : Se pudesse definir fado numa palavra qual seria?

MP : Indefinível

CM : É dificil ser uma jovem mulher no meio artístico?

MP : Sim, confesso que ser jovem e ser mulher, são dois conceitos que se unem tantas vezes na minha vida e foram atraindo, ao longo desta caminhada, algumas experiências negativas e um olhar mais crítico sobre o mundo em geral, mas em especial no meio artistico.

É dificil principalmente porque como jovem, já estará presente o descrédito e a ideia, para quem não me conhece, de que serei tímida ou incapaz de me tornar um furacão de palco. Como mulher, sinto que tenho de lutar a mais custo por um lugar e ainda defender a minha integridade física e emocional.

Sou autora (música e letra) de alguns temas do meu novo albúm Tic-Tac, mas algumas pessoas ainda duvidam se foram mesmo feitas por mim, duvidam da capacidade de uma mulher com a minha idade o ter feito, porque normalmente quem o faz são os poetas ou os produtores entendidos da vida e da música.

Apesar de considerarmos a nossa civilização moderna, ainda há muito a fazer pela mulher. Na música permanece a sexualização da sua imagem, o meio do Fado não foge aos odds. A ideia de que a artista tem de estar sempre bonita e atraente, musa amada e admirada pela sua performace feminina, esperando também que esteja disponivel para ouvir todo o tipo de absurdos na sua direção. Piropos vindos de músicos que me acompanharam, piropos por parte de pessoas no público, tudo isso já ouvi com apenas 20 anos, garanto que para quem pensa que é  jeito de brincadeira, não o é. É desconfortável, embaraçoso e nociso na personalidade de qualquer ser humano, que tem de ser forte para não se deixar afetar.

Já recebi um comentário, uma vez, por uma pessoa desconhecida, sobre o meu peso “pareces mais gordinha de cara e devias ter atenção a isso porque és uma figura pública que se apesenta em palco”, sim apresento-me para cantar não para desfilar e nunca ouvi nenhum testemunho de um homem ser questionado por isso.

Hoje agradeço a Deus ter nascido mulher, viver nesta pele deu-me a oportunidade de ter o tal sexto sentido, que nada mais é, do que a capacidade feminina em ver e analisar minuciosamente o que acontece à nossa volta antes de acontecer; permitiu-me sentir essa desigualdade e dizer ao mundo que uma mulher também pode ser muito talentosa, inteligente e que isso nada se relaciona com a sua forma física, muito menos, se está a usar um vestido deslumbrante ou umas calças de ganga.

Obrigada por esta pergunta, que nunca ninguém me fez. Nunca ninguém se perguntou como seria, como tal é a primeira vez que me dão o direito a falar deste tema.

CM : Quem é o seu maior apoio neste meio?

MP : Sem dúvida os meus pais e o público, são pilares mais fortes que e mantêm de cabeça erguida para continuar a fazer aquilo que mais amo, cantar o Fado.

CM : Qual é a sensação de fazer parte de “ Carte Postale du Portugal” , ao lado de grandes vozes?

Para mim foi uma surpresa muito grande quando recebi o convite para integrar este projeto, mesmo antes de saber que iria ter o previlégio de conhecer e trabalhar com pessoas de tanto talento e história de vida, pessoas que já lutaram  pelos seus sucesssos merecidos, algo que valorizo, admiro e que tenho muito respeito.

Quando me ligaram a explicar no que ia consistir este projeto fiquei muito entusiasmada. Um projeto que na minha opinião vai fortalecer muito a nossa cultura portuguesa na França e aproximar ainda mais todos aqueles que estão longe das suas raizes ou aqueles que mesmo sem origens portuguesas, têm curiosidade por nos conhecer, pela beleza do nosso país, o que ele representa, neste caso o Fado e as nossas gentes.

Realmente compensa fazer as coisas por amor, porque a qualquer hora recebemos uma chamada que nos convida para uma  aventura, que acredito que vai ser uma das melhores na minha vida e na minha carreira no Fado. Ainda não domino bem a língua Francesa, mas até nisso estou a tentar dedicar as minhas forças para não desiludir o público, nem as pessoas que me escolheram e acreditaram em mim. Por último, quero agradecer ao cantor Pedro Alves por ser uma pessoa que sabe tratar os artistas como seres humanos e dou-lhe os parabéns por ter tido esta grande ideia.

CM : Se fosse passar dois meses numa ilha deserta quais as 4 coisas que levaria consigo?

MP : Quando falamos de um periodo tão longo de tempo, numa ilha deserta, a primeira tendência seria querer levar a casa às costas porque o nosso quotidiano na atualidade não nos prepara para vivermos apenas com o básico dos básicos. Fomos habituados ao materialismo e por isso somos uma geração dependente de todos os meios de conforto, tecnológicos e não tecnológicos que nos obriga a fazer o mínimo e pior ainda, a pensar o mínimo. No meu caso em particular, tenho espirito de uma aventureira e dois meses numa ilha deserta, seria um desafio revigorante.

As 4 coisas que levaria comigo:

  • A minha gata , porque a adoro claro, mas também porque sou uma pessoa bastante afetiva e ficar sozinha seria dificil. Inclusivamente quando nos preocupamos com alguém que está ao nosso lado, temos mais força para enfrentar a adversidade, temos um propósito, cuidar do outro.
  • Escova e pasta de dentes. São essenciais para o estado de saúde geral, uma das últimas coisas que provavelmente alguém se lembraria de ser imprescindível, mas que na verdade é tão importante como um Kit de primeiros socorros, que também levaria certamente, adaptado às necessidades (para além do básico, acrescentar alguns medicamentos como anti-inflamatórios, antibiótico e anti-histamínicos; uma faca; folha de prata e pilhas).
  • Rádio. Como é obvio, como cantora não consigo viver sem música, sem acordar e querer dançar ao som de uma marcha, sem ouvir a voz do locutor a anunciar o programa dos discos pedidos, sem ouvir a voz humana.
  • Caderno de bordo. Tenho dificuldade em dizer por palavras tudo aquilo que o meu cérebro pensa melhor e mais rápido a escrever, por isso a escrita é um dos hábitos fundamentais para mim. Ajuda a descrever lugares, momentos e emoções.

A Cap Magellan agradece a Mara Pedro por ter aceitado de responder as nossas perguntas. O album “Carte Postale du Portugal” sera disponivel o 6 de setembro.

 

Cap Magellan
capmag@capmagellan.org

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