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À conversa com Linn Da Quebrada

A ativista e cantora brasileira Linn da Quebrada respondeu a algumas perguntas aquando da ante-estreia do documentário sobre a sua vida “Bixa Travesty”, que saiu em Paris no passado mês de maio. Aqui fica um registo de uma entrevista humana, consciente e de uma luta brilhante e inspiradora.

 

Cap Magellan : A Linn é uma das imagens que é considerada a “nova trans generidade” e que só recentemente começou a ganhar visibilidade. O lugar que os media estão finalmente a acordar a pessoas não binárias é importante para si ? Qual o risco da objectificação destes corpos que são muitas vezes expostos por terceiros de forma mercantil ? Como acha que se pode encontrar um equilibrio ?

Linn Da Quebrada : Corpos trans sempre existiram. E sempre existiram múltiplas transgeneridades. E o meu corpo aponta justamente para isso, para estas novas possibilidades de existências, novas corporalidades possíveis, justamente criando um novo imaginário social em relação a esses corpos. Por isso é muito importante que os nossos corpos sejam vistos com vida. A mídia acaba sempre objetificando: se antes eram corpos abjetos, agora eles passam a ocupar um espaço de corpo objeto. Minha intenção é que cada vez mais meu corpo ganhe um espaço de sujeito, sujeito de mim mesma. Das minhas próprias interferências. E acho que um jeito de encontrar um equilíbrio está no olho de quem vê. Quando esses meios de comunicação nos humanizam, quando eles nos aproximam e não nos afastam por meio de um olhar objetificante.

 

CM : Estamos numa sociedade que por um lado começa a falar mais da comunidade LGBTQIA+, em que muitas pessoas começam a desconstruir os padrões normativos de beleza e de sexualidade etc, mas por outro lado tem vindo a aparecer – quase que como resposta a esta “liberalização do ser” –, mais movimentos de ódio, mais violências, uma subida da extrema direita ao poder que se anda a espalhar pelo mundo… Será que isto é uma resposta insuperável?

LDQ : Esse movimento surge como resposta a um medo em relação a algo novo que está surgindo.  Principalmente por parte de uma população conservadora, que tem medo do que estamos conquistando, do quanto estamos avançando e sentem medo das coisas mudarem e não seguirem como estão. Isso que acontece é um movimento que se repete na história, justamente por causa do medo do novo e das suas novas possibilidades. Mas nessas disputas todas – de linguagem, de poder, de ideias -, quanto mais nos tornármos autónomos da nossa própria existência e produtores de pensamento e informações, mais chegaremos a outros lugares, atingiremos outros pontos de discussão. Por isso é importante que a gente siga questionando, produzindo, criando e espalhando o vírus da dúvida pelo mundo.

 

CM : Em relação à eleição do Bolsonaro: tem-se visto muito um aumento do discurso de ódio nas redes sociais, e muita gente a normalizar e a banalizar o mal porque o presidente do Brasil faz o mesmo. Mas na prática e nas ruas, como é que se está a observar essa transição? O que é que a Linn da sentiu de diferente desde esta eleição?

LDQ : Bolsonaro é um meme. É uma representação do ódio que existe, principalmente, na internet. É um ódio que não tem cara, ele se materializa nas redes e na violência, nas ruas e no cotidiano, quase já ordinária. Corpos como o meu já estão acostumados a determinados tipos de violência e com essa representação no poder, parece que essa violência ganha ainda mais legitimidade. Mas ao mesmo tempo, temos que observar o aumento de pessoas da comunidade TLGB que vem ocupando espaços e lutando por nossos direitos, conquistado novos espaços. Então ao mesmo tempo que a violência cresce, mais pessoas TLGB ocupando espaços midiáticos e territórios de disputa de poder e de linguagem. Temos ficado cada vez mais fortes e temos aprendido cada vez mais a nos proteger e fortalecer as nossas redes.

 

CM : A Linn da costumava ser testemunha de Jeová. Como é que foi sentir-se deslocada e diferente daquela comunidade na qual cresceu, quando era jovem? Quando e como é que decidiu que não se revia naquela comunidade que não a aceitava, e o que é que isso representou para si?

LDQ : O mundo inteiro, a sociedade como um todo, se coloca hostil em relação aos corpos que desviam de suas normas. A comunidade religiosa que eu frequentava é apenas um dos reflexos dessa sociedade. Porque a família, a escola, o trabalho, nenhum desses meios é ou foi receptivo a mim e minhas parceiras, a pessoas como eu. Dessa forma eu acho que fui aprendendo a buscar outras formas de me sentir acolhida, outros meios de entender como eu era e construir movimento em mim. Eu tive que inventar forças. E atualmente sinto que pessoas que se sentem corpos estranhos possuem mais referências do que eu tive para criarem as suas redes de apoio e se sentirem acolhidas, terem forças. Naquela época não tinha uma Linn da Quebrada, uma Jup do Bairro, uma Liniker ou uma Pabllo Vittar e tantas outras pessoas que tem construído formas para que nossa existência seja mais possível, segura e confortável.

 

CM : E como é que fez para descontruir aquilo que lhe ensinaram nesses tempos? Qual o seu conselho para quem talvez esteja a passar pelos mesmos sentimentos de culpa dos quais se queiram libertar, presas em ideais que não as respeitam?

LDQ : Meu conselho segue no campo da dúvida: Duvide. De si. Duvide daqueles que acreditam em si mais que nos outros. A dúvida é uma dádiva que promove vida. Duvide e busque seus próprios meios de construção da própria identidade, busque por parceiros e parceiras que fortaleçam a sua existência, que tornem sua vida mais prazerosa.

 

CM : Tem de ter cuidados especiais – sendo que está cada vez a ganhar mais popularidade – para poder sobreviver? Como é o seu dia a dia, a sua vivência enquanto que mulher trans num país conhecido pela sua transfobia?

LDQ : Minha vivência enquanto travesti eu sinto que é também uma benção. O Brasil é o país líder em assassinatos de pessoas trans e travestis e, ao mesmo tempo, é aqui onde estou podendo criar. É onde tenho construído minha força. O Brasil é muito mais complexo. É um pais de muita luta, resistência e força. Minha rotina atualmente é de muito trabalho. Tenho parcerias consolidadas e tenho conseguido viver e sobreviver de uma certa forma. Estamos passando por umas crises, mas a crise é também um momento de oportunidade. É assim que eu tenho entendido o meu cotidiano. Uma oportunidade para os novos tempos surgirem.

 

CM : A Linn da é uma das figuras emblemáticas da nova transgeneridade brasileira, como descreve a sua relação com o seu corpo e o seu potencial politico ? Quando e como é que tomou consciência desse poder?

LDQ : As artes de uma certa forma me aproximaram do meu corpo. Olhar para o espelho com dúvida… A dança, o teatro, me fizeram conquistar um novo campo de movimentação social, novas coreografias, sociais e políticas, se colocaram como possíveis. Comecei a perceber que havia superpoderes em mim de certa forma, passei a inventar e descobrir essas forças, quase uma anti-heroína. Uma vilã socialmente falando, para as normas e paradigmas impostos, mas ao mesmo tempo heroína de minha própria existência. Meu corpo tem me possibilitado sobreviver. O que pode o meu corpo? O que pode este corpo em contraposição a estas normas, neste momento político, com minhas redes e minhas fragilidades. Tudo ao mesmo tempo. O que pode este corpo?

 

CM : Que lugar acha que a imagem que constroi de si, e que construimos cada um de nós, pode impactar a desconstrução de preconceitos sociais?

LDQ : Nossa própria imagem é muito importante para a desconstrução de uma estética estática, gera movimento social e presente. E isso não é só uma função minha, enquanto uma representatividade. Representatividade importa para a renovação de um imaginário popular, mas não deve ser nosso objetivo. Deve ser nosso trampolim, para que a gente continue em movimento e possa construir novas imagens. O meu papel enquanto figura pública é muito importante, mas o papel de cada um de nós, cidadãos, é extremamente importante. Não podemos falar neste momento político do individual, temos que falar do coletivo, nossa capacidade de comoção e movimento compartilhada. A roupa, nosso comportamento, nossas famílias para além dos laços sanguíneos, quem nós contratamos para trabalhar connosco, tudo isso tem importância enquanto corpos políticos. Cada uma de nós traz essa importância enquanto agente político.

 

CM : Como achas que nos podemos emancipar do poder masculino tóxico?

LDQ : Esse processo de emancipação já está sendo feito. Um novo campo de discussão está se formando bem diante de nossos olhos. E na crise desponta esse novo, que ainda é totalmente inédito e imprevisível aos nossos olhos. Precisamos discutir e também descurtir essa masculinidade nociva. A masculinidade é construída através da nossa relação reativa, e ela vai justamente reagindo a tudo o que temos feito. A reação que temos proposto. Com isso, novas condições de feminilidade têm surgido. Novas relações surgem a partir disso, a partir da boca, de cada música, gesto, feitiço, cada gasto e gosto que colocamos em contraposição a este sistema. A questão agora é não recusar diante da reação deste sistema, é encontrar um jeito de seguir avançando em nossas ideias e ações, em nossas estrategias. Construir novos campos de poder e de foder.

 

CM : Mesmo dentro do movimento lgbtqia+ há opressão de homens cis brancos e gays, como é que achas que podemos ocupar o nosso espaço ?

LDQ : A responsabilidade não é apenas nossa enquanto corpos desviantes. É de uma masculinidade, corpos gays, é hora de todos estes também se questionarem, olharem para dentro de si. Movimento é algo coletivo, por isso é preciso que todas as pessoas se coloquem em questão, quais suas funções enquanto agentes sociais. Nós estamos fazendo nossa parte, mas todas as pessoas podem fazer. Quando discutimos gêneros, não estamos falando com quem você dorme ou trepa, estamos falando de novos projetos de mundo. E principalmente, estamos falando sobre corpo. Sobre vida. As pessoas precisam pensar sobre seus privilégios, não querendo largar mão deles. Isso impede que o movimento avance, por isso a importância de olhar para si mesmo e se colocar em questão.

 

CM : As tuas influências musicais e artísticas vêm de preferências pessoais ou são também escolhas políticas?

LDQ : Todas as nossas escolhas são políticas. Não só quem ouvimos na música, mas nossas escolhas com quem nos relacionamos, nossos gostos e gestos, eles são políticos. Sendo pessoais ou impessoais, se é que possível essa separação.

 

CM : Achas que o facto do feminismo interseccional começar a ser discutido interferiu com a conscientização do problema do racismo no Brasil? Como é que explicas que uma sociedade tão diversa tenha ainda internalizado um pensamento tão marcadamente pos colonial?

LDQ : O feminismo interseccional permitiu que nos víssemos em nós mas também para além de nós. Me fez perceber que a mulher não existe. A mulher de forma singular. Existem mulheres. Mulheridades.  E que a nossa trajetória, o nosso corpo e experiência, são únicos e singulares, e que apesar sermos tão diferentes, temos muito em comum. É possível construir redes interseccionais justamente onde há esses pontos em comum, mesmo que em direções diferentes também, mas caminhando juntas.

 

CM :  A Linn da faz música, teatro… Quais as perspectivas de evolução? Num futuro ideal, que projetos é que a Linn da ainda tem por fazer?

LDQ : Tenho realizado muitos projetos e me projetado. Tenho feito do meu corpo projétil, arma de mim mesma, “bomba pra caralho”, né? Além do disco, do filme, ter agora um programa de televisão, meu filme ainda vai circular aqui pelo Brasil, outros impactos… Na França já tem circulado e criado outros movimentos, aqui ainda vai se criar de uma certa forma, né? Estou gravando uma série que será exibida numa rede nacional, colocar meu corpo neste espaço vai ter uma grande importância na construção de novos discursos e de informação, de imaginário social. Eu pretendo também construir meu segundo disco, dar formas aos meus pensamentos, por meio de uma nova elaboração musical, entender sobre o que eu pensar e me debruçar, perceber quem sou eu e para onde meu corpo aponta, no que estou me transformando e transtornando. Tenho calma e paciência para estar no presente e realizar o que é preciso e necessário agora, neste momento. Quero fazer muita coisa ainda, tenho uma vida inteira e espero viver muito. E espero poder mudar de ideias e realizar coisas que eu nem imagino nesse momento.

 

Obrigada à Linn da por se abrir e dar uma mensagem extraordinária de força e de inspiração aos seus milhares de fãs, e não percam o fantástico documentário “Bixa Travesty”, actualmente nos cinemas de Paris!

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