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14 janvier 2026Em Ribeira de Pena, existe um Ecomuseu que procura manter viva a tradição local. Cap Magellan quiz mais informações e obteve uma entrevista com Ricardo Machado Carvalho, coordenador do Ecomuseu.
Cap Magellan: Hoje estamos com Ricardo Machado Carvalho, arqueólogo e coordenador do Ecomuseu de Ribeira de Pena, integrado na Câmara Municipal de Ribeira de Pena. Para começar gostaria que se apresentasse e que nos explicasse qual é atualmente o seu papel no Ecomuseu de Ribeira de Pena.
Ricardo Machado Carvalho: Olá, sou o Ricardo. Neste momento exerço funções como coordenador do Ecomuseu.
O Ecomuseu de Ribeira de Pena é um conjunto de museus do território em que estão marcadas as vivências de cada sítio onde está instalado. Temos, por exemplo, a Casa de Camilo em Friúme, que é a casa onde viveu Camilo Castelo Branco, o escritor português, na sua passagem por Ribeira de Pena, depois de se casar com Joaquina, e onde teve a sua primeira filha. Temos também o Museu do Volfrâmio em Cerva, em que retrata a exploração do Volfrâmio durante a primeira parte do século XX na Vila de Cerva. O Museu do Linho em Limões, porque Limões é, na realidade, o ex-líbris da produção do linho, não só em Ribeira de Pena, mas sobretudo no Norte de Portugal. O Ecomuseu desenvolve-se através destes núcleos e desta presença territorial.
CM: O Museu do Linho foi inaugurado em 2014. Como esse projeto nasceu e porquê a escolha da Aldeia de Limões para a criação deste museu?
Ricardo Machado Carvalho: O Museu do Linho não poderia ser noutro sítio se não em Limões. A presença do Linho é muito forte no nosso território, sobretudo na freguesia de Cerva e Limões, mas Limões carrega em si uma carga simbólica muito grande que é o local onde a tradição do linho perdura mais tempo. É o local onde ainda existem mais tecedeiras, é o local onde o linho ainda passa de geração em geração, em que os ensinamentos vão de mãe para filha, dos mais velhos para os mais novos. É a aldeia que, para além da sua confecção ter uma matriz própria, que é o rifado, é muito perfeitinho comparado com os rifados dos concelhos vizinhos. Também ainda faz o ciclo do linho completo, desde a sementeira até ao produto final, até ao pano em si.
CM: Qual era o objetivo inicial do museu e de que forma esse objetivo foi evoluindo ao longo do tempo?
Ricardo Machado Carvalho: O objetivo na abertura do museu ainda é um objetivo que se mantém até hoje: termos a memória viva do artesanato do linho, não deixar que esta tradição acabe e também a criação de uma economia circular dentro dos nossos artesãos, tanto em Cerva como em Limões. Depois em parceria com o Museu do Linho temos duas cooperativas do linho que nos dão um apoio muito grande, que é a cooperativa dos artesãos de Cerva e a cooperativa dos artesãos de Limões.
CM: O Museu de Linho foi distinguido pelo Interreg Europe em 2020. O que é e o que representa para o Ecomuseu?
Ricardo Machado Carvalho: Quando fomos distinguidos foi por sermos um museu com esta ligação sobretudo à cooperativa do Linho de Limões, um museu sustentável em que os próprios artesãos fazem parte da exposição viva do museu, em que o visitante, ao entrar no museu, para além da exposição permanente, consegue interagir com as tecedeira. Elas têm lá as suas próprias oficinas, conseguem se sentar no tiar, conseguem produzir um bocadinho do trabalho do linho.
CM: A Feira do Linho, no mês de agosto, é um dos momentos mais marcantes deste artesanato. Qual é a sua importância para a comunidade local e para o museu?
Ricardo Machado Carvalho: A Feira do Linho é de uma grande importância porque é a maior feira que nós temos aqui na nossa região. Está também incorporada com as festas da Vila e não é uma feira só dedicada ao Linho. O ator principal da feira é o Linho, mas depois temos momentos de convívio, de confraternização. Encontramos sempre aqui os nossos artesãos, pessoas que mostram a sua arte, que vendem a sua arte e como é a feira em que recebemos mais gente durante o ano. A grande importância dela é que a divulgação do linho também se torna cada vez maior.
CM: Durante dois anos um desfile foi integrado na Feira do Linho. Como surgiu esta ideia?
Ricardo Machado Carvalho: Esta ideia surgiu de tentar capacitar os nossos artesãos para peças contemporâneas, para apliques noutras peças e com a chamada de estilistas, de modelos, da criação de uma passagem de modelos, de uma amostra diferente, para podermos mostrar a versatilidade do linho perante vários produtos.
CM: Limões é uma aldeia muito pequena e com cada vez menos jovens. Quais são, na sua perspectiva, os principais desafios na transmissão desta tradição às novas gerações?
Ricardo Machado Carvalho: É um desafio muito difícil que já estamos a enfrentar. Nós não temos tantas oportunidades de emprego como gostaríamos. Os meios rurais têm muita mais dificuldade do que os meios urbanos. Os jovens cada vez mais têm uma mão de obra especializada, têm cursos superiores e pode ser difícil a permanência no meio rural.
Nós temos agora um projeto que é para a classificação do linho como património cultural imaterial. Para além desta tentativa de inscrição no património cultural imaterial dos chaveiros do linho, para não perder a memória, nós queremos lhe dar uma nova vida. A nova vida passa pela tentativa de criação de peças contemporâneas. Andamos a tentar estudar qual é ainda a melhor maneira de se desenvolver isso. Possivelmente passará pela ajuda da academia, das universidades ligadas à arte e das universidades ligadas à moda.
CM: Então, existem receios reais de que este saber se perca. Como é que conseguem lidar com esses medos, além dessas estratégias para a continuidade dessa tradição?
Ricardo Machado Carvalho: Temos é que entrar mesmo na realidade e metermos também no lugar das pessoas. Neste momento é difícil uma pessoa sobreviver só com a arte do linho e os artesãos também têm que se reinventar para peças contemporâneas se querem manter esta arte viva porque aqui na zona em quase todo o lado nós temos as arcas de madeira cheias de panos de linho, toalhas de mesa. Logo que as pessoas já não procuram tanto, mas se calhar procuram outros objetos, tipo camisas de linho, calças de linho, roupagens, peças de arte, e é por aí que temos que evoluir e talvez uma ajuda académica nos ajude nessa evolução.
CM: Li num artigo local que teria existido um projeto de uma carteira com o Christian Louboutin.
Ricardo Machado Carvalho: O Louboutin, na realidade, produziu uma carteira de edição limitada com as nossas tecedeiras. Elas produziram uma parte dessa carteira e foi um sucesso tanto que a carteira esgotou em 24 horas. No dia que foi lançada, esgotou logo. Isso é mais um exemplo da reinvenção que se tem que ter ao linho.
CM: Quais são os projetos futuros do Museu do Linho de Limões ou mais geralmente que objetivos gostaria de ver concretizados para o Ecomuseu de Ribeira de Pena?
Ricardo Machado Carvalho: O objetivo principal a curto prazo é mesmo a inscrição do linho de Cerva e Limões como património cultural imaterial, porque acreditamos que com esta inscrição o linho vai ser muito valorizado, vai ter mais procura e a economia circular cresce. Ao crescer vamos ter pessoas a não desistir do linho, pessoas a querer aprender e manter a tradição viva.
CM: Para acabar, que mensagem gostaria de deixar a quem ainda não conhece Limões, Ribeira de Pena, o Museu do Linho e este património vivo?
Ricardo Machado Carvalho: A quem não conhece, lanço o convite para vir até Ribeira de Pena, até ao Conselho inteiro, desde o norte a Canedo até às aldeias de Limões, que ficam mais a sul. É uma região em que se come muito bem, em que se bebe muito bem, em que tem paisagens magníficas, tem três rios fantásticos para no verão nos podermos banhar e refrescar e para também experimentar as nossas tradições, sobretudo as tradições do linho, em que podem visitar o Museu do Linho e Limões, saber o percurso do linho todo, desde a semente até ao produto final. No final da visita sentar-se num tear, bater um bocado o tear na elaboração de uma peça e adquirir, nem que seja uma pequena toalha de linho para ajudar as tecedeiras ainda a sobreviverem desta arte, para ela não poder acabar.
CM: Muito obrigada Ricardo!
Convidamos toda a gente a ir visitar o Ecomuseu de Ribeira de Pena e toda a região.
Entrevista realizada pela Julie Carvalho,
e pela Liliana Tavares Ribeiro.
Publié le 15/01/2026.




