
Astrolab : Des vêtements pensés, créés et fabriqués au Portugal
15 mai 2026
Coletivo Rua das Pretas publicou novo album e realizou concerto em Paris
18 mai 2026A Cap Magellan quis falar com Inês Grosso, curadora, licenciada em História da Arte da Universidade do Porto e mestre em Estudos Curatoriais pela Universidade de Lisboa. Iniciou a sua carreira no Instituto Inhotim no Brasil e integrou a equipa fundadora do MAAT, o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia em Lisboa. Desde 2021 é curadora-chefe do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto.
Cap Magellan: Inês, muito obrigada por ter aceito falar connosco. Para começar, para quem não está familiarizado com o termo de curadoria, como definiria essa palavra?
Inês Grosso: Hoje em dia, eu acho que a ideia de curadoria já se usa em muitos contextos. Falamos de curadoria até, se for preciso, numa loja que vende qualquer tipo de artigos, quando se fala de uma curadoria para a loja. No caso da arte contemporânea, e mais especificamente num contexto institucional, o termo ganha um enquadramento mais preciso, até porque temos cada vez mais curadores especialistas em cinema, curadores especialistas em performance, que muitas vezes trabalham em contextos de festivais ou de bienais, por exemplo, de artes performativas.
Num contexto museológico, que é aquele sobre o qual posso falar com mais detalhe, um curador é uma pessoa responsável por acompanhar a programação de um museu. No caso de um curador-chefe, como é o meu caso agora em Serralves, trata-se de fazer a programação do museu juntamente com o diretor e, naturalmente, em diálogo com a equipa curatorial da instituição. As suas funções passam por organizar exposições, acompanhar os artistas, pensar a coleção do museu, propor aquisições e desenvolver um trabalho muitas vezes também relacionado com os programas públicos do museu no âmbito das exposições, incluindo os programas paralelos que vão sendo realizados.
Se pensarmos na origem da palavra, na ideia de “curar”, trata-se de alguém que cuida e preserva uma coleção ou determinados objetos. No entanto, hoje em dia, é uma palavra com uma amplitude muito maior, um conceito que se expandiu bastante.
No caso específico das instituições de arte contemporânea, diria que um curador é, de certa forma, um cúmplice dos artistas, sendo responsável pela programação, pela conceção e implementação de projetos expositivos e, eventualmente, também pelos programas públicos e paralelos.
Diria que são estes os eixos fundamentais da atividade de um curador.
CM: A sua carreira começou no Brasil, no Instituto Inhotim. Que impacto teve essa experiência no modo que pensa a arte, a paisagem, a relação com o público e com a instituição?
Inês Grosso: O Inhotim foi absolutamente fundamental para mim e ainda hoje falo bastante sobre esse período. Teve um impacto decisivo não só na minha formação profissional, mas também a nível pessoal, em vários aspetos. É uma experiência à qual continuo a regressar frequentemente, até porque mantenho muitas das relações que iniciei naquela altura, em 2011, quando me mudei para o Brasil. Foi um momento de aprendizagem muito intenso e tive também a sorte de trabalhar com uma equipa verdadeiramente extraordinária, num contexto igualmente singular: um museu integrado num parque, com uma coleção muito relevante. Essa experiência transformou profundamente a minha perspetiva. Vinha de um contexto europeu, bastante centrado na produção artística da Europa e o Inhotim abriu-me novos horizontes. Na altura, eu vinha de uma experiência em galerias comerciais, que tinham sido os meus primeiros contextos de trabalho. Foi no Inhotim que, de facto, percebi que queria ser curadora, que me interessava esta ideia de organizar exposições, de pensar programação e de desenvolver um trabalho de maior proximidade e continuidade com os artistas, acompanhando a produção artística de uma forma mais ampla, menos centrada em Portugal ou na Europa.
Outro aspecto muito marcante foi a relação com a arquitetura. No Inhotim, habituei-me a trabalhar em estreita colaboração com arquitetos, em grande parte devido aos pavilhões dedicados a artistas, que resultam de um diálogo entre artistas e arquitetos convidados. Essa prática influenciou profundamente a minha abordagem e ainda hoje procuro integrá-la no meu trabalho. Em Serralves, por exemplo, convido frequentemente arquitetos para colaborar no desenvolvimento das exposições, algo que, embora hoje mais comum, não era tão frequente em Portugal na altura. Mesmo no contexto das exposições temporárias com obras da coleção, tive oportunidade de trabalhar com excelentes arquitetos, o que constituiu também um importante momento de aprendizagem. Foi aí que tomei maior consciência da importância da relação entre curadoria e espaço expositivo, embora, naturalmente, isso depende sempre da natureza de cada projeto. Além disso, a relação com o parque e com o próprio lugar foi igualmente determinante. O Inhotim não é apenas um museu, é um destino. Isso é algo que reconheço também em Serralves. As pessoas não vêm apenas ao museu, vêm ao parque, procuram essa relação entre natureza e obras e participam nas diversas atividades e programas que são desenvolvidos.
Essa dimensão mais alargada da instituição foi algo de que me apercebi no Inhotim e que continuo a valorizar muito. Gosto de pensar Serralves precisamente dessa forma: não apenas como um museu, mas como um lugar, um destino.
CM: Fez parte da equipa fundadora do MAAT. O que significa construir desde o início a identidade de uma instituição cultural?
Inês Grosso: Quando comecei a trabalhar no MAAT, o museu ainda estava em construção. Nessa fase inicial, éramos um grupo relativamente reduzido, cerca de quatro ou cinco pessoas, a pensar a programação do ponto de vista artístico. Naturalmente, existiam outros departamentos envolvidos, desde a comunicação ao desenvolvimento, à loja, entre outros, mas no plano curatorial éramos uma equipa pequena a definir os primeiros passos e a refletir sobre o que faria sentido apresentar num museu que estava a nascer. A programação do MAAT teve início em outubro de 2015, ainda antes da abertura do novo edifício, que viria a acontecer em 2016. Esse foi um momento de reflexão estratégica: pensar o que fazia sentido naquele contexto, tanto para Portugal como para Lisboa. A cidade vivia uma fase de transformação, com a chegada de muitos artistas internacionais e o surgimento de iniciativas como a ARCOlisboa, que contribuiu para essa dinâmica. Tratava-se, portanto, de construir uma programação com ambição internacional, mas também profundamente enraizada no contexto local. Ao mesmo tempo, os próprios espaços do museu impunham uma reflexão específica. Por exemplo, a Galeria Oval, o grande espaço expositivo do MAAT, foi desde início pensada como um lugar com características singulares, comparável, de certa forma, à Turbine Hall da Tate, ou seja, um espaço para o qual se convidariam artistas a desenvolver projetos concebidos especificamente para aquela escala e arquitetura.
O trabalho passou, assim, por identificar os espaços, os artistas e os formatos expositivos mais adequados, bem como articular essa programação com os programas paralelos e educativos, em colaboração com os diferentes departamentos. Foi, sem dúvida, uma oportunidade rara: participar na criação de um museu desde a sua origem, especialmente num contexto urbano como o de Lisboa. Paralelamente, acompanhámos também a transformação da zona envolvente. Na altura, tratava-se de uma área relativamente negligenciada da cidade e o MAAT teve um papel importante na sua reativação e na aproximação da cidade àquela frente ribeirinha. Questões como acessibilidade, parcerias e inserção urbana faziam parte das nossas preocupações. Nesse sentido, desenvolvemos várias parcerias, tanto a nível nacional como internacional.
Essas ações, desde apresentações informais, como uma garden party, até encontros profissionais, faziam parte de uma estratégia mais ampla de divulgação e posicionamento. O objetivo era claro: dar visibilidade ao MAAT, estabelecer redes de contacto e lançar as bases para a internacionalização do projeto. No fundo, tratava-se de pensar o museu em todas as suas dimensões, desde a programação artística até à sua inserção urbana e projeção internacional, sempre com a ambição de afirmar um novo pólo cultural na cidade de Lisboa.
CM: Desde 2021 é curadora-chefe do Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Como encontrou a instituição quando chegou e que direções quis imediatamente explorar quando chegou?
Inês Grosso: Imediatamente, diria que não houve nenhuma mudança, até porque este tipo de processos exige tempo. Quando cheguei a Serralves, não conhecia a equipa diretamente, embora acompanhasse a programação. Numa fase inicial, a minha prioridade foi conhecer a equipa, compreender a programação que já estava delineada e também as ideias do diretor. Entretanto, o contexto global alterou-se profundamente. Pouco tempo depois da minha chegada, ainda num período marcado pela pandemia, teve início a guerra na Ucrânia e desde então temos assistido a uma sucessão de conflitos e transformações a nível político e económico. Esse cenário obriga-nos, inevitavelmente, a repensar a programação. A arte acompanha os grandes debates e as questões do seu tempo e, nesse sentido, torna-se fundamental refletir sobre o que faz sentido apresentar, o que poderá estar em falta e de que forma uma instituição como Serralves pode manter a sua relevância no contexto internacional.
Os museus, ao longo do tempo, consolidam a sua posição, tanto a nível local como global. No entanto, num panorama em que têm surgido muitas novas instituições, incluindo no contexto europeu, é essencial questionar continuamente o que significa permanecer relevante e que estratégias devem ser adotadas para esse fim. Naturalmente, existem também dimensões que se cruzam com interesses pessoais, que acabam por influenciar o pensamento curatorial, ainda que nem sempre de forma totalmente separável. Ao mesmo tempo, é importante olhar para o contexto nacional, para o trabalho desenvolvido por outras instituições e identificar o que faz sentido trazer para um cenário que entretanto se transformou.
CM: O Porto tem uma história cultural muito própria e uma cena artística ativa. Como vê hoje o lugar dessa cidade no mapa da arte contemporânea?
Inês Grosso: Eu evitaria, talvez, uma leitura excessivamente centrada em cidades como Porto ou Lisboa de forma isolada. Portugal tem artistas de grande qualidade e um conjunto de espaços, incluindo espaços independentes, que são reconhecidos internacionalmente ou, pelo menos, acompanhados com atenção. Isso torna-se evidente quando estamos em contextos internacionais. Ainda assim, é importante reconhecer que cidades como Lisboa e Porto não ocupam a mesma posição que centros como Paris, Londres ou Berlim, que concentram maiores fluxos de turismo cultural e dispõem de condições económicas distintas. Existe, portanto, uma certa condição periférica. No entanto, essa mesma condição gera, muitas vezes, uma capacidade muito particular de produção, criatividade e resiliência.
A escassez de apoios e, por vezes, a menor atenção por parte de instituições e curadores internacionais acabam por exigir um maior esforço e um elevado grau de profissionalismo. Curiosamente, já me deparei em várias ocasiões, tanto em Serralves como anteriormente, com alguma hesitação ou mesmo desconfiança por parte de parceiros internacionais em relação à capacidade de concretização de projetos em Portugal. No entanto, essa perceção é frequentemente contrariada pela realidade. Existe um cuidado extremo em todos os níveis, desde aspetos aparentemente menores, como textos de parede, até à produção de projetos complexos. Os profissionais demonstram um elevado grau de dedicação e rigor, que nem sempre é tão evidente noutros contextos. O mesmo se pode dizer dos artistas portugueses, cuja capacidade de adaptação, reinvenção e resiliência é, na minha perspetiva, notável.
CM: Já trabalhou com vários e várias artistas ao longo da sua carreira. O que procura num artista ou num projeto quando começa a imaginar uma exposição? O que aprendeu sobre si própria através do trabalho com os artistas?
Inês Grosso: Eu não diria que procuro algo muito específico nos artistas. Acima de tudo, tenho uma grande admiração pelo que fazem, porque considero que ser artista é extremamente exigente. A exposição do trabalho e, muitas vezes, a exposição de si próprio, implica uma coragem muito significativa. Se tivesse de identificar um critério, talvez diria que procuro verdade: verdade e honestidade no trabalho, em diferentes dimensões, incluindo a ética. Essa dimensão é algo que valorizo profundamente.
Sinto-me frequentemente fascinada quando trabalho com artistas. Há algum tempo, escrevi um texto em que citava o curador Alexandre Melo, que dizia que cada vez que trabalha com um artista é como se fosse uma nova paixão. Essa ideia ficou-me e reconheço-me muito nela. De facto, muitas vezes sinto esse entusiasmo: uma curiosidade genuína em compreender o universo do artista, os seus interesses, referências, leituras, até a música que ouve, porque tudo isso contribui para uma compreensão mais profunda do trabalho. Embora nem sempre seja necessário conhecer profundamente o artista do ponto de vista do público, enquanto curadora considero essa proximidade muito importante. Naturalmente, depende dos projetos e também da relação que se estabelece. Nem sempre existe uma empatia imediata, a confiança constrói-se ao longo do tempo.
Ainda assim, é um processo que me fascina. Observo, escuto e aprendo continuamente. Tenho aprendido muito com os artistas com quem trabalho. Vejo a relação entre curador e artista como um diálogo contínuo, uma relação de troca. Para mim, é um processo profundamente enriquecedor e, acima de tudo, um grande prazer, sendo que, quando as coisas não correm bem, isso também me afeta bastante.
CM: Que conselho daria a um jovem que gostaria de ser curador ou curadora?
Inês Grosso: Eu diria, sem dúvida, que ver exposições é fundamental, ver muitas exposições e treinar o olhar. Sempre que possível, viajar. Viajar permite o contacto com diferentes contextos e práticas, o que é essencial. Quem vive, por exemplo, numa cidade como Paris tem acesso a instituições extraordinárias e a uma programação contínua, o que facilita esse exercício de acompanhamento regular. Mas mais do que ver, é importante saber observar. Com o tempo, é fundamental desenvolver uma atenção aos detalhes: ao espaço expositivo, às escolhas curatoriais, às relações entre as obras, à forma como estão montadas, às legendas, aos textos de parede e aos dispositivos utilizados. Mesmo quando o tempo é limitado, por exemplo, em viagem, e a visita é mais rápida, há um exercício de observação que se mantém. A partir do momento em que entro num espaço expositivo, estou atenta a tudo: desde a escala de uma projeção até às soluções de montagem, aos materiais utilizados, à disposição dos elementos. Leio as legendas, consulto os textos, e, quando não conheço o artista, procuro informação adicional.
Há também uma dimensão que considero essencial e que, por vezes, se perde no ritmo acelerado do quotidiano: a capacidade de sentir o espaço. Não apenas ver, mas experimentar fisicamente a exposição, perceber as relações no espaço, a atmosfera, a presença das obras. Esse exercício contínuo contribui para o desenvolvimento de uma maior sensibilidade e intuição, bem como para a capacidade de imaginar projetos expositivos. Com o tempo, torna-se mais natural pensar o espaço e antecipar soluções.
Assim, o principal conselho que daria é visitar exposições com o máximo de atenção possível, observando todos os detalhes, refletindo sobre as escolhas feitas, sobre as relações estabelecidas e adotando também uma perspetiva crítica, questionando, por exemplo, o que faria de forma diferente. Trata-se de um exercício constante de observação, análise e reflexão.
CM: Obrigada pelas suas respostas Inês Grosso!
Pode seguir Inês Grosso no seu Instagram ou no LinkedIn, mais também a Fundação de Serralves no Instagram ou no LinkedIn.
Entrevista realizada pela Liliana Tavares Ribeiro,
estudante em Mestrado em Mercado internacional da arte contemporânea
no IESA arts&culture
Publié le 18/05/2026




