No próximo dia 8 de maio, o icónico grupo Capitão Fausto atuará em Paris pela primeira vez, na sala Point Ephémère. A Cap Magellan obteve uma entrevista exclusiva com Tomás Wallenstein (voz, guitarra, teclas).
Cap Magellan: Olá Tomás, espero que esteja tudo bem. Fazes parte do grupo Capitão Fausto, que é um grupo conhecido e reconhecido em Portugal e não só. Vão atuar em Paris na sala Point Ephémère no próximo dia 8 de maio. Estás ansioso? O que nos podes dizer sobre o show que vai ser?
Tomás Wallenstein: O concerto no Point Ephémère vai ser a nossa estreia a tocar em Paris, aliás em França no geral. Estamos muito ansiosos, os bilhetes já estão a vender e está a correr bem. Acho que vai ser uma noite muito bonita e gostava de convidar toda a gente a ir celebrar lá connosco este início de uma nova aventura dos Capitão Fausto.
CM: A sala do Point Ephémère é uma das referências da cena alternativa parisiense. Estão habituados a tocar em espaços destes?
Tomás Wallenstein: Felizmente temos tido uma grande variedade de salas de espetáculos ao longo dos últimos anos. Talvez estes dois últimos anos tenham sido maioritariamente em auditórios grandes e espaço ao ar livre em festivais de verão. Porém, ao longo da nossa carreira, em todos os discos, sempre fizemos digressões de clubes numa parte do ano, digressões de teatros noutra parte e ao ar livre durante o verão. Acho que é importante, como banda e como músicos, conseguirmos estar sempre em todos os tipos de palco e em várias dimensões, porque a verdade é que os concertos são mesmo diferentes. Os espetáculos também são seres vivos e devem adaptar-se ao sítio onde estão. Tanto temos alegria a tocar num palco enorme e longe do público, mas com milhares de pessoas à frente, como num clube para 50 pessoas, ou para 250 no caso do Point Ephémère, em que o público está muito perto de nós. Vemos as reações, as caras das pessoas, quando as pessoas esboçam um sorriso, ou quando mostram desconfiança, quando se entusiasmam, estão ali muito perto. Também é muito enriquecedor e isso foi uma das razões pelas quais nós voltamos a marcar esta digressão, desta vez pela Europa, mas em clubes, em espaços intimistas, para irmos para perto do público que nos quer ver nestes sítios onde ainda nunca tocamos.
CM: O que é que representa para vocês atuarem na capital francesa?
Tomás Wallenstein: Vai ser uma descoberta. Não sabemos muito bem ainda o que podemos esperar. Acredito que vai correr muito bem e já temos tido muita gente que demonstra que vai querer estar lá. Para mim, eu, Tomás, tenho uma ligação mais próxima ainda porque cresci com a cultura francesa. Andei no liceu francês a minha vida toda e, portanto, metade dos meus amigos de infância são franceses. Falei francês durante metade da minha vida. Portanto, a ligação com França, no geral, também era uma coisa que eu ressentia um bocadinho e que agora fico contente de poder me aproximar. Tive a sorte de poder estar no Festival Mamá, o Showcase Festival que aconteceu em Pigalle, em outubro do ano passado, e portanto também tive a oportunidade de conhecer algumas pessoas do meio e sobretudo de ver muitos espetáculos e uma boa parte da nova cena do rock e da música francesa. As bandas novas e os artistas estão a começar e portanto fiquei muito bem impressionado. Acho que estamos muito contentes em poder ir participar neste movimento, nesta cidade tão fervente e entusiasmante que é Paris.
CM: Também vão atuar em Madrid, Barcelona, Londres e Amsterdão. Como se sentem ao saber de que a vossa música chega a um público internacional?
Tomás Wallenstein: Foi um bocadinho uma descoberta e decidimos também arriscar um bocado mas a verdade é que em todas as cidades temos tido a agradável surpresa de que há alguma procura. Temos recebido muitas mensagens de pessoas a dizer que vão estar presentes ou a pedirem outra data porque naquela data não podem estar. Acredito que uma das coisas que nos motivou a fazer esta digressão é que nos últimos anos cada vez mais tem havido interesse, sobretudo no circuito da música no geral, mas na música alternativa também. Há muito interesse pela música, pelo exotismo na música. Não está agora tão sedimentada ou tão dependente da cultura anglo-saxónica e da língua inglesa e da sua componente internacional para ser compreendida. Acho que cada vez mais há espaço para a música cantada em francês, em italiano, em norueguês, em dinamarquês, etc. para conviver todas no mesmo espaço nos mesmos festivais de música, no mesmo circuito e a música aí fala mais alto. Eu também, no meu consumo pessoal de música, tenho vindo a perceber que uma grande parte das vezes não preciso de perceber a letra no início, mesmo que eu depois a vá descobrir, vá ver o que é que quer dizer traduzida ou por aí fora, para sentir o que é que a música me faz sentir. Mesmo quando percebo a letra depois, a minha interpretação ainda não é diferente, é só mais uma descoberta de uma nova camada. Portanto, é baseado nisso que os Capitão Fausto acreditam que pode haver espaço para nós na comunidade internacional. Seja a que escala for, acho que há muito interesse e há muito boa música a ser feita localmente. Acho que é essa também que deve circular.
CM: Essa turnê é ligada ao vosso último álbum Subida Infinita, lançado no dia 15 de março de 2024. Este álbum marca a despedida de Francisco Ferreira. Como é que foi recebido pelo público?
Tomás Wallenstein: Tem sido muito bem recebido. Foi finalmente um ano de regresso também, porque entre o que se atravessou durante os anos da pandemia, com os poucos concertos que existiram, nós acabámos por nos sentir distantes do público. Atravessou-se ali um período do disco anterior, a Invenção do Dia Claro, que até tinha tido uma recepção bastante boa, mas em que rapidamente foi travado o contacto com o público. Depois, estes últimos anos, ou ainda estávamos muito próximos das regras da pandemia e, portanto, não havia muitos espetáculos e eram com máscaras e com muita distância, ou então já tinha passado muito tempo do disco, já não tínhamos música nova para mostrar. Portanto, nesse aspeto, este disco foi mesmo o nosso regresso. Marcou justamente a saída do Francisco. Foi um processo de saída, uma escolha dele de mudança de vida e de profissão. Também marcou os últimos anos, os anos de nós estarmos a acabar a gravação do disco, etc. Foi um processo de transição em que nos podemos habituar e tentar construir o que era a ideia desta banda continuar sem um dos seus elementos fundadores e que era tão importante como qualquer outro de nós. Felizmente correu muito bem. Foi um dos anos que tivemos mais concertos, tivemos muito público e sentimos-nos muito reconhecidos. Aquilo que nós podemos retirar ao fim de um ano é que nos deu mais motivação ainda para continuar, para fazer mais música e para continuar à procura de quem nos quer ouvir, que é quem interessa na história.
CM: Neste concerto em Paris vão cantar principalmente as músicas deste álbum ou também temas antigos ou novos?
Tomás Wallenstein: Nesta fase eu acho que já é uma mistura da discografia toda. É evidente que tem uma incidência maior neste último disco, por questões de ser mais atual, de ser a música que nós sentimos que nos representa um pouco mais neste presente, mas tentamos também fazer um apanhado de todo o resto.
CM: Existe uma música vossa que vos emocione mais ao tocar ao vivo e porquê?
Tomás Wallenstein: Acho que isso vai variando e acredito que também haja diferentes opiniões dentro da banda. O Domingos deve achar isso para alguma música ou o Manuel para outra ou o Salvador para outra com certeza. Eu ultimamente tenho ficado mais emotivo, sobretudo no ano passado na altura do lançamento do disco do Subida Infinita, a tocar a Nunca Nada Muda que é uma canção também que nasceu muito a partir da letra e foi o próprio motivo, o próprio tema da música que a fez crescer e que a fez evoluir, ao contrário de muitas outras em que a música é que leva a letra atrás. É muito nostálgica, faz-me pensar como é que isto tudo começou. A banda já existe há alguns anos e olhar para trás dá algumas saudades da nossa juventude e de como é que nós construímos isso. A saída do Francisco é um choque de realidade muito grande, as coisas mudam e a vida vai avançando. Portanto acho que essa canção tem sido às vezes a que me emociona mais, embora tenha gostado de tocar o disco no geral ao vivo.
CM: O título do álbum também remete para um ciclo interminável, ascendente. Sentem que esta ideia se aplica ao vosso percurso na banda? Desejam isso?
Tomás Wallenstein: Acho que, mais do que ser uma figuração de um crescimento e de estar sempre a progredir, tem a ver com a sensação de estar numa rua a subir constantemente e de estar à procura de uma zona em que finalmente se aplana. O esforço diminui, mas a nossa sensação, à medida que os anos passam, é que temos de continuar a lutar e temos de continuar a esforçar-nos, seja para vencermos os nossos próprios vícios ou tentarmos encontrar alguma frescura nas nossas ideias, mas também para nos mantermos motivados, no geral. Portanto, daí esta figura da subida infinita, de nós assumirmos que enquanto isto durar, enquanto os Capitão Fausto existirem, vai ter de ser uma coisa com esforço, com trabalho e com envolvimento. Estamos, de certa forma, conformados também com isso. É aceitar um ritmo, é aceitar a ideia de que esta coisa não acaba cá. Há sempre mais alguma coisa para fazer.
CM: Capitão Fausto foi formado em 2009. Como é que escolheram este nome?
Tomás Wallenstein: Não há assim uma grande história por trás. É um processo sempre complicado de dar de nome as coisas, no geral, e dar de nome a um grupo ainda mais. Acho que na altura nós, talvez, estivéssemos mais concentrados em começar a fazer músicas e em tocar do que propriamente em saber como é que nos íamos chamar a nós próprios. Portanto, não me lembro de outras alternativas, na verdade, não nos entusiasmaram. Acho que foi só um nome que soou bem. Não sei se não é do Júlio Verne ou outra coisa, mas de qualquer forma, não tinha nenhum significado, nem nenhuma razão muito especial.
No entanto, depois, durante os primeiros anos da banda, quando começámos a ser entrevistados e nos perguntavam a origem do nome, nós nunca sabíamos muito bem responder. Como não sabíamos muito bem responder, não gostávamos muito dessa pergunta. Então começámos a inventar histórias. Sempre que nos faziam a pergunta, inventávamos uma história nova ali no local. Envolvia sempre o nosso baterista, Salvador, uma vida no Brasil que ele nunca teve e uma personagem emblemático qualquer chamado Capitão Fausto. Pronto, divertimo-nos sobre isso até depois começarmos a confessar que fazíamos essas invenções.
CM: Quais eram as vossas influências no início? Sempre tiveram esta sonoridade ou estiveram experimentando, ouvindo?
Tomás Wallenstein: Eu acho que nunca tivemos uma influência muito específica. A música que ouvíamos durante a altura em que estávamos a fazer a música contribui muito para aquilo que nós queríamos também fazer soar, porque íamos descobrindo ideias novas, íamos descobrindo maneiras de fazer. Acho que há uma constante ao longo de todos os nossos discos. Se eu tiver de apontar, é sempre à volta dos Beatles. Tanto a ideia da banda dos Beatles, como a maneira de explorarem o estúdio, como as canções são a base principal. Só pela canção já se aguentam, mas depois há toda uma componente de arranjo, de descoberta e de exploração musical, que não tem menos importância do que a própria canção em si. Acho que essa ideia acaba por ser talvez uma das mais fortes e daquelas que nós não conseguimos muito bem largar. De resto acho que tudo nos influenciou do que fomos ouvindo no início quando tínhamos 19, 18 anos. As bandas que tinham acabado de lançar discos novos e que estavam a crescer muito eram os Arctic Monkeys, os Strokes e os MGMT, etc. Eles também marcam a viragem dos anos 10. Acho que dão uma nova roupagem aos festivais de música e à cena da música no geral. A música independente também avançou um pouco para o mainstream nessa altura.
Desde aí eu devo dizer que talvez nós vamos ouvindo coisas novas que vão aparecendo o Mac DeMarco é uma grande referência por exemplo, mas eu acho que a maior parte da música que nos influencia é sempre música antiga: são sempre coisas dos anos 70 do Paul Simon aos Gentle Giant ao Bob Dylan e aos Rolling Stones. Acho que há tanta riqueza nos anos 60 e nos anos 70, há tanta coisa que ainda conseguimos descobrir. Tem sido sempre a maior parte das nossas referências.
CM: Qual foi o processo de criação do vosso primeiro álbum? Já tinham experiências de estúdios?
Tomás Wallenstein: Tínhamos muito pouca. Tínhamos ido talvez gravar umas sessões em salas de ensaios, alugar os estúdios à hora etc. mas nunca tínhamos feito uma coisa muito com pés de tronco e membros. O que fizemos foi ensaiar muitas músicas assim chegávamos ao estúdio muito ensaiados e gravávamos as músicas sempre ao segundo ou ao terceiro take. Porque também tínhamos muito poucas horas de estúdio. Não tínhamos muito dinheiro para alugar. O primeiro disco foi sem dúvida o disco que demorámos menos tempo a gravar. Entre gravação de instrumentos de vozes e mistura foram nove dias. Foi uma coisa que nunca mais se voltou a repetir. Às vezes sentimos que há algumas saudades desse imediatismo. Ao contrário disso, Subida Infinita teve um ano em estúdio. Tivemos um ano inteiro a gravá-lo e a compor. O Gazela, o primeiro disco, foi mesmo uma exceção e foi exatamente o oposto do que tem vindo a acontecer cada vez mais, que eu também acho natural porque o critério do que nós fazemos vai ficando cada vez mais apertado e já não ficamos satisfeitos com a primeira ou a segunda coisa que aparece. Mas mesmo assim há músicas icónicas no Gazela.
CM: Agora que ocupam um lugar de destaque na cena musical portuguesa, tiveram oportunidades únicas e diferentes, como a colaboração com a Orquestra das Beiras em 2022. Como foi essa experiência? Sentem que abriu caminho para explorarem mais este tipo de instrumentação no futuro?
Tomás Wallenstein: Foi uma ideia que nasceu durante o nosso último disco e também foi um caminho muito progressivo. Aliás, o disco anterior, o Capitão Fausto tem os dias contados, foi o primeiro em que começámos a ter algumas participações de músicos clássicos no disco e a ter algumas componentes de arranjo ainda discretas. A partir desse momento, fomos sempre querendo, tendo muita curiosidade, em incluir outras sonoridades que não somos capazes de emitir e em poder estar a tocar com mais músicos. Pois, também nos permitia alargar o espectro e sentir outras experiências fora de estarmos os cinco só, sempre muito cerrados a tocar uns com os outros. Então isso caminhou devagarinho. Em 2016 fizemos um concerto no Coliseu de Lisboa, em que já tinha um ensemble de músicos com algumas flautas e algumas cordas. Até que em 2020, depois de sair a Invenção do Dia Claro, fizemos o espetáculo no Campo Quino com a Orquestra das Beiras. Foi assim o cristalizar desta nossa ambição de que a música pudesse ser contaminada e alargada por mais músicos. Desde esse concerto acabamos por gravar e lançar o projeto em disco e em vinil. Foi também muito importante porque trabalhámos com o nosso grande amigo e um dos grandes maestros jovens da atualidade, que é o Martins Sousa Tavares. Desde aí temos também desenvolvido uma relação com ele de trabalho, já fizemos mais espetáculos ao longo dos tempos com ele. Temos tido mais algumas experiências com orquestras agora. Há cerca de um mês fizemos um concerto com duas orquestras filarmónicas em Manteigas, em que estávamos a tocar com músicos desde os 11 anos até aos 69 anos. São sempre experiências que nos permitem sair da nossa zona de conforto, sair da nossa rotina. Acho que só temos a aprender com isso. O nosso objetivo principal, se o pudermos resumir, além de continuar a fazer música é podermos continuar a aprender porque só isso é que nos dá a sensação de que isto vale a pena e de que estamos a crescer como seres humanos e como músicos.
CM: Ao falar de continuar a fazer música, Subida Infinita acabou de festejar um ano. Estão a preparar um novo álbum?
Tomás Wallenstein: Sim, estamos. Ainda não começámos mesmo a preparação de canções novas, mas estamos a trabalhar num projeto que já tem quase 10 anos, sobre o qual espero em breve voltar aqui para falar-vos mais, mas que ainda não estamos autorizados a divulgar. Mas é um projeto que nos é muito querido, é também uma peça importante na nossa carreira e já o estamos a preparar desde 2017. Portanto também estamos com muita vontade que ele chegue ao público! Fica aqui um pré-aviso.
CM: Para acabar, a pergunta que faço sempre no final das minhas entrevistas: tens uma mensagem para os jovens lusodescendentes?
Tomás Wallenstein: A primeira mensagem que eu queria deixar era estender o convite. Teríamos todo o gosto em ter-vos lá no Point Ephémère, dia 8 de maio.
No geral, a mensagem que eu tenho para todos os lusodescendentes em França e na Europa é que os Capitão Fausto estão ansiosos por vos conhecer e que ficamos muito contentes que haja esta rede, que se estejam unidos à volta da cultura portuguesa mesmo estando espalhados por aí. É muito importante que se sintam parte da nossa cultura.
CM: Obrigada Tomás e parabéns pelo trabalho! Vemo-nos dia 8 de maio em Paris então!
Convidamos toda a gente a comprar os seus bilhetes para o dia 8 de maio.
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Entrevista realizada pelo Antonin André,
do Tempestade 2.1, e pela Julie Carvalho,
Publié le 02/04/2025