No próximo dia 18 de maio 2025, a grande fadista Sara Correia estará em concerto em Paris, na sala Folies Bergère! Neste âmbito, a Cap Magellan obteve uma entrevista exclusiva.
Cap Magellan: Boa tarde Sara Correia, espero que esteja tudo bem contigo. No dia 18 de maio, vais estar em Paris, na Folies Bergère, para um grande concerto. Estás ansiosa? O que está previsto neste concerto?
Sara Correia: Ansiosa estou sempre! Primeiro porque vou cantar pela primeira vez em Paris e estou muito, muito feliz por isso, por poder ter esta oportunidade. Sei que também há uma grande comunidade portuguesa em Paris, portanto espero também ver lá os portugueses comigo. Estou sempre muito feliz, sempre com esta adrenalina de cantar e é sempre muito bom e gratificante estar em Paris.
CM: Estás no meio de uma grande turnê que segue o teu último álbum +Liberdade. O que queres transmitir ao público com esse novo álbum?
Sara Correia: Eu acho que todos os álbuns que eu vou fazendo definem cada vez mais a artista que eu sou e a mulher que eu quero passar para os outros, não só enquanto artista, mas enquanto mulher também. Este álbum chama-se Liberdade exatamente por isso. Hoje sou muito mais livre de ser quem sou, sem qualquer estigma, sem ter medo de mostrar a mulher que eu sou, na minha forma de me vestir, na minha forma de cantar. Acima de tudo, este disco define essa mulher, define uma nova mulher, que é a Sara Correia, na verdade.
CM: Sentes que o fado tem realmente o poder de atravessar e conectar línguas e culturas diferentes?
Sara Correia: Eu acho que, acima de tudo, o fado sai de um nicho. Era uma coisa que só acontecia em casas de fado, dentro dos bairros e dentro das ruas, em Lisboa, Porto, Coimbra, etc. Acho que o fado tem todo o potencial para ser uma música que está associada a outro tipo de músicas. Aliás, a guitarra portuguesa, que define muito o fado, também tem-se cada vez mais associada a outros géneros musicais com outros instrumentos. Acho que o mais importante é nós, enquanto artistas, sermos verdadeiros connosco: se eu gosto de outros estilos musicais, eu posso fazê-lo, porque eu, acima de tudo, tenho que ser verdadeira para quem me ouve. Há uma coisa que nós nunca perdemos: eu vou ser sempre fadista, porque eu posso cantar qualquer coisa, mas vai sempre saber a fado, eu não consigo não ter isso em mim e acima de tudo trazer Portugal e a portugalidade na voz. Isso é algo que nunca vai sair dos portugueses e portanto isso nunca se vai perder. Agora, eu vou crescer com outras sonoridades porque gosto e admiro outros estilos musicais. Acho que só assim é que o fado também pode passar fora de portas.
CM: Achas que muda alguma coisa na tua forma de interpretar um fado desde o início até agora?
Sara Correia: Sim, claro. Acho que o fado é uma transformação constante na nossa vida, com a idade, com as histórias que estamos passando. O nosso fado também amadurece ao mesmo tempo, portanto é sempre um processo. Até eu ter 80 anos, a minha voz há de ser outra, a minha forma de cantar há de ser outra, e é uma constante transformação.
CM: De todos os palcos que fizeste até hoje, houve algum que te marcou?
Sara Correia: Eu tenho pisado alguns palcos, sim, é uma verdade e fora do meu país, mas o que me marcou mais até hoje foi o Coliseu dos Recreios que eu fiz em Lisboa. É uma sala muito importante dentro do nosso país e, portanto, acho que esse foi o palco mais marcante.
CM: Começaste a tocar muito jovem, entre outras razões porque a tua tia Joana Correia cantava em casas de fado quando tinhas só 3 anos. Começaste também a cantar em casas de fado com 12 anos e com 13 anos venceste a Grande Noite de fado. Como é que viveste este momento enquanto jovem rapariga e como é que o vês agora?
Sara Correia: Eu costumo muito olhar para o meu passado, ao contrário de muita gente que não olha. Eu gosto muito de olhar, porque gosto de fazer uma análise daquilo que estou a viver no meu presente e que quero para o meu futuro, sem grandes planos. Eu sou ambiciosa, mas não desmedida. Gosto muito de olhar para o meu passado porque eu conheço-me, venho de um bairro muito característico aqui em Lisboa, que é o meu bairro de Chelas, e lembro-me desta miúda que eu era até gravar os meus primeiros álbuns. Foram anos de muito trabalho e muita entrega, de muito foco. Portanto, gosto de fazer análise, de olhar para mim hoje e perceber que conquistei algumas coisas que queria, que é possível as pessoas que vêm do bairro também conquistarem. Agora, eu digo sempre uma palavra que é a mais importante: sem trabalho não é possível, é preciso trabalhar muito. As coisas não caem do céu, portanto, é preciso trabalhar muito, mas é possível, é possível conquistar sonhos.
CM: Quando o teu título Chelas saiu, foi um orgulho enorme para as pessoas desta zona. A cultura dos bairros já têm lugar no mundo do fado ou ainda está deixada de lado?
Sara Correia: Ainda um bocadinho, mas esse é o meu objetivo: cantar o meu bairro e todos os bairros para que esse estigma acabe. Acima de tudo, mais do que isso, é puxar esta nova geração que nasce nos bairros como eu, que podem alcançar os seus sonhos. É como ser uma vela acesa dentro do bairro, olhar para esta geração e que elas possam olhar para mim como uma forma de conseguirem conquistar coisas. Depois, o resto, acho que acaba por diminuir a partir do momento em que fazemos isso.
CM: +Liberdade é o teu terceiro disco, publicado dia 25 de Outubro de 2024. Tem uma parte com músicas gravada em estúdio e uma parte com músicas ao vivo. Por que publicar músicas ao vivo?
Sara Correia: Acho que é importante, porque quando ouvimos um disco não é igual a ouvirmos ao vivo. É completamente diferente e acho sempre que o fado é muito mais impactante ao vivo do que em disco, daí essa ideia. Acima de tudo o objetivo é as pessoas conseguirem fazer uma comparação e também deixar uma água na boca das pessoas para que me possam vir ver ao vivo.
CM: Dia 28 de Fevereiro passado, saiu o single Respirar com os Calema. Como nasceu esta colaboração?
Sara Correia: Esta parceria nasce exatamente em junção com a Pfizer. Esta música fala de doenças respiratórias e nasce a partir disso. Tivemos a oportunidade de fazer esta música juntos e acho muito bem. Gosto muito deles, acho que a música ficou muito bonita e tem sido incrível este processo desde que saiu porque tem corrido muito bem.
CM: Se tivesses que apresentar o teu fado para alguém que nunca ouviu antes, que música escolherias e porquê?
Sara Correia: Se tivesse que apresentar o fado, tinha que cantar um fado tradicional. Mas se tivesse que me apresentar a mim, apresentaria o Chelas.
CM: Para acabar essa entrevista, estás a preparar um novo disco ou queres fazer mais colaborações? O que é que nos pode contar?
Sara Correia: Sim, tenho muito que viver ainda! Tenho 31 anos, quero muito fazer colaborações com outros artistas, vem realmente um disco novo, vem também outra sala associada a este disco novo. Quero continuar a crescer e continuar a descobrir-me cada vez mais enquanto artista e enquanto mulher. Acho que é isso que o futuro me reserva: um álbum novo com mais Sara, colaborações novas e continuar a pisar palcos no mundo e aqui no meu país. É isso que eu quero, passar o fado, passar a liberdade e acima de tudo a minha verdade.
CM: Obrigada Sara! Vemo-nos dia 18 de Maio em Paris!
Não se esqueça de comprar os seus bilhetes para dia 18 de maio às 16h no site da Dyam.
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Entrevista realizada pela Julie Carvalho,
de Os Cadernos da Julie,
a Ana Rita de Oliveira e a Laura Padrão,
do Tempestade 2.1.