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3 mars 2026O novo filme de Teresa Villaverde, JUSTA, saiu nas salas francesas dia 25 de fevereiro. Cap Magellan obteve uma entrevista exclusiva.
Cap Magellan: Olá, Teresa Villaverde, obrigada por me conceder este tempo. O seu novo filme JUSTA é uma obra de uma intensidade rara, que não filma a catástrofe, mas sim as suas cicatrizes. Reencontramos aqui aquela solidão e aquela errância tão marcantes que já atravessaram os seus filmes, como Os Mutantes ou Colo, mas desta vez ancoradas nas cinzas das tragédias de 2017. Diria que este novo filme é o prolongamento dessa exploração, mas desta vez perante uma tragédia coletiva?
Teresa Villaverde: Não diria bem isso, porque foi tão impactante para nós todos o que aconteceu em 2017, que eu não consigo sequer fazer uma linha de continuidade. Acho que até pode ser uma ruptura. Demorei muito tempo a perceber que queria fazer este filme e era um foco diferente, embora que nos meus outros filmes como « Os Mutantes » fiz uma grande investigação sobre os adolescentes que viviam institucionalizados. Mas eu nunca tinha falado sobre uma tragédia tão grande e que tinha acontecido há tão pouco tempo. Isso deu-me uma responsabilidade enorme e um medo de falhar. Para realizar este filme, fui sozinha, sem câmara, conhecer pessoas que tinham perdido familiares, casas. Isso ajudou-me bastante, porque ao conversar, as pessoas abriam-se e foi aí que senti o horror que as pessoas tinham vivido. Fui lá 1 ano depois da tragédia, portanto em 2018 e as pessoas ainda estavam em estado de choque, foi horrível.
CM: Imagino o sofrimento… é então por isso que escolheu não mostrar o incêndio, mas apenas a “paisagem do depois”? Porquê filmar as cinzas em vez do fogo?
Teresa Villaverde: Eu queria falar das pessoas, não queria pôr o fogo, porque é uma coisa ilustrativa, já sabemos todos o que é. Enquanto que a parte das cinzas, o « depois do fogo » ninguém vê. Vivemos momentos coletivos, onde nos preocupamos muito com determinadas situações e depois esquecemos e passamos a outra coisa. E isso é terrível, porque não podemos esquecer. Na nossa condição humana, para mim, é importante falar do que aconteceu e deixar registros.
CM: E então porquê o título JUSTA para o seu filme?
Teresa Villaverde: Primeiro, é o nome que dei à criança porque eu acho que no filme, a única personagem que tem um olhar acusatório, cheio de raiva contra todos e contra tudo é ela. Ela sente a injustiça perante a situação e é assim que cheguei ao nome « JUSTA » que é uma palavra portuguesa muito forte.
CM: É verdade e adoro este título! Estou de acordo consigo a personagem da pequena Justa é muito comovente. E durante a rodagem, como é que dirigia a criança atriz para a fazer interpretar um trauma tão pesado sem a “esmagar”?
Teresa Villaverde: Em primeiro lugar, tinha mesmo 10 anos, parece bastante mais velha, mas tinha mesmo 10 anos. Aliás, quando ela foi fazer o casting, mentiu na idade, disse que era mais velha. Eu estava à procura de 10, 12 anos e ela tinha 9. E quando eu a vi eu percebi logo que ela tinha uma inteligência emocional e uma sensibilidade muito grande. Por exemplo, não lhe dei o guião inteiro, só lhe dei as cenas dela. Apesar de ser uma criança, é ela que teve os diálogos mais duros do filme e foi bastante fácil dirigi-la. O meu modo de trabalhar, com os não atores e com as crianças, é sempre plano a plano, não é uma grande conversa que depois abranja tudo. É plano a plano. Ela fez mesmo um trabalho extraordinário e integrou o personagem e há até cenas que são ideias dela.
CM: Como por exemplo?
Teresa Villaverde: Por exemplo, na cena do vestido da mãe, eu perguntei-lhe o que é que ela achava que a Justa ia fazer com aquele vestido e ela disse que achava que ela ia abraçá-lo.
CM: Falando da Justa, ela tem uma relação com o pai, que foi gravemente queimado, muito silenciosa. Filmar um corpo também martirizado pelo fogo é delicado. Então, como é que queria que a câmara e a Justa olhassem para este pai ferido?
Teresa Villaverde: O pai ferido, para quem não viu o filme, eu tentei filmá-lo como se ele não estivesse ferido e tentar sempre encontrar os ângulos que o favorecessem. Depois, a relação entre pai e filha, para a Justa, o facto do pai estar queimado, não retira em nada o facto de ele ser pai dela, e a relação do pai com ela também não. No filme, vemos que ela sofre com isso, mas eu penso que também os silêncios vêm muito pela falta da mãe.
A ausência da mãe da Justa, é muito importante para os dois, cada um à sua maneira e sentimos que o pai tenta ser os dois ao mesmo tempo.
CM: Falando justamente da ausência da mãe, há uma personagem que adorei, é a psicóloga, que também perdeu a mãe durante a pandemia. Eu queria perceber porque é que escolheu fazer ressoar este luto ligado ao Covid, com os incêndios de 2017?
Teresa Villaverde: O Covid é uma coisa que nós todos já esquecemos, praticamente. Mas o que eu quis fazer foi mostrar que a psicóloga, quando foi para a terra de Pedrógão Grande, terra que é dela, esta já trazia uma dor. Se calhar é essa dor que a atraiu para junto daquelas pessoas. Como vamos percebendo, ela não consegue alterar aquela situação e nós também percebemos no filme que a mãe dela morreu; daquela forma estranha porque aconteceu durante o Covid e as pessoas que estavam nos hospitais, não podiam ser visitadas. O sentimento de não se poderem despedir dos familiares é uma coisa horrível.
CM: Isso é verdade. Gostaria agora de falar sobre a senhora idosa que ficou cega. Há esta cena onde eu fiquei de coração apertado, em que ela se deita na floresta, no local onde o fogo começou e ela começa a gritar de dor. Neste momento, o que é que representa para si ou para o filme? É um lugar onde as palavras já não bastam?
Teresa Villaverde: Sim, ela vai para ali depois do pai da Justa lhe ter lido uma carta da filha que a chocou porque leu palavras que não queria ler um dia. Eu acho que ela talvez saia de casa, a tentar encontrar alguma coisa no sítio onde perdeu tudo. Este lugar representa como disse : o lugar onde as palavras não bastam.
CM: E foi neste momento em que o jovem adolescente salva-lhe a vida quando ela estava prestes a deixar-se morrer de frio. O que representa este jovem para si? Um instinto de sobrevivência ou uma esperança da nova geração?
Teresa Villaverde: Eu acho que esse jovem ficou muito alterado com o que aconteceu, não conseguimos perceber bem se ele já teria um pouco dessas características antes de tudo isto, não percebemos. O que eu acho bonito nessa relação é que ele e a senhora idosa, no início não tinham nada, não tinham relação nenhuma. Estes vão-se ajudando um ao outro e eu acho que isso também é uma parte do filme que é importante, pois mostra a solidariedade entre aquelas pessoas que têm todas uma coisa em comum. Mesmo não sendo uma coisa positiva, ao menos há muita ajuda entre elas e todo ao longo do filme podemos ver isso.
CM: Entre todos os sobreviventes, que são todos diferentes, há algum com o qual se identifica mais e porquê?
Teresa Villaverde: Talvez com a psicóloga que vem de fora, porque não vivi isso.
CM: Um dos momentos mais duros do filme para mim é a rejeição da senhora idosa pela sua própria filha. Ela culpa a mãe por não ter salvado o marido e queria perceber o que é que queria mostrar com essa cena?
Teresa Villaverde: Há várias formas de reagir que todos temos, em relação ao luto. Quando perdemos pessoas, nem toda a gente reage da mesma maneira, mas eu, curiosamente, quando escrevi, não tinha nenhuma história das pessoas que conheci parecida com essa. Agora que tenho andado a mostrar o filme em Portugal, em várias cidades e pequenas terras, apercebi-me que há muitas pessoas que têm alguma ligação ao filme. Por exemplo, pessoas ligadas à ecologia, psiquiátricas, psicólogos…
Fiz uma sessão em Coimbra só com psicólogas e psiquiatras e, curiosamente, sem eu perguntar nada, elas disseram-me que aquilo era muito comum. Também me disseram que ainda seguem a terapia hoje em dia, com as pessoas que viveram essa tragédia. Isso impressionou-me bastante, porque na altura, as pessoas diziam que não precisavam de ajuda psicológica e que agora, depois destes anos todos passados, estão a ir pedir.
CM : É verdade, porque as pessoas que estão em luto, é difícil viver com isso no dia à dia, pois o sofrimento é mais intenso. E, portanto, hoje, em 2026, alguns anos após os terríveis incêndios de Pedrógão Grande, espera que este filme ajude a libertar a palavra ou a apaziguar alguns fantasmas para aqueles que ficaram? Sobretudo fazendo uma ligação com os fogos que temos todos os anos.
Teresa Villaverde: Sim, eu acho que é um bocadinho de tudo. O que tenho sentido na reação das pessoas é que, sendo um filme duro, eu sinto que é agregador, porque as pessoas que mesmo vindo de outras zonas, que não passaram por nada disto, acho que sentem-se mais perto umas das outras.
Há uma coisa que é rara quando mostramos um filme, há sempre pessoas que saem. E neste filme as pessoas não saem e ficam a ver. Depois da projeção, os debates são muito longos e as pessoas ficam conversando. E isso é uma coisa que eu nunca tinha vivido, adorei ter as opiniões do público, porque era isso que eu queria com o meu filme : fazer com que as pessoas se abram a outros temas e de poderem falar sobre outras coisas.
CM: Se tivesse de definir este filme numas só palavras, quais seriam?
Teresa Villaverde: Diria que é um filme sobre todos nós, sobre os nossos sentimentos. Sempre que nós falamos dos sentimentos humanos, estamos a falar de nós todos. Com o meu filme, falei da condição humana e de todos nós.
CM: Perfeito, muito obrigada Teresa, foi um prazer!
Teresa Villaverde: Prazer partilhado, muito obrigada!
JUSTA saiu nas salas de cinema francesas dia 25 de fevereiro, não se esqueça de comprar bilhetes para ver o filme realizado por Teresa Villaverde!
Entrevista realizada pela Clarisse Bernardino,
de Tempestade 2.1.
Publié le 03/03/2026.




