Escritor cabo-verdiano Germano Almeida recebe Prémio Camões 2018
23 mai 2018
10ª edição dos Gay Games em Paris com delegação portuguesa
27 mai 2018

Caetano Veloso, da música ao ativismo

A poucas semanas da passagem por França da tournée “Ofertório”[1], Caetano Veloso, ícone da música e da cultura brasileira, ofereceu uma grande entrevista à Cap Magellan e conversou sobre música, família, ativismo, Maio 68, Marielle Franco e a atual situação política do Brasil.

 

 

 

Cap Magellan: Esta tournée de concertos com os seus filhos, Moreno, Zeca e Tom tem o nome de Ofertório, o mesmo da canção que escreveu em 1997 para os 90 anos da sua mãe, Dona Canô. Nessa canção falava dos “que já chorei e os que ainda estão por vir”. Como articula em palco esta herança musical, a que recebeu e a que transmite?

Caetano Veloso: Minha mãe era uma mulher típica do Recôncavo Baiano. Ainda assim, mesmo em Santo Amaro, era especial. Pôde ser alegre até os 105 anos, quando morreu. O canto do Ofertório que escrevi para a missa dos seus 90 anos tem na letra palavras que eram como que ditas por ela. O motivo estético que atravessa nosso show é a atmosfera da minha família, de que minha mãe era o centro. Perto dos meus filhos no palco, quis repetir as palavras que escrevi como se fossem ditas por minha mãe. Isso liga tudo: a posição de meu pai como guia, meu encontro com as duas mulheres que me deram Moreno, Zeca e Tom – uma de Salvador e outra do Rio, a retomada da religiosidade pela nova geração, a minha tendo sido a que rejeitou a religião. Gosto de ver esses conteúdos expressos por meus filhos, também tornados músicos, de um modo que leve luz a quem nos assista.

 

CM: No início pensou cantar com os seus filhos e com outros músicos em palco, mas acabou por escolher serem só os quatro. Porquê esta escolha?

CV: Quando nos reunimos para tocar e definir repertório, vimos que estava bom só nós mesmos tocando. Moreno toca violão, percussão e violoncelo, além de ser capaz de pegar o baixo se for preciso. Tom toca violão e baixo: já atua numa banda de rock, a Dônica, com um grupo de garotos superdotados musicalmente. Zeca, que tinha tocado música eletrônica na adolescência, se sentia inseguro para tocar violão ou baixo mas tocava teclado com alguma facilidade. Daí, com determinação, começou a tomar aulas de baixo e no fim das contas toca esse instrumento na maioria dos números. O que nós descobrimos é que resultava algo mais bonito, uma música que soa como nós, com um timbre de família e com uma leveza de convivência mais pessoal do que profissional.

 

CM: E como é que se passa todo este processo de criação de um espetáculo, as repetições e os concertos entre um pai e os seus filhos? O Patriarca é que manda ou é “governação participativa”, horizontal?

CV: Eu mando muito pouco. Ouço mais do que falo. Eles têm exigências técnicas que eu preciso acatar e que só dispenso se tiver argumento forte. Mas, tudo somado, a governança é mais participativa. Horizontal.

 

CM: Já fez concertos um pouco por todo o mundo e França é um país ao qual vem com alguma regularidade. Já chegou a cantar em palco parisienses uma versão do “Tu t’ laisse aller” de Charles Aznavour e o “Dans mon île” de Henri Salvador. Que relação tem com França, com a sua música e com o público francês? 

CV: Sempre que vou a Paris, gosto muito. Não só de tudo o que foi importante na cultura francesa para minha formação e pela beleza única da cidade, mas também pela relação com as plateias que têm se formado para assistir ao que eu apresento. Quando estive aí com Gil, foi maravilhoso. Me lembro de ter cantado “Dans mons île” várias vezes e “Tu t’ laisse aller” (canção de letra extraordinária), que cantei na Cité de La Musique em homenagem ao “Une femme est une femme” de Godard (que cena extraordinária aquela naquele filme!), voltei a cantar (não tão bem) num show em espaço grande. Nos anos 1970 e 80 as plateias parisienses de meus shows eram quase exclusivamente compostas de brasileiros residentes. Mais recentemente vejo um crescente número de franceses. Acho que com o Gil isso foi mais notável por causa do prestígio dele na França. Mas mesmo meus shows solo vêm tendo maior público gaulês. Gosto dos dois tipos de formação de plateia. Se há dois ou três franceses que entendem de um jeito que só eles podem a presença de uma canção de Salvador, Brel ou Aznavour entre minhas coisas do Brasil – ou sentem a presença de Godard, Sartre, Simone, Lévi-Strauss, Montaigne e Stendhal – na estrutura da mente brasileira, melhor.

 

 

CM: Muitos artistas afirmam não querer ser militantes, nem defender uma causa, distinguindo de forma estanque a arte do ativismo. O Caetano Veloso para além da sua autoridade musical também usufrui de uma autoridade moral e intelectual. É corrente ouvir-se “Caetano Veloso disse…”, nomeadamente agora com as redes sociais, que também utiliza. Como concilia estas duas facetas? Considera-se um “artivista”?

CV: Nem tanto. Entendo o artista que se nega a falar sobre coisas a que não se dedicam (até pela economia de tempo e energia: se gasto horas discutindo política, estudando economia, argumentando sobre tendências críticas da arte, deixo de treinar minhas mãos ao violão). Mas, além de não ser um músico muito adestrado, sempre me interessei por temas gerais e nunca me neguei a declarar em quem voto e, se for o caso, a explicar por quê. Passei a juventude sob uma ditadura militar abominável. Fui preso e exilado. Tenho sonhos e projetos para o Brasil. Não tenho capacidade de atuar como um militante, mas não me nego a seguir discussões, apoiar causas, complexificar outras.

 

CM: Foi um dos iniciadores do Tropicalismo na mesma época em que se vivia Maio 68 em França e chegou a utilizar, nesse mesmo ano, o slogan emblemático dessa revolta popular francesa « Il est interdit d’interdire !» numa das suas canções, « É proibido proibir ». Cinquenta anos depois, que balanço faz desses movimentos sociais e culturais?

CV: Para ser sincero, o tropicalismo se formou em 1966 e tronou-se escandalosamente público no Brasil em 1967. Tínhamos a necessidade de responder com alguma violência poética à violência cotidiana que a ditadura representava. Passamos a nos sentir atraídos pela estética do neo-rock’n’roll inglês, pelas imitações nacionais do pop-rock americano, pelos filmes de Godard, pela luta dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, por aspetos do movimento hippie, pela contracultura. O Maio francês nos pareceu uma chegada da juventude estudantil francesa a esse repertório de interesses. E de fato isso se deu de modo bem francês: com estudantes e intelectuais de peso discutindo, com um sonho de realizar algo novo dentro do esquema marxista, os estudantes buscando união com os sindicatos e grupos de trabalhadores. Eu vi aquilo tudo como parte de uma onda mundial, na qual nós os tropicalistas estávamos imersos. Curiosamente foi meu empresário, Guilherme Araújo, quem me convenceu a escrever uma canção com o slogan “É proibido proibir”, que ele tinha visto numa reportagem de revista brasileira e o tinha apaixonado. Escrevi a canção para satisfazê-lo, mas a engavetei. Quando chegou o convite para um festival de TV em que canções inéditas concorriam – havia ao menos dois festivais desse tipo concorrendo pela audiência no Brasil – eu me decidi por não participar (já o tinha feito, um ano antes, com “Alegria, Alegria”, a canção inaugural do tropicalismo). Como meu empresário insistisse, eu disse que então entraria com a engavetada “É proibido proibir” – mas que faria da apresentação um happening. “Alegria, alegria” tinha sido um escândalo por ter sido apresentada com uma banda de rock (aliás, argentina): com “É proibido proibir”, preparei com Os Mutantes e o maestro Rogério Duprat – e também com a figurinista Regina Boni – uma apresentação radical. Vestido de plástico verde e preto, colares indígenas misturados a fios elétricos com tomadas, cabelos longos encaracolados, eu entrava, depois de longa introdução psicodélica semi-atonal, com a canção simplória, movendo meus quadris para a frente e para trás. O público vaiou. O júri classificou a canção, as vaias aumentaram e eu fiz um discurso inflamado de que há gravações de áudio, embora todos os vídeos se perderam.

 

CM: As notícias que nos chegam à Europa sobre a situação política do Brasil são inquietantes. O assassinato de Marielle Franco teve grande impacto na consciencialização do que se passa no seu país. Ora, num texto inédito da edição comemorativa de « Verdade Tropical », publicado o ano passado, citou Pessoa “Nós nos extraviamos a tal ponto que devemos estar no bom caminho”. Ainda está otimista, ou é no fundo um otimismo metodológico que permite, simplesmente, não baixar os braços e continuar a lutar?

CV: Muitas vezes é metodológico. Mas frequentemente é vivenciado. Tal como se apresenta a situação no Brasil (e no mundo!) agora, o humor pode mudar mais de uma vez por dia. O assassinato de Marielle exibiu que os que creem na lealdade tipo máfia não querem admitir que a responsabilidade cidadã possa ser mais forte que ela. Marielle era uma importante novidade política, mulher jovem, negra, oriunda das favelas, lésbica, bonita e tinha-se tornado uma vereadora com grande votação no município do Rio de Janeiro. Para nós que chegámos a conhecê-la foi um golpe terrível a notícia da sua execução. Temos, no entanto, de reconhecer que os mandantes dos seus assassinos sentem-se à beira do desespero. A polarização entre direita e esquerda no Brasil ruiu por algumas semanas (e nunca mais voltará a ser a mesma) por causa do assassinato de Marielle. A sociedade como um todo reagiu ao que se passou e as autoridades se sentem premidas a realmente identificar e punir os culpados. O fato é que o movimento que levou ao impeachment de Dilma colocou um grupo de corruptos da mais baixa espécie no poder central. O chamado “mercado” dá mostras, via imprensa, de alívio pela saída do PT 2.0 (o 1.0 foi o do primeiro governo Lula, alinhado com o centro), mas não há recuperação real da economia e a população não sente melhora em nenhum nível. Lula preso é um trauma para grande parte do povo pobre que melhorou de vida com seus programas de redistribuição compensatória. Há ondas de extremismo de direita e o candidato que vem em segundo lugar nas pesquisas não está preso, mas enaltece nominalmente os torturadores da ditadura. No entanto, volta e meia me vejo reconhecendo que a maturidade atingida pela sociedade que elegeu Fernando Henrique e, em seguida, Lula, não pode ser destruída assim aos meros berros.

 

[1] Dia 5 de Julho, às 21h, no Théâtre Romains de Fourvière em Lyon e dia 7 de Julho, às 20h30, na sala Grand Rex em Paris.

Luísa Semedo