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Katia Guerreiro fala do seu novo álbum

Como foi escolhido o titulo do álbum ?

Katia Guerreiro : O título do álbum foi o mais difícil de encontrar. Este álbum já estava preparado com cerca de 40 temas, e foi fruto de muito trabalho escolher os temas que o iam compor. No fim de termos todos os temas escolhidos, com João Mário Branco, notámos que havia um ambiente que sugeria algo, mas não conseguíamos identificar o quê.

Um dia, ao fazer a barba, João Mário Branco liga-me e diz-me que, de todos os temas, há um fado que resumia tudo e até este ambiente. E este era o fado “Sempre”. Este fado resumia meus sentimentos, a alma que eu transmitia neste disco mas também o meu fado. E daí, o título “Sempre” apareceu-nos como uma evidência.

 

Quais foram as dificuldades na realização deste álbum ?

Katia Guerreiro : A grande dificuldade foi convencer-me da iniciativa. Sou uma pessoa que, embora não se note tanto, tem um lado muito descontraído, muito divertido; enquanto que João Mário Branco é uma pessoa muito firme. Ao mesmo tempo, nascia a ideia do novo álbum e apareceu o dilema: “Quem será o produtor ?”. Falei disso com o meu melhor amigo, e ele disse-me de tentar na mesma: foi ele que me incentivou e que me convenceu a ligar ao João Mário Branco. Eu já tinha trabalhado com o João Mário Branco no filme “Alfama em si” que ainda não estreou (filme com gravações ao vivo, o que é raro porque na maior parte do tempo são gravações em estúdio, e aí são só gravações ao vivo) cuja a direção musical foi encarada por João Mário Branco, e nisso, foi também a forma como ele me dirigiu que me convenceu.

Liguei-lhe a pedir-lhe e ele disse-me logo “Mas eu sou insuportável!” e eu respondi-lhe que não tinha medo. Ele aceitou a proposta, e uma das nossas primeiras dúvidas foi “O que cada um entende sobre o fado ?” (emoções, valores,…). Após uma longa conversa, chegámos exatamente às mesmas conclusões e a um acordo.

João Mário Branco não sabia bem como me podia ajudar no meu álbum, mas apercebemo-nos rapidamente que éramos complementares e nasceu uma certa espontaneidade entre nós, também com a ajuda de Manuela de Freitas. João Mário Branco até disse numa entrevista que “além do fado e da experiência, ganhei uma nova filha neste álbum”. Com este disco, há uma certa simplicidade com complexidade, tudo tem mistério e resulta de um caminho espiritual, onde no fim se encontra a verdade.

 

A sua carreira de fadista levou-a a numerosas nomeações e prémios, alguma vez pensou em ter tanto reconhecimento ?

Katia Guerreiro : Não. Tudo foi muito surpreendente, eu não contava com uma carreira! Acho que isto foi o segredo que fez com que ganhasse tanto êxito: fazer tudo de uma forma pouco ambiciosa. Desta forma, sempre consegui partilhar as minhas emoções por inteiro, ser autêntica. No momento de cantar fado, nós paramos e sentimos profundamente, totalmente as emoções, e estas são-nos transmitidas. Nos momentos em que toda a gente está a partilhar, numa comunhão de emoções, somos todos iguais. Há uma apuração de sentimentos e de emoções. É no palco que eu encontro a minha essência.

 

Expressa uma comunhão e uma proximidade com o público em palco, são estes mesmos sentimentos que partilha numa Casa de Fado ?

Katia Guerreiro : A distância é completamente diferente. Em palco, não vemos o público enquanto que na Casa de Fado sentimos uma proximidade, o calor do público. Cada vez que canto, canto com os olhos fechados, e consigo captar toda a energia do meu público. Cada vez que posso, canto em Casas de Fado particulares, para voltar a sentir o calor, ver a expressão do meu público, e depois, volto para o palco, cheia desta energia.

 

Qual é seu sentimento ao olhar para todo o seu percurso ?

Katia Guerreiro : A descoberta de uma vocação para o Fado foi para mim tardia, aos 22/23 anos. Aos 23 anos, comecei a cantar. Depois, quando já tinha lançado o meu primeiro disco e recebido prémios, decidi aproveitar a oportunidade e apercebi-me que tinha a oportunidade de ter lugar no mundo, então abri-me a ele. O Fado permitiu-me ter uma maior autenticidade no meu cantar e um maior reconhecimento. Foi uma verdadeira cura para mim, pois com o Fado, pude exprimir os 23 anos da minha vida durante os quais eu era um pouco fechada, e me expressava pouco. Além disso, como eu não tinha ambição de ser famosa, deixava as coisas correr, aproveitando oportunidades.

Quando festejei os meus dez anos de carreira, olhei para o meu percurso: “Caramba, já fiz algumas coisas importantes no Mundo!”

Acho que o mais importante no meu percurso é que a fama nunca me mudou, nunca mudou a minha alma, nunca tive tiques de estrela, nem vaidade. Pessoas que me conhecem desde de pequena confortam-me no facto de nunca ter notado diferença entre eu antes e eu depois de ser famosa.

 

Como é ser embaixatriz da cultura portuguesa pelo mundo fora ?

Katia Guerreiro : Há um imenso sentimento de responsabilidade. Cada vez que subo em palco, carrego a cultura de um país inteiro, a sua poesia, a história de um povo, o seu estilo musical e também a sua língua.

 

Há uma diferença entre cantar para estrangeiros e cantar para lusófonos ?

Katia Guerreiro: Quando canto para estrangeiros, tenho de ser ainda mais verdadeira, porque não percebendo as palavras, tenho de transmitir tudo por via de emoções ou de entoações de voz. Por vezes, esses concertos são muito mais intensos.

 

Nos dias 26 e 27 de janeiro, a associação Cap Magellan organiza a 2ª edição dos Estados Gerais da Lusodescendência com o lema “promover a língua portuguesa”. O que acha desta iniciativa ?

 

Katia Guerreiro : Extraordinário. Tenho uma certa emoção quando sei que há cada vez mais pessoas a aprender o português, sobretudo na Ásia e devido ao Fado!

Hoje, Portugal está na moda, há muitos turistas que vão para lá. A língua e a literatura portuguesa têm de ser cada vez mais promovidas.

 

O que acha da nova geração de fadistas como Gisela João ou Duarte ?

Katia Guerreiro: O fado está muito bem entregue. Há muitos cantores a cantar fado e muitos que também cantam músicas ao redor do Fado. Respeito quem respeita tradição do Fado, não gosto quando tentam tornar o Fado algo de mais pop, utilizando instrumentos que não são tradicionalmente do Fado (como a bateria), acho que estes instrumentos não transmitem tanta emoção como os do Fado tradicional. Fado está ligado com intimismo e com intensidade.

A Gisela é extraordinária, canta fados tradicionais mas tem também um lado pop, sobretudo no seu estilo, mas quando canta, há uma profundidade, uma emoção, ela desfaz-se toda ao cantar e exprime muita emoção. O Duarte também tem um estilo clássico, e é compositor de alguns dos seus temas. O Fado não vai morrer.

 

Quais são seus novos projetos ?

Katia Guerreiro : Este disco vem de ser lançado, por isso ele ainda tem muito caminho pela frente. Já tenho muitas datas de concertos e de promoção para este disco. Porém, já tenho novas ideias de discos, novos autores e compositores: quando se acaba um disco, ferve-se de ideias para outro!

É uma vida muito viciante, e algum dia quando o projetor se apagar, quando a minha carreira acabar, tenho medo de me dar conta que afinal, isto tudo não foi tão importante. É este sentimento que tentei partilhar no meu fado “Fora de Cena”, escrito por Manuela de Freitas. É um fado autobiográfico que ela me pediu de cantar, e penso que este transmite bem o sentimento que se tem quando algum dia, tudo acaba.

 

Jenny Carneiro

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