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29 juin 2026Depois de Verão Danado, o realizador português Pedro Cabeleira está de regresso ao cinema com a sua segunda longa-metragem Entroncamento, uma coprodução franco-portuguesa que estreia dia 1 de julho nas salas francesas. Tendo a sua cidade natal como cenário e personagem principal, o filme mergulha na realidade de uma juventude marcada pela precariedade, pelo tráfico e pelas lógicas do capitalismo, mas surpreende ao colocar uma heroína no centro de um universo masculino.
Estivemos à conversa com o realizador para perceber como nasceu este projeto, o olhar feminista que carrega e a urgência de fazer do cinema uma experiência sensorial.
Cap Magellan: Como surgiu a ideia de escrever Entroncamento e por que razão fazia tanto questão de filmar na sua cidade natal?
Pedro Cabeleira: Eu sou do Entroncamento. A ideia surge quando eu vou fazer um videoclip para um amigo meu e o entusiasmo de filmar nas ruas onde eu tinha crescido, de filmar com aquelas pessoas, de contar uma história que eu senti que tinha de contar a minha. Esses foram os pontos de partida principais e isso tudo está relacionado com o facto de que tudo se passa no Entroncamento.
CM: No filme, a cidade tem uma atmosfera muito pesada. Imaginou o Entroncamento como uma personagem?
Pedro Cabeleira: Sim, a minha intenção era que a cidade fosse a personagem principal do filme. O filme só é possível com a cidade e o filme é um retrato da cidade.
Obviamente que o filme também é feito graças às pessoas que as compõem. Mas sempre achei que as cidades são organismos vivos e são as pessoas que a transformam. Então, daí o filme se foca sobre a sensação de habitar naquela cidade, principalmente quando se está muito naquela bolha, uma bolha de ausência de expectativas, em que as pessoas têm que recorrer à criminalidade, aos pequenos delitos e quando estão nessa bolha da marginalidade, as coisas acabam por ser um bocadinho mais tensas e pesadas. A cidade é perspectivada de uma maneira diferente, mas não deixa de ser fiel a uma sensação que eu também tenho àquela cidade, de certa maneira.
É uma cidade com que tenho uma relação um bocadinho de amor-ódio. Há coisas que eu gosto muito, ter crescido lá, etc. Mas também houve uma fase da minha vida em que eu quis sair de lá. A minha intenção com o meu filme era de mostrar que um sítio pode ser opressor.
CM: Entroncamento é a sua segunda longa-metragem e é um drama social português, saiu também em França e vai sair daqui a nada nas salas. Como é que este filme foi recebido em Portugal?
Pedro Cabeleira: Em Portugal foi, na verdade, o sítio onde o filme foi melhor acolhido. Até agora, é o segundo filme português mais visto este ano em Portugal. Eu sinto que há uma identificação com o filme, principalmente para as pessoas que vivem nos subúrbios, que olham para estes personagens e se identificam com elas. Vêm estes conflitos e estes conflitos, às vezes, também são os seus conflitos, as suas lutas diárias.
Eu sinto que o filme correu muito bem por causa disso e também porque eu acho que as pessoas também estão curiosas para saber o que é que se passa naquela cidade. Uma cidade que, neste momento, acabou por ficar conhecida no país por causa de uma situação específica, quando houve os resultados das últimas eleições autárquicas e acho que também houve uma curiosidade das pessoas tentarem perceber o que é que se passa nesta cidade. Tentei fazer com que o filme possa dar umas leituras sobre o contexto político ou social da cidade, mas, sobretudo, eu sinto que o mais importante é realmente dar um lugar de identificação e de tratar as coisas com uma certa autenticidade para evitar as pessoas olharem para o filme e verem-se elas próprias.
CM: Falando das personagens, porquê a escolha final de centrar este filme de gangsters em torno de uma heroína?
Pedro Cabeleira: Tem a ver com todo o universo muito masculino e eu sinto que, se realmente eu estivesse só na efabulação e na glorificação das personagens masculinas, daria uma visão deturpada. Quiz mostrar um olhar repressivo. Na verdade, eu nunca fui gangster, nunca fiz muito parte daquele mundo e eu precisava de um olhar de fora e a Laura traz precisamente esse olhar. O olhar dela permite desconstruir certos códigos e permite mostrar a afirmação e masculinidade tóxica. Eu acho que a Laura permite tratar as coisas de uma forma mais complexa, permite olhar para as coisas de uma forma mais ampla e a Laura traz um olhar mais fresco ao filme.
CM: Como é que ela consegue impor as suas próprias regras, nesse meio criminoso?
Pedro Cabeleira: Ela é uma mulher e não é reconhecida. Aquela malta vai tratá-la com muita condescendência. O fato de ela ser tratada com tanto paternalismo abre brechas, porque eles relaxam e facilitam.
Estamos a falar de alguém que vem com muito mais carga do que eles, porque ela vem de um sítio que tem dinâmicas muito mais complexas, mais pesadas, mais difíceis, que é o bairro do Cerco. Então, quando lá chega, ela já conhece aquele mundo todo que traz para a frente. Para ela é muito fácil conseguir integrar-se e perceber que espaço é que pode dar para depois, ao fim, conseguir dar a volta e as voltas que ela quer dar.
Eu sinto que, sobretudo, tem muito a ver com o facto de ela ser tratada com condescendência por ser mulher. Não é vista de igual para igual, se fosse um homem a vir do bairro do Cerco, eles todos iriam tratá-lo com muito mais respeito. O fato de ela ser uma mulher faz com que eles todos não a vejam como uma ameaça ou uma competição.
CM: O que mais me marcou neste filme é o papel das mulheres. Considera este filme como profundamente feminista?
Pedro Cabeleira: Eu espero que o filme possa também ter esse lado e ser olhado dessa maneira. Não sinto que haja uma intenção hiperpolítica ou politizada atrás do filme, mas eu sinto que o filme também tenta ter um olhar mais justo sobre aqueles personagens. O filme dá voz e espaço àquelas mulheres, para se poderem revoltar e se vingarem de um peso qualquer que trazem.
No caso da Laura, ela teria sido violentada antes de chegar àquela cidade e ela vai poder vingar-se dessa ideia de violência e da opressão masculina. Eu acho que o filme abre espaço para isso e tem essa intenção de elas poderem vingar-se. Também, por tentar desconstruir esta masculinidade toda, talvez o filme acaba por ser feminista nesse sentido. Fico contente que o filme também o seja. Embora não queira dar aqui uma coisa muito ofertária, a dizer que o filme seja apenas feminista.
CM: Também fala do tráfico de droga. É o ponto comum entre todas as personagens. Que olhar tem sobre a realidade deste tráfico hoje em dia?
Pedro Cabeleira: Primeiro, está ligado a uma ideia de precariedade, à falta de perspectivas e as pessoas acabam por regar ao tráfico. Há também a ideia de capitalismo selvagem que imprime nas pessoas uns determinados objetivos. As pessoas hoje em dia podem ser patrões e podem enriquecer. Quando estão numa cidade, o que acontece é que lhes é passado desde miúdos que existe este sonho de que vocês podem enriquecer para comprarem coisas e para terem poder. O objetivo, do ponto de vista cultural, da nossa sociedade ocidentalizada, é que as pessoas devem enriquecer. O que acontece numa cidade, no caso do Entrocamento em particular, é que as pessoas que levam esse objetivo demasiado a peito, acabam por entender que não é assim tão fácil enriquecer, como é óbvio.
No caso do filme, o tráfico de drogas representa duas coisas. Uma parcela das pessoas são marginalizadas e estão excluídas pelo resto da sociedade e cujas ofertas de trabalho estão completamente inexistentes. A outra parcela de pessoas se compromete a trabalhar, como a Nádia e a Laura, cujos trabalhos são mal pagos e duros, como na recolha do lixo ou trabalhar em armazéns de supermercado. Essas pessoas têm que recorrer às vezes ao tráfico por uma questão de sobrevivência ou de subsistência, porque não conseguem encontrar, estão marginalizadas e vão recorrer ao mundo do crime para ambicionar aquilo que o capitalismo lhes vende.
CM: Sendo uma coprodução franco-portuguesa, de que forma acha que este retrato da juventude marginalizada vai ecoar junto do público francês?
Pedro Cabeleira: Espero que o público se identifique e perceba que a realidade do Entroncamento não é assim tão diferente de outros lugares. Embora a França tenha as suas próprias dinâmicas, há muito em comum com Portugal. Mais do que isso, gostava que este filme fosse uma janela para a Europa, mostrando o que nos une e o que nos distingue. O cinema tem a magia de nos fazer viajar e conhecer novas culturas sem sairmos do sítio e por apenas 10 ou 15 euros. É uma verdadeira experiência de sensações e emoções que espero ver partilhada pelo público francês.
CM: Denuncia o capitalismo no filme e todos os preconceitos à volta disso. Acha indispensável que um filme se comprometa e tome partido sobre estes temas sociais?
Pedro Cabeleira: No fundo, são reflexões a posteriori. Quando penso num filme, não procuro fazer uma exposição do capitalismo, procuro, acima de tudo, emoções, sensações e uma verdadeira experiência de cinema. Foi isso que me apaixonou nos filmes. Só depois vêm as camadas da história e das personagens. Ao pesquisar, percebi que as dinâmicas capitalistas de opressão e hierarquia, surgem à flor da pele no tráfico de droga, onde a violência é mais física, embora o mecanismo seja o mesmo. O filme reflete sobre essa competição e sobre uma cultura global, mas não é uma crítica direta ou focal como o cinema de Godard. É, antes de mais, uma experiência.
CM: Tem 34 anos hoje e disse que fechava o seu ciclo sobre a juventude portuguesa. Para que novos temas ou universos profissionais quer virar agora?
Pedro Cabeleira: Sim vou fechar o ciclo sobre a juventude portuguesa, mas haverá muitos temas no futuro. Vamos ver o que é que vai aparecer a seguir.
CM: Há futuros projetos ou filmes?
Pedro Cabeleira: Sim, há muitas ideias, mas enquanto não tiver dinheiro para acontecer, elas são só ideias.
CM: Para concluir, o que é que gostava que o público sinta ou leve consigo ao ver Entroncamento?
Pedro Cabeleira: Quando era miúdo, o primeiro filme que me marcou a sério foi O Senhor dos Anéis. Lembro-me perfeitamente de ver aquelas paisagens, as personagens e a música e de ficar a respirar fundo, cheio de pele de galinha. Essa é a sensação que tento sempre replicar no meu cinema: um encantamento que não se explica, mas que se sente no corpo. Não procuro apenas comover as pessoas, quero que elas se arrepiem e fiquem espantadas com o que estão a ver, mesmo que estejamos a falar de um universo mais opressivo ou desconfortável.
Para mim, essa é a verdadeira magia do cinema e a razão pela qual filmo. Sei que nem toda a gente vai sentir o mesmo, mas se conseguir que alguns jovens, numa sessão de cinema algures numa cidade pequena no meio de Portugal, se arrepiem e fiquem encantados por um momento… já valeu a pena.
CM: É assim que amo o cinema! Muito obrigada, Pedro.
Com Entroncamento, Pedro Cabeleira encerra o seu ciclo sobre a juventude portuguesa com um filme autêntico que dá voz às margens e desafia preconceitos. Mais do que uma crítica social, a obra cumpre a magia do cinema: fazer-nos viajar e ligar realidades diferentes através de uma experiência sensorial. Um filme imperdível que promete deixar no público francês e português aquele arrepio que só as grandes histórias conseguem provocar.
Entrevista realizada pela Clarisse Bernardino.
Publié le 30/06/2026




