
Gala de Remise de Prix 2026 : 35 ans à célébrer la lusophonie
2 octobre 2026A Cap Magellan conversou com Mário Silva, que colaborou com a Zest Eventos na concepção e na organização da ARTePORTO, Feira de Arte no Porto, que decorreu do 24 ao 27 de setembro de 2026, na Alfândega do Porto, assumindo também a coordenação do seu Comité de Selecção.
Cap Magellan: Como nasceu a ideia de criar a ARTePORTO e porquê neste momento?
Mário Silva: A ARTePORTO surge de um convite e de uma ideia do José Oliveira e da Zest, que procuravam talvez criar uma feira na área da arte e da cultura para integrar o portfólio de eventos que têm. A Zest é uma empresa que organiza múltiplos eventos em diferentes setores. Conheço-os já há alguns anos e tivemos uma primeira conversa sobre a possibilidade de criar uma feira no Porto. A partir daí, começámos a falar, a desenvolver ideias, a estruturar o projeto e, depois, de uma forma quase natural, aconteceu. Pensámos: vamos então avançar com isto e tentar fazer com que aconteça uma feira no Porto. É uma coisa que não acontece desde 1996, pelo menos na área da arte contemporânea, precisamente há 30 anos. Houve uma feira na Exponor, em Matosinhos, no Grande Porto e portanto, fazia sentido encontrar aqui uma forma de voltar a concretizar essa ideia. A forma que encontrámos para a concretizar passou também por esta ideia de a feira procurar ter uma entidade própria e de não se limitar à arte contemporânea, incluindo também arte moderna e antiguidades. Portanto, debaixo do mesmo edifício, mas neste momento em secções separadas, podem conviver essas diferentes galerias e os diferentes expositores. A partir daí, a ideia foi crescendo.
CM: O que distingue a ARTePORTO de outras feiras de arte realizadas em Portugal?
Mário Silva: Somos a única feira em Portugal que tem essa valência ou seja, que reúne no mesmo espaço arte contemporânea, arte moderna e antiguidades. Essa é, realmente, a grande diferença desta feira em relação às outras, para além, naturalmente, de se realizar no Porto. Em Lisboa existem várias feiras, tanto de antiguidades como de arte contemporânea. No Porto, temos agora a ARTePORTO, que junta precisamente esses dois universos no mesmo espaço, num espaço lindíssimo, que é a Alfândega do Porto.
CM: A feira acontece na Alfândega do Porto, um edifício com uma forte presença arquitetónica e patrimonial. Que importância teve a escolha deste local para o conceito da feira?
Mário Silva: Este espaço, além de ser um lugar emblemático e um edifício histórico da cidade, está também muitíssimo bem cuidado e preparado para a organização de eventos. Julgo que esta é ainda a primeira edição da feira, mas diria já que é, provavelmente, a feira mais bonita de Portugal. Isso tem muito a ver com a sua localização, mas também com o estado de conservação em que se encontra o edifício. Está em perfeitas condições e tenho a certeza de que as pessoas que ainda não conhecem o espaço vão ficar particularmente agradadas, não só com o próprio edifício, mas também com aquilo que ele traz à feira em termos de estética e de beleza, contribuindo para a própria conceção e apresentação dos stands.
CM: Como pensaram a relação entre estes diferentes segmentos (arte contemporânea, arte moderna, antiguidades e design) dentro da feira?
Mário Silva: Em primeiro lugar, obviamente, eu tenho uma galeria de arte contemporânea, a Mais Silva e a minha especialidade é precisamente a arte contemporânea, embora também colecione algumas antiguidades e arte moderna e trabalhe pontualmente com arte moderna. Para este projeto, assessorámo-nos de alguns colegas desses diferentes setores. Falámos e tivemos também várias reuniões com a APA, a Associação Portuguesa de Antiguidades. Vários associados da APA estão aqui presentes, inclusivamente membros da direção, com os seus stands e ajudaram-nos precisamente na escolha dos expositores. Abrimos candidaturas para os diferentes setores e depois, foi uma questão de escolher aqueles que não só se enquadravam melhor na feira, mas que também pudessem funcionar em diálogo uns com os outros, entre os diferentes stands. Até porque os stands não são herméticos, como acontece em muitas feiras. Com isto quero dizer que não são espaços completamente fechados, com uma frente e depois fechados atrás. Aqui, pelo contrário, existe uma maior abertura, que permite a circulação entre os diferentes stands. Às vezes, podemos quase, de uma forma muito natural, passar de uns para os outros e isso é também um convite às pessoas para se perderem no espaço. Acho que essa é uma das coisas mais interessantes que a feira oferece, pelo menos em termos de layout e de conceção do espaço.
CM: Sendo responsável pelo Comité de Seleção, que princípios procurou aplicar na construção deste conjunto de participantes?
Mário Silva: O princípio é sempre o da qualidade. No entanto, tivemos logo desde o início uma coisa que nos pareceu muito importante: permitir aos galeristas trazer os artistas que quisessem, na quantidade que quisessem. Isso também é uma coisa pouco habitual nas feiras. Nós confiamos nos nossos colegas e sabemos que eles, melhor do que ninguém, sabem montar um bom stand. Portanto, era importante dar-lhes essa flexibilidade, para que pudessem montar o stand da forma que entendem ser melhor. Isso pode também ajudar à própria comercialização das obras e fazer com que a feira funcione bem do ponto de vista financeiro. Eu acho que, em Portugal, falamos pouco de dinheiro e acho que devíamos falar mais de dinheiro. Devíamos falar mais sobre quanto custa um stand, quanto é que é preciso vender, qual é o meu preço médio. Todas estas questões são importantes quando se é galerista e quando se participa em feiras.
CM: Houve uma preocupação em garantir uma representação significativa de galerias e agentes do Norte de Portugal, ao mesmo tempo que se procura uma dimensão internacional?
Mário Silva: Não houve propriamente essa preocupação, mas acho que era natural que houvesse vários expositores e galerias do Porto, porque são essas que, na verdade, também têm que ajudar a sustentar a feira. São as galerias do Porto, os antiquários do Porto, e depois, claro, fizemos aqui também um piscar de olho à Galiza. Estamos muito perto de Vigo, Pontevedra e Santiago de Compostela, estamos a uma hora, hora e meia de carro. Portanto, é também um mercado importante para nós. Obviamente, o mercado de Lisboa também é importante, mas está muito mais saturado em termos de feiras, de galerias e de oferta. Há muitas mais opções. Por isso, a feira também tem que encontrar a sua identidade, o seu espaço. Essa identidade começa por ser a do Porto, por ter galerias do Porto e depois ir-se abrindo para fora. Não tenho, pelo menos nesta fase, a ambição de ser uma feira internacional. Tenho, sim, a ambição de ser uma feira com muita qualidade, mas uma feira nacional, ibérica, no máximo dos limites.
CM: Ao seu ver, quais são os visitantes que podem estar interessados pela feira?
Mário Silva: Eu acho que a feira tem isso de bom: é dos 9 aos 90. É para todas as pessoas que gostam efetivamente de arte contemporânea, moderna ou de antiguidades. Não é obrigatório comprar nada, podem perfeitamente visitar a feira e conhecer o que está aqui. Há um custo de entrada, são 10 euros na bilheteira, mas 9 euros se comprarem agora através do site da ARTePORTO. Obviamente, está toda a gente convidada a vir, a ver e a participar. Participar é também isso: vir visitar a feira, conhecer os expositores, falar connosco e fazer deste um momento de celebração. Porque, na verdade, é um momento histórico que estamos a viver.
CM: Quais são as suas expectativas concretas para esta primeira edição?
Mário Silva: Ainda antes de abrir, acho que todas as nossas expectativas já foram superadas. Digo isto porque a corrida aos bilhetes e aos convites tem sido imensa. Portanto, estamos à espera de uma grande afluência de público, muito superior àquilo que antecipávamos. Acho que isso é um sinal de que, realmente, isto tem futuro. Esta ideia tem futuro. Vamos, no entanto, manter-nos focados e humildes e aceitar que isto é ainda, não diria um primeiro ano, mas quase um ano zero. Ainda temos muito a aprender e muito a afinar, mas isto está a desenrolar-se melhor, talvez até, do que eu próprio antecipava. Aqui já falo como expositor e não tanto como consultor da Zest para o projeto ou tendo em conta as funções que tenho desempenhado junto da organização do evento.
CM: Já existe uma visão para a segunda edição?
Mário Silva: Posso-lhe dizer que já se alugou espaço, já se alugou mais espaço. A visão é que a feira cresça um pouco, mas não estamos obcecados com o crescimento. Estamos obcecados, isso sim, em que a feira seja boa, que tenha qualidade. Para isso, precisamos de cada vez melhores expositores, mas também de cada vez mais visitantes, mais colecionadores e mais pessoas a comprar. Não temos a ambição de ser uma feira grande, temos a ambição de ser uma feira boa, que seja também uma experiência agradável para quem a visita. Não só para quem está a fazer a feira, para quem nela participa como expositor, mas também para quem a visita.
CM: O seu percurso cruza arte, gestão, banca, galerias, colecionismo e agora a organização de uma feira. Que competências e aprendizagens dessas diferentes experiências sente que trouxe para a ARTePORTO e o que é que esta nova posição lhe está a ensinar?
Mário Silva: Acho que a grande beleza da vida são as surpresas que a vida nos traz. Lembro-me perfeitamente de que, em 2010, quando fui trabalhar para a banca, nunca pensei que fosse trabalhar nesse setor, principalmente na banca de investimento, onde estive três anos. São esses diferentes ensinamentos e esses diferentes percursos e, às vezes, esse andar para o lado, andar para trás, andar para a frente, que nos vão preparando para projetos com esta dimensão. Vem precisamente daí: de fazer esse percurso, de não virar a cara e de ir aceitando os diferentes projetos e as diferentes oportunidades que nos são apresentadas. Sinto-me, na verdade, muito bem preparado para aquilo que estou a fazer.
CM: Tem uma mensagem para os jovens lusodescendentes ?
Mário Silva: Em primeiro lugar, que regressem a Portugal, que acreditem que é possível. Não é fácil, todos sabemos os condicionantes que existem, mas continua a ser um país maravilhoso para se viver, não só para se visitar. Portanto, que regressem e que ajudem Portugal a se desenvolver.
Agradecemos Mário Silva pelas suas respostas. Para mais informações sobre o evento pode consultar o site da feira ARTePORTO. Podem também seguir a atualidade do evento no Instagram ou no LinkedIn.
Entrevista realizada pela Liliana Tavares Ribeiro
de Tempestade 2.1




