No 12 março 2025, a grande Ana Lua Caiano atuou o seu one-woman-show musical na Marbrerie em Montreuil. A Cap Magellan estava presente e obteve uma entrevista exclusiva.
Cap Magellan: Olá Ana Lua Caiano, espero que esteja tudo bem. Estamos na Marbrerie em Montreuil onde acabaste de dar um concerto espetacular! O que achaste do público hoje?
Ana Lua Caiano: O público estava mesmo super entusiasmado e para mim é super! Torna o meu trabalho muito mais fácil quando sinto a energia do público. Portanto foi super bom porque senti que houve uma grande troca.
CM: Há um ano publicaste o teu primeiro álbum, Vou ficar neste quadrado. Com esse álbum conseguiste chegar a um som e uma identidade de artista próprio. Conjugaste música tradicional portuguesa, mas também música electrónica. De onde vem este gosto pela música electrónica?
Ana Lua Caiano: Desde muito nova comecei a ouvir música tradicional e ligar muito a compositores como Zeca Afonso, Fausto. Depois quando comecei a ficar um pouco mais velha comecei a querer explorar outros tipos de músicas e gostei muito de ouvir Portishead, Kraftwerk, Björk. Comecei a ouvir coisas mais diferentes e a querer também explorar os sintetizadores e toda essa parte mais eletrónica. Depois da pandemia consegui juntar esses dois mundos.
CM: Tens uma maneira de usar a tua voz com múltiplas harmonias e intervalos interessantes. Seguiste alguma formação musical à parte das tuas influências?
Ana Lua Caiano: Sim, estudei música clássica. Fiz quinto grau, portanto tinha coro, piano, formação musical e depois também estudei durante uns anos jazz. Depois quis um bocadinho sair dessas áreas, procurar outros tipos de sonoridades mas claro que todo esse treino me ajudou a ser mais rápida ao fazer harmonias ou ser mais intuitivo quando estou a criar.
CM: Qual é o teu segredo para fazer este one-woman-show?
Ana Lua Caiano: O que aconteceu foi que antes da pandemia toquei com muitas bandas e tinha sempre muita vontade de compor e de tocar com muitas pessoas. Depois, quando veio a pandemia, não era possível. Durante imenso tempo não foi possível reunir, nem ter ensaios. Como eu continuava a ter esta necessidade de compor e de experimentar as canções, acabei por precisar de tocar sozinha. Depois acabei por me apaixonar por isso e gostar mesmo muito do desafio de procurar formas diferentes de passar uma música. “Como é que eu posso passar uma música? O que é que é o essencial? O que é que eu posso passar para a versão ao vivo?” Comecei a gostar muito disso, desse desafio. Depois, com algum treino, comecei a ser um pouco mais rápida a fazer as coisas e agora já é bastante mais fácil.
CM: Usas ritmos e percussões tradicionais portuguesas mas também usas o kick e as baixas da música eletrónica. Como é que as escolhas entre os dois no teu processo de composição?
Ana Lua Caiano: A mistura dos dois mundos é pouco intuitiva. Quando comecei a juntar estes dois mundos na pandemia, sinto que apareceram de forma bastante normal porque já tinha sintetizador, já tinha alguns instrumentos tradicionais. Quando comecei a gravar e a descobrir as DOS (é assim que se chama o sítio onde podemos gravar as vozes, os sintetizadores e tudo mais), comecei a juntar estas duas coisas, a gravar tudo o que eu tinha. Além disso, gravei outros tipos de sons. Portanto, não há bem um equilíbrio. Às vezes pode haver canções que são mais eletrónicas, outras mais tradicionais, mas tento seguir aquilo que a canção pede aquilo que eu estou a sentir.
CM: No teu álbum utilizaste também muitos sons da rua, do quotidiano, porquê?
Ana Lua Caiano: Como este projeto nasceu da pandemia, na altura tinha alguns instrumentos, mas não tinha muitas coisas. Como não podíamos sair de casa, tive que explorar os sons que estavam à minha volta. Rapidamente, expandiu-se para a rua, mas começou muito por esses sons das chaves, da cadeira, da porta, etc. Tentei encontrar um instrumento nos objetos que nos rodeiam.
CM: Nos teus textos falas do quotidiano, mas com lado surrealista. Podemos citar por exemplo a música Mais Alto do que o meu juízo, que fala do medo, da angústia. Qual é a história por trás desta letra?
Ana Lua Caiano: Nas minhas canções, a maior parte falam sobre temas do quotidiano, como disseste, e sobre a crise da habitação. Muitas vezes têm um sentido de pensamento sobre o que está a acontecer em diversas áreas. Essa canção, Mais Alto do que o meu juízo, começou por ser uma melodia, depois encontrei o refrão… A ideia era transmitir algum tipo de medo que a outra pessoa deixasse, mas que esse medo fosse transmitido… Tinha um objetivo que era usar palavras que se escrevem da mesma forma, dizem-se da mesma forma, mas significam coisas diferentes. Por exemplo: “Um medo que em cumprimentos já te perca, e em longos comprimentos tu ficas”. Era a ideia do cumprimento de distância e de cumprimentar. Tinha esta ideia de ver uma angústia, um medo e tentar transmiti-lo com essas palavras. Era também um exercício criativo no fundo.
CM: Além dos concertos, há uma parte muito importante da tua identidade musical: os videoclipes. Tu trabalhas com a tua irmã. Como é que encontram as inspirações dos videoclipes?
Ana Lua Caiano: Isso também vem do tempo da pandemia, porque houve uma altura em que nós fazíamos uma espécie de desafio, eu fazia uma canção, ela fazia um vídeo. A linguagem visual dela começou-se a juntar à minha música. Então, quando começámos a fazer coisas mais a sério, fez sentido que continuássemos com a colaboração. Agora com os videoclipes há uma equipa muito maior, têm mais pessoas também a pensar sobre os figurinos, sobre o cenário, sobre tudo.
Às vezes, ultimamente, tenho tentado largar o videoclipe, porque eu gosto que ela tenha uma ideia que vá para além daquela que eu tinha pensado para a música. Como fui eu que fiz as canções, estou muito presa a um determinado ponto de vista., então tento que ela tenha outro ponto de vista para os videoclipes, de uma certa forma, trazerem uma nova perspectiva da música. Claro que eu sou muito controladora, portanto estou sempre muito presente em todas as fases, mas gosto de deixar a ideia respirar um pouco e não estar em controle de tudo. Às vezes também surgem coisas que eu não estava à espera e que não tinha pensado. Portanto, gosto de fazer isso.
CM: Desde o ano passado, a tua carreira atingiu um novo marco. Recebeste um Globo de Ouro da Melhor Canção de 2024. Cantaste essa mesma música, Deixem o Morte Morrer, no Colors Show, também cantaste no Festival da Canção, entre outras coisas. Estavas à espera? Como é que vives esse momento de crescimento?
Ana Lua Caiano: Eu não estava à espera de nada disto. A maneira como faço as canções é de forma muito solitária. Todo o processo de compor, de produzir, a mixagem e a masterização já têm uma ajuda externa, mas existe um processo muito grande de trabalho sozinha. Então, fico sempre muito espantada pela reação que existe, porque acho que só nos concertos é que se tem a sensação que existem mesmo pessoas a ouvir. De resto, não se percebe bem pelas plataformas digitais. Portanto, fico super surpreendida e super contente também pelo Globo de Ouro e por poder ir ao Colors. Foram experiências muito boas! Apesar de realmente parecer muito rápido, sinto que fui vendo passos: comecei com concertos pequeninos, fui aumentando, etc. Parece que foi tudo acontecendo de forma natural!
CM: Daqui a dois dias em Rennes, vais tocar em colaboração, com o grupo asturiano Lofacil. Tens muita proximidade com grupos asturianos, ibéricos ou internacionais?
Ana Lua Caiano: Para já, agora que toco, a minha ideia é que no próximo álbum tenha mais colaborações. Aliás, tenha colaborações, porque até agora só tive uma com o Roxana, que é uma música portuguesa também. A minha ideia é tentar juntar-me a músicos de outros sítios e que também tenham, de certa forma, a identidade musical do país de onde são. Portanto, já estou a preparar algumas colaborações com músicos franceses e espanhóis. Para já não há nada fechado, mas a minha ideia é que o meu universo se cruze com o universo de outros músicos. Portanto, vamos ver. Estou ansiosa!
CM: O teu último álbum saiu no dia 15 de Março. Estás a preparar outro?
Ana Lua Caiano: Eu gosto muito de compor, portanto, logo que acabei este último álbum comecei a fazer canções novas e a produzir. Claro que, como estou em tour e estou a fazer mais concertos, é sempre mais difícil conciliar. Mas sim, já tenho algumas coisas prontas ou a caminho de estarem, mas ainda não tenho nenhuma data nem nenhuma certeza. Também quero fazer as coisas com calma. Quando estiver pronto, vai estar.
CM: Para acabar, a pergunta que faço no final de cada entrevista: tens uma mensagem para os jovens dos lusodescendentes?
Ana Lua Caiano: Acho que é bom continuarem ligados à cultura portuguesa. Disseram hoje que há aqui um grupo de feiras e achei isso super interessante! Sinto que há uns anos as pessoas tinham um bocadinho de vergonha, principalmente quando as pessoas emigraram por causa da guerra, havia muito medo de mostrar a identidade. Acho que é bom mostrar e ouvir música portuguesa e, quem sabe, fazer aqui grupos de feiras, de bombos e de cantos alentejanos. Também é bom trazer um bocadinho da cultura portuguesa para a França e, ao contrário, também a música francesa influenciar a música portuguesa.
CM: Obrigada Ana! Já queremos ver-te novamente na região parisiense!
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Entrevista realizada pela Julie Carvalho,
de Os Cadernos da Julie,
o Antonin André e a Laura Padrão,
do Tempestade 2.1.