
28è édition du Festival du Cinéma Brésilien de Paris
6 avril 2026A Cap Magellan falou mais uma vez com o jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos. Esteve em Paris no âmbito dapublicação em francês do seu último livro: Le Sixième Sens.
Cap Magellan: Bom dia, José Rodrigues dos Santos, é sempre um prazer estar consigo e hoje vamos falar do seu último livro, que é Le Sixième Sens, O Sexto Sentido na sua versão original, que vai ser publicado em França a partir de dia 9 de Abril. É o seu 16º livro traduzido em francês e o seu 27º livro. Qual foi a descoberta que desencadeou este livro? Aquele momento em que pensou, “pronto, já sei onde é que vai o Tomás desta vez”.
José Rodrigues dos Santos: Foi a minha filha mais nova que me sugeriu que eu tratasse sobre os psicodélicos, ao qual eu disse logo: “é pá, estás maluca, não vou, isso é droga, não vou tocar nisso”. Ela disse: “não, mas isso não é perigoso, eu vou contar o que as pessoas pensam e tal”. Depois, eu deixei-me convencer em ler sobre o tema, comecei a fazer um pouco de pesquisa e, em meio da pesquisa, de repente, percebi que havia matéria, de facto. Portanto, há um momento em que eu digo “sim, vou fazer este livro porque, de facto, é diferente daquilo que eu imaginava”. Portanto, escrevi o Sexto Sentido por causa disso.
CM: Quando li O Jardim dos Animais com Alma, senti que era um livro à parte na sua obra — onde o tema científico é o verdadeiro coração da narrativa, ao invés dos outros onde o thriller carrega a ciência. Alguns leitores adoraram, outros sentiram que era demasiado ensaio e pouco thriller. O Sexto Sentido tem a mesma coragem e a mesma vontade de dizer algo importante — mas acha que desta vez o equilíbrio entre os dois registos é mais acessível?
José Rodrigues dos Santos: Cada livro é diferente porque os temas são diferentes e os temas requerem uma certa forma de lidar. Por exemplo, no caso do Jardim dos Animais com o Alma é sobre a etologia, sobre a cognição dos animais, a inteligência, a linguagem, emoções, tudo isso. Depois eu procurei fazer um livro em que tivesse personagens que fossem animais, um chimpanzé, um papagaio e que eles fizessem coisas que os cientistas já os estivessem vistos a fazer. Isso é que era o interessante, era o desafio desse livro.
Neste caso é um pouco diferente. Este livro inscreve-se mais na tradição da Fórmula de Deus, no sentido que utilizam-se hoje os psicodélicos. Portanto, o que sabemos hoje sobre os psicodélicos é que os psicodélicos são menos tóxicos que o álcool e não criam dependências, com exceção da ketamina que cria dependência.
Pelo contrário, curam dependências. Ora, isso para mim era interessante. Depois eles dizem coisas verdadeiras sobre nós próprios. Há um exemplo interessante que pode ser dado, foi uma das experiências mais importantes que ocorreu num hospital psiquiátrico no Canadá, em que deram um psicodélico a 700 alcoólicos, uma única dose. Com uma única dose, 50% dessas pessoas pararam de beber álcool. Pura e simplesmente, curou a dependência. O que é interessante é como é que cura a dependência. Não há nenhum efeito físico. O que faz é que a pessoa toma a substância e começa a ter visões, que eles chamam de “trips” ou de alucinações. Só que as alucinações dizem-nos coisas verdadeiras. Neste caso, a pessoa começava a ver-se ele próprio a entrar dentro de casa, bêbado e a agredir a mulher, agredir os filhos, mas da perspectiva da mulher e dos filhos.. Ficava de tal modo aterrorizado pela forma como ele estava a destruir a família, que quando a visão parava, paravam com o álcool.
Depois, qual é a questão que para mim é interessante? É que, por exemplo, no tabaco é a mesma coisa. Há uma experiência feita com 15 pacientes que fumavam 19 cigarros por dia, ao longo de 30 anos, e com 3 sessões de psilocibina, que é uma das substâncias psicodélicas, 80% deixavam de fumar. E porquê é que deixavam de fumar? É a mesma coisa. Nessas visões eles viajavam para o seu próprio corpo e viam o que se estava a passar dentro dos seus pulmões. Alguns casos até descobriram que tinham cancro, coisa que não sabiam. As visões dizem-nos coisas verdadeiras sobre nós próprios. O que me interessou no tema foi, justamente, se as visões dadas pelos psicodélicos nos dizem coisas verdadeiras sobre nós próprios, e nós sabemos que são verdadeiras, alargar às coisas que os psicodélicos nos explicam sobre o universo e sobre a vida, sabem que também elas são verdadeiras. Foi isso que me interessou e foi por isso que eu escrevi o livro.
CM: A viagem aí é mais introspectiva dentro do Tomás. O que é que muda para si, enquanto escritor, quando a viagem é interior e não transcontinental?
José Rodrigues dos Santos: O que é importante aí é a viagem que o Tomás faz, já no final do romance. O romance, no entanto, integra várias viagens: começa em Lisboa, passa por Coimbra, depois segue para o México e, posteriormente, para o Nepal. Para além dessas deslocações, existem também viagens interiores, associadas a estas substâncias, que correspondem a uma procura de sentido da vida.
O título do romance, Sexto Sentido, relaciona-se igualmente com essa ideia de viagem. Resulta, em parte, de uma experiência realizada em Londres, no Imperial College, onde foram utilizadas técnicas inovadoras para medir o que ocorre no cérebro sob a influência dessas substâncias. Inicialmente, partia-se do pressuposto de que o cérebro entraria num estado mais tranquilo ou até mais adormecido. No entanto, verificou-se exatamente o contrário: o cérebro tornava-se extremamente ativo, estabelecendo ligações entre diferentes áreas que não se verificam em condições normais. Daí a ideia de Sexto Sentido: a possibilidade de o cérebro ativar um mecanismo que permite captar dimensões da realidade que, em circunstâncias habituais, permanecem inacessíveis, incluindo determinadas verdades associadas a essas experiências. Estas são, portanto, viagens mentais que revelam aspectos sobre o indivíduo e sobre o universo. Nesse sentido, constituem experiências relevantes, na medida em que possibilitam a descoberta de questões fundamentais.
Uma dessas questões relaciona-se com a morte. O estudo dos psicodélicos foi retomado, em parte, a partir de uma investigação conduzida nos Estados Unidos, na Universidade Johns Hopkins, em 2006, com doentes terminais com cancro. Tratava-se de pessoas conscientes da proximidade da morte, frequentemente em estados de grande sofrimento psicológico, marcados por depressão e ansiedade. Após a administração destas substâncias, cerca de 80% dos pacientes registaram uma diminuição significativa desses sintomas. Durante as experiências, relataram visões que interpretaram como explicações sobre o que lhes aconteceria após a morte. Descreveram-nas como mais reais do que a própria realidade, atribuindo-lhes um estatuto de verdade. Essas visões sugeriam que, com a morte, o ego desaparece, mas a consciência persiste. Trata-se de uma ideia que, embora surpreendente, apresenta pontos de contacto com determinadas hipóteses da física contemporânea, nomeadamente no âmbito da física das partículas, como a noção de função de onda. Algumas interpretações científicas sugerem a existência de um campo universal que se manifesta em relação à consciência. Nesse contexto, os relatos indicam que a consciência individual poderia integrar esse campo. Embora seja um conceito complexo, encontra ressonância em algumas descobertas científicas reconhecidas, incluindo investigações que foram distinguidas com o Prémio Nobel.
Deste modo, o interesse pelo tema reside na sua capacidade de abordar questões fundamentais sobre a vida, a morte e o sentido da existência, numa perspetiva filosófica. Trata-se de temas universais, que suscitam interesse independentemente da formação ou contexto de cada indivíduo, e que estão na base da motivação para a escrita deste romance.
CM: A morte e a religião são temáticas que já explorou em vários livros. Como é que sente a sua relação agora com esses aspectos, já que escreveu sobre o assunto?
José Rodrigues dos Santos: Obviamente que, como qualquer ser humano, também tenho curiosidade. Quero saber o que é que vai acontecer. Como qualquer ser humano tenho medo de morrer. Portanto, é natural que nós procuremos quais são as respostas que a ciência nos dá. Claro que a religião dá certas respostas, mas as respostas religiosas muitas vezes são míticas. Embora, na verdade, na origem de muitas religiões estão experiências místicas resultantes de psicodélicos, porque as religiões nascem com os xamãs e os xamãs consumiam estas substâncias e então tinham visões. Há muitas coisas que as religiões dizem que, na verdade, são ditas pelos psicodélicos, de maneira que se supõe que são os psicodélicos que estão na origem de muitas das histórias que há nas religiões.
Portanto, através deste romance, eu procuro essas respostas e algumas encontramos nas religiões, outras é, essencialmente, na ciência. Eu seguro-me mais na ciência porque tenho mais confiança nas descobertas que a ciência faz, mesmo a ciência estando sempre em evolução.
CM: Além da sua profissão de escritor, é jornalista. Como é que a sua profissão de jornalista impacta a sua escrita e também as pesquisas que faz para os romances?
José Rodrigues dos Santos: Bom, os jornalistas procuram escrever sempre de uma maneira que seja muito clara e que procuram que seja interessante. Isto é, se uma pessoa ler uma página do livro e não entender o que lá está, para um jornalista a culpa não é da pessoa, a culpa é do jornalista que não foi suficientemente claro a escrever. Isso eu trouxe para os meus romances. Para escritores, se nós começamos a ler e não percebemos o que lá está, para mim, isso é um livro mal escrito. Um livro bem escrito, é um daqueles em que nós começamos a ler e percebemos tudo. Portanto, eu procuro fazer isso.
Outra coisa que os jornalistas fazem é procurar escrever de uma maneira interessante. Por exemplo, o que eu costumo dar tem a ver com as anedotas. Eu conto uma anedota e ninguém acha piada. Você conta uma anedota e toda gente acha piada. É a mesma anedota. Então porquê que as pessoas riem de uma pessoa e não se riem de outra? Porque há uma pessoa que conta de uma maneira mais engraçada do que outra, é mais interessante a contá-la. É isso, no fundo, que os jornalistas procuram escrever de uma maneira interessante que faça com que as pessoas fiquem agarradas ao que estão a ler. Eu procuro fazer isso nos meus romances também. Eu procuro escrever sobre um tema de uma maneira que seja interessante, que faça com que as pessoas captem a atenção e que fiquem presas à leitura, que entendam o que estão a ler e que fiquem interessadas nisso. Isso são técnicas que vêm do jornalismo.
CM: Já escreveu 27 romances. Como é que consegue sempre encontrar inspiração e pensar em todos esses romances do início ao fim?
José Rodrigues dos Santos: O que é interessante na ficção é que a inspiração pode surgir de tudo o que está à nossa volta. Qualquer elemento da experiência humana pode constituir matéria para um romance. Observando o conjunto dos meus romances, verifica-se que abordam temas muito diversos: física, filosofia, biologia, etologia, inteligência artificial, história, religião, política, economia e arte. Ou seja, todos os domínios do conhecimento me interessam. Basta olhar para a realidade e é possível encontrar constantemente temas relevantes. Por exemplo, um dos romances que escrevi, A Filha do Capitão, recentemente traduzido para francês, aborda a participação dos portugueses no Corpo Expedicionário enviado para a Flandres, durante a Primeira Guerra Mundial, para combater os alemães. Trata-se, no fundo, de observar a história e identificar episódios significativos que merecem ser contados.
Outro exemplo é o romance sobre Espinosa. Quando se questiona qual é o maior filósofo português, raramente se menciona Espinosa, apesar da sua origem portuguesa. No entanto, trata-se de uma figura central no pensamento ocidental, tendo desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento do método científico, iniciado por Francis Bacon e René Descartes.
A realidade é, portanto, extremamente rica. O essencial é saber observá-la, identificar os seus elementos mais significativos e transformá-los em narrativa. Mesmo temas que à partida podem parecer específicos ou pouco acessíveis, como o caso dos psicodélicos, tornam-se relevantes quando explorados enquanto vias para compreender questões mais profundas. Na minha ficção, procuro frequentemente abordar aquilo que se pode designar como mitos, ou seja, ideias erradas amplamente difundidas em áreas como a economia, a história ou a política. A sociedade está repleta dessas construções, o que torna esse trabalho particularmente pertinente. Um exemplo claro é o caso dos psicodélicos, frequentemente associados à ideia de perigo. No entanto, estudos recentes indicam que essa percepção não corresponde inteiramente à realidade. Em contexto clínico, algumas dessas substâncias têm vindo a ser utilizadas no tratamento de determinados problemas psicológicos. Neste âmbito, aplica-se um princípio fundamental da medicina, frequentemente associado a Paracelso: o veneno está na dose. Ou seja, qualquer substância pode ser benéfica ou prejudicial, dependendo da quantidade administrada. Este princípio não se aplica apenas aos medicamentos, mas a praticamente todos os elementos. O trabalho da medicina consiste, em grande medida, em determinar essa dose adequada, aquela que permite que uma substância produza efeitos benéficos sem se tornar prejudicial. É nesse equilíbrio que reside a distinção entre remédio e veneno.
CM: Para acabar, em três palavras, como é que daria vontade aos jovens lusodescendentes de ler o Sexto Sentido?
José Rodrigues dos Santos: Em três palavras, não sei se consigo dizer. Eu acho que é um romance que nos dá respostas sobre o mundo, sobre a vida, sobretudo, através de uma história de ficção que é agradável de ler. A minha ideia é sempre: eu não escrevo passatempos, eu escrevo ganha-tempos. Passamos o tempo, é um thriller portanto temos vontade de virar a página, distraímo-nos, mas ao mesmo tempo, aprendemos coisas verdadeiras sobre o mundo, sobre nós próprios, sobre o universo. Portanto, saímos mais ricos no final.
Claro que existem romances que contam uma história totalmente ficcional, sobre personagens que não existem, sobre um crime que nunca ocorreu. Na verdade a gente diverte-se ao ler o livro mas não aprendemos nada de novo. Aqui aprendemos.
Uma vez, um homem agradeceu-me na rua. A chave de Salomão é um livro sobre física quântica. O homem contou que a mãe dele, que tem a escola primária, entendeu tudo e teve uma conversa com ele sobre física. Ela aprendeu tudo. É isso que procuro fazer nos meus romances, enriquecer as pessoas que às vezes não conhecem nada sobre nada. Há coisas que convém saber. Os meus livros são repositórios de conhecimento aos quais se acede de uma maneira simples e eu acho que isso é talvez a maior qualidade e a razão principal pela qual eles têm tanto sucesso: porque as pessoas acedem à informação que lhes permite compreender melhor o mundo de uma maneira simples.
Muitas vezes, há pessoas que escondem o conhecimento por trás de uma linguagem difícil. Às vezes são coisas acessíveis. Eu faço o contrário: procuro usar uma linguagem acessível para aceder a conhecimentos. Isso é a coisa mais importante que acho que os meus romances trazem.
CM: Obrigada José Rodrigues dos Santos!
Convidamos toda a gente a ir descobrir os romances de José Rodrigues dos Santos, sobretudo o último, traduzido em francês sob o título Le Sexième Sens.
Entrevista realizada pela Jenny Carneiro
e a Julie Carvalho, de Os Cadernos da Julie.
Publié le 07/04/2026.




