
Elisabeth Gomis : MansA et l’héritage d’Amílcar Cabral
13 octobre 2026Cantora, rapper e compositora portuguesa, Libra desenvolve um universo musical marcado pelo rap consciente, com influências do pop e do R&B. A sua escrita dá particular importância à palavra e à mensagem, abordando temas como a emancipação da mulher, a identidade negra e a responsabilidade política dos artistas. Em Paris, onde atua pela primeira vez no Sofar Sounds, conversámos com a artista sobre o seu percurso, as suas influências culturais, os projetos futuros e a importância de manter uma ligação às próprias raízes.
Cap Magellan: Libra, és cantora, rapper e compositora portuguesa e cresceste num universo musical diversificado. Como definirias o teu estilo atualmente?
Libra: É um pouco difícil de definir, mas costumo dizer que faço rap consciente. O rap permite abordar diferentes estilos musicais: a produção pode misturar pop, R&B e soul, entre outros géneros. Por isso, diria que o rap consciente define sobretudo o teor da mensagem, mais do que o tipo de música, que acaba por ser uma mistura de várias influências.
CM: Tens raízes cabo-verdianas e angolanas e ouviste música brasileira e francesa com a tua avó. Como é que essa diversidade cultural influencia a tua música?
Libra: Influencia tanto as temáticas como a sonoridade, mesmo que nem sempre seja diretamente perceptível. Com a minha avó, ouvia sobretudo música popular brasileira (MPB), mas essas influências ainda não são muito evidentes naquilo que lancei até agora. Acho que somos todos uma mistura de tudo aquilo a que somos expostos. É quase impossível ouvir determinada música sem que ela nos influencie. Mesmo que não vá buscar elementos específicos a essas sonoridades, acredito que tudo aquilo que ouvi contribuiu para a música que faço hoje.
CM: Estudaste música no Conservatório de Música de Sintra. Quando começas a criar uma canção, pensas primeiro na letra ou na melodia?
Libra: Normalmente, começo pela letra. Dou mais importância à poesia e à mensagem do que à música, o que é um pouco estranho, tendo em conta que sou artista musical. É uma discussão que tenho frequentemente com outros colegas. Enquanto ouvinte, procuro sobretudo as mensagens, embora também seja importante gostar daquilo que estamos a ouvir. Começo pela palavra e pelo ritmo e, só depois, construo as melodias e o universo sonoro. Talvez seja também por isso que me aproximei do rap.
CM: As tuas canções abordam temas como a emancipação da mulher e o empoderamento negro. Consideras que os artistas têm hoje uma responsabilidade política?
Libra: Para mim, é impossível ser artista e ser apolítico, porque tudo é político. Vivemos em sociedade e tudo aquilo que fazemos acaba por transmitir uma posição. Compreendo que alguns artistas não queiram fazer música de intervenção, mas é difícil não assumir qualquer posição quando apresentamos a nossa arte ao mundo. Há pessoas que nos ouvem e que se sentem influenciadas pelas nossas mensagens. Por vezes, dizer que não queremos tomar posições políticas pode resultar de uma situação de privilégio. Ainda assim, cada um faz as suas escolhas e não cabe a mim obrigar ninguém a pensar da mesma forma.
CM: Antes de te dedicares exclusivamente à música, estudaste na área farmacêutica em Coimbra. Que aprendizagens dessa experiência ainda te são úteis?
Libra: O curso foi importante, sobretudo porque me permitiu trabalhar durante cinco anos e financiar a minha música, pagando o estúdio, os videoclipes e outras despesas, até conseguir um contrato com uma editora, mas a experiência universitária também foi fundamental. Saí de casa, fui viver para outra cidade e conheci pessoas diferentes. Essa experiência permitiu-me conhecer-me melhor e desbloquear a escrita. Acho que foi essa a contribuição mais direta desse percurso para aquilo que faço hoje.
CM: Hoje vais atuar em Paris, no Sofar Sounds. O que representa para ti?
Libra: Há muito tempo que queria vir a Paris. Tenho um fascínio pela cidade, apesar de ser a primeira vez que cá estou. Estou muito feliz por ter a oportunidade de viajar para apresentar a minha arte e cantar para pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar de mim. Além disso, França é um mercado que gostaria muito de explorar. O hip-hop tem aqui uma presença muito forte e sou uma grande admiradora da cena musical francesa. Estou simplesmente muito feliz por estar aqui.
CM: Como preparas um show?
Libra: Primeiro, procuro perceber o espaço e o formato mais adequado. Tenho várias possibilidades: normalmente, atuo com banda ou com backing tracks acompanhadas por um instrumentista. Como o Sofar Sounds tem um formato acústico e implicava viajar, decidimos apresentar algo novo, apenas com voz e piano. Vai ser um concerto muito intimista. Depois, preparo uma lista de músicas com algumas alternativas. Se perceber que o público está mais receptivo a determinado ambiente musical, posso adaptar o alinhamento e escolher outras canções. Também ensaio bastante para não me esquecer das letras e preparo uma espécie de guião para o concerto. Gosto que os espetáculos tenham uma história e uma linha de pensamento que os orientem.
CM: O teu álbum Everyone’s First Breath foi lançado em 2025. Estás a preparar outro?
Libra: Estou a preparar vários projetos, mas ainda não posso revelar muito. Este ano vão sair algumas coisas e o final do ano será bastante preenchido. O segundo álbum também está a caminho, embora ainda não possa dizer quando será lançado.
CM: Para terminar, tens uma mensagem para os jovens lusodescendentes?
Libra: Não sei exatamente quais são as dificuldades dos jovens lusodescendentes, porque sempre vivi em Portugal e nunca passei por essa experiência, mas acho muito importante manter uma ligação às nossas raízes. O facto de continuarem a falar português é muito positivo, porque a língua nos mantém ligados à cultura. Acompanhar a música, a arte e até a vida política do país também contribui para essa ligação.
Falo disso a partir da minha própria experiência enquanto afrodescendente. A ligação às minhas raízes africanas tem-me ajudado a conhecer-me melhor e a sentir-me mais acolhida. Acredito que possa acontecer o mesmo com os jovens lusodescendentes: quanto mais próximos estiverem da sua cultura e mais assumirem essa identidade, mais facilmente encontrarão o seu lugar no mundo. Quando crescemos num país cuja cultura é diferente daquela que vivemos em casa, podemos sentir-nos um pouco deslocados. Por isso, penso que é importante construir um sentido de comunidade e manter essa ligação às nossas origens. Estamos muitas vezes sozinhos no mundo, mas, enquanto cá estamos, criar laços e reconhecer as nossas raízes pode tornar o caminho mais fácil. Eu própria ainda estou a descobrir o que significa ser afrodescendente em Portugal, por isso também estou nesse percurso. Estou convosco!
Convidamos toda a gente a seguir LIBRA em todo o lado.
Entrevista realizada pela Julie Carvalho,
e a Liliana Tavares Ribeiro de Tempestade 2.1
Publié le 13/10/2026




