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3 mars 2026Katia Guerreiro, grande voz do fado, estará em região parisiense para um concerto solidário dia 14 de Março. Organizado pela associação Lions Club de Gif-Chevry, Katia Guerreiro representar-se-á no Opéra de Massy. A Cap Magellan obteve uma entrevista exclusiva.
Cap Magellan: Olá Kátia, espero que esteja tudo bem contigo. Vais cantar dia 14 de março na Ópera de Massy. É um concerto solidário organizado pelo Lions Club de Gif-Chevry cujos benefícios servirão para a luta contra o cancro infantil. O que é que representa este concerto para ti?
Katia Guerreiro: O convite quando me foi feito sensibilizou-me muito porque há causas às quais eu não consigo virar as costas. Também sou mãe e tenho sempre esta preocupação de estar atenta às necessidades da sociedade. Este é um tema que me toca particularmente.
Eu também sou médica e sei que a luta contra o cancro é sempre muito dispendiosa. Sobretudo, quando toca a crianças, isto mexe um bocadinho com o meu coração porque nunca sabemos o que nos bate à porta. Importa nós nos podermos envolver na sociedade de formas diferentes através daquilo que nós representamos. Eu represento o fado, represento o meu país e é importante para mim também dar a cara por causas como esta e outras. Tenho sido sempre muito solidária em muitas causas mas esta toca-me particularmente.
CM: Como é que te sentes ao chegar ao concerto? O que podemos esperar?
Katia Guerreiro: Estou a preparar um espetáculo muito especial porque continuo aqui a celebrar os meus 25 anos de carreira. Estar nesta etapa da vida a celebrar estes 25 anos de carreira no fundo é um bocadinho querer celebrar o privilégio que é poder estar no palco porque é mesmo um privilégio poder partilhar a minha música, ainda mais o fado que é um género musical tão especial e na minha língua. Os 25 anos de carreira são um marco não só para olhar para trás mas para olhar também para a frente.
Tenho alguns momentos especiais que vou levar a este espetáculo. Por variados motivos, porque já estou com muitas saudades de cantar em Paris porque a verdade é que sei que tenho em Paris um público muito fiel e porque me apetece ir fazer espetáculos diferentes ao longo deste ano. Portanto vou apresentar-me com o meu trio de fado habitual: o David Ribeiro na guitarra portuguesa, o André Ramos na viola e o Francisco Caspar na viola baixo, mas desta vez levo, e pela primeira vez, o João Nuno Bernardo que é um jovem músico talentosíssimo que ainda por cima é meu conterrâneo dos Açores e com quem tenho estado a colaborar a fazer alguns temas diferentes. Nesta fase em que eu decidi que ia fazer só aquilo que me apetece, tenho estado a lançar alguns temas e a apresentar-me de forma diferente do que é o habitual. Vou levá-lo para tocar alguns temas que nós temos estado a trabalhar e que mesmo nós temos apresentado. No dia 8 de Março eu vou lançar um tema novo e então o que acontece é que se calhar vai acontecer em cima do palco também.
CM: Como é que preparas os teus shows? És mãe, médica e cantora, como é que consegues organizar isso?
Katia Guerreiro: Eu tenho mais uma missão neste momento em mãos para além de tudo isso. Como médica eu neste momento não estou a exercer. Deixei de exercer medicina há uns anos depois da minha filha mais velha ter nascido. Portanto, tenho me dedicado exclusivamente à música.
Este ano estou com uma missão muito importante em mãos: estou como Comissária da Capital Portuguesa da Cultura em Ponta Delgada, o que ainda acrescente o grau de dificuldade na gestão do tempo e das tarefas. A verdade é que quando se faz alguma coisa por paixão nós tentamos sempre corresponder a tudo e, no fundo, o tempo vai-se organizando. Às vezes é um dia de cada vez, outras vezes tem de ser com muita antecedência. Neste caso já tenho o alinhamento da ópera de Massy preparado há algum tempo, até porque como tem esta particularidade de ter um músico extraordinário que não costuma acompanhar-nos tive de organizar com mais antecedência este repertório.
CM: Já cantaste várias vezes em França. O que achas do público aqui?
Katia Guerreiro: Tem sido o meu mercado mais fiel. Continuo a cantar em todo lado mas em França é onde eu tenho tido uma atividade mais regular. Aquilo que eu sinto do público francês é que é um público mesmo muito interessado e não é só o público francês também tem aqui a particularidade de termos sempre uma mistura entre o público francês e o público português que reside em França o que ajuda muito àquilo que nós fazemos. O público francês que vai pela primeira vez assistir a um espetáculo de fado, pelo facto de haver portugueses na sala que sabem reagir ao fado, acabam por ajudar o público que não conhece tão bem e acaba por haver ali também uma interação muito gira dentro da plateia em termos de reações o que é muito bonito O público francês deixa-se apaixonar pela sonoridade mas também encontra muita poesia no português.
CM: Estás a festejar 25 anos de carreira, o que é enorme, tu és fadista e médica oftalmologista, como é que explicas esta paixão por duas matérias tão diferentes?
Katia Guerreiro: Eu comecei por fazer uma opção na vida que foi de seguir medicina e de me tornar médica. Efetivamente fui por paixão e por sentir uma verdadeira vocação pela medicina. Fui sempre muito feliz a exercer medicina porque gosto muito de pessoas e sempre fui muito dedicada. Tenho pena de não estar a exercer medicina, devo dizer. A música acabou por surgir ao mesmo tempo que o início do exercício da medicina e eu consegui compatibilizar as duas carreiras durante 12 anos e trabalhei muito. Sempre fui muito professionista, sempre gostei muito de dar tudo o que tinha para dar. São duas carreiras muito diferentes, mas ao mesmo tempo elas cruzam-se na parte humana, no que diz respeito à parte humana, à humanização, à preocupação com o outro e à vontade de nos darmos ao outro.
Com a música tenho esta experiência de, sempre que estou em palco, a partilha leva-nos a curar almas. Se por um lado na medicina cuida-se o corpo, através da música e com o fado em particular, cuidamos da alma, curamos almas. Aliás, em França durante muitos anos diziam em entrevistas minhas “a mulher que de dia cura os corpos e à noite cura as almas” e eu sempre gostei muito desta frase.
CM: Em 2016, participaste no filme Alfama em Si. Como é que viveste esta experiência cinematográfica?
Katia Guerreiro: Foi muito enriquecedora, por vários motivos. Enquanto atriz eu fundei um grupo de teatro e estive em cena no grupo de teatro que fundei na faculdade, mas em termos de representação não tive mais experiência senão esta. Fui convidada para participar neste filme, que foi um filme que me trouxe uma oportunidade mágica, que foi trabalhar com José Mário Branco, que era o diretor musical deste filme. Fiquei muito surpreendida quando no final o realizador me disse “tu és uma atriz nata, isso nasceu em ti”. Nunca achei isso, mas é muito gratificante ouvir isto por parte do realizador.
CM: Recebeste vários prémios e condecorações: foste distinguida Personalidade Feminina em 2005, és Chevalier da Ordem das Artes e Letras Francesa desde 2013 e Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique desde 2015. O que representa para ti?
Katia Guerreiro: São muito honrosos estes prémios, porque efetivamente acabam por ser um reconhecimento daquilo que eu tenho feito, do meu percurso, da qualidade e do alcance daquilo que eu tenho construído. É evidente que tenho imenso orgulho nesses reconhecimentos. Mas não trabalho para isso, eu trabalho para o público, eu trabalho pela arte.
Se vêem esses reconhecimentos, eles são naturalmente muito bem-vindos e acabam por reforçar a importância daquilo que eu faço e dão-me ainda maior responsabilidade, como é evidente.
CM: Nasceste na África do Sul e cresceste nos Açores. Como achas que este percurso geográfico e cultural influencia a tua música?
Katia Guerreiro: Influencia muito, porque eu nasci na África do Sul por circunstâncias particulares, que foi a fuga dos meus pais de Angola, após a guerra, após a independência de Angola. Os meus pais fugiram para a África do Sul e eu acabei por nascer lá. A minha família é de Angola e depois os meus pais não se adaptaram à África do Sul, era um regime muito diferente, e quando os meus pais decidiram vir para Portugal, foram direto aos Açores e foi lá que eu cresci. Fui para lá com 11 meses e é evidente que eu sofro aqui grandes influências por parte da minha família angolana, que vivia de uma forma muito livre, com os horizontes muito alargados e que tinha uma forma de viver em comunidade completamente diferente daquilo que se vive em Portugal. Quando nós fomos para os Açores, eu não tenho memória disso, porque era mesmo muito pequena, mas efetivamente os meus pais encontraram uma sociedade muito fechada e ainda muito congelada no tempo, e portanto para eles foi um grande choque. Naturalmente, as pessoas que vieram da África para os Açores acabaram por criar as suas próprias mini comunidades, não deixando nunca de fazer parte da sociedade onde estavam inseridos. Eu recebi influências dessa abertura de espírito, por parte da minha família angolana, mas o facto de viver nos Açores também me trouxe muitas particularidades, que passam por estar rodeada de uma natureza absolutamente única.
Aquela terra é mágica e as pessoas são muito especiais. Estar ali nos Açores fez-me ser uma pessoa muito contemplativa. Sempre fui uma criança alegre, bem disposta, mas sempre fui muito introvertida. Era muito pensativa, fazia muitas reflexões, questionava muita coisa, mas perguntava para dentro, não era muito expansiva nesse aspecto. Aquela natureza acabou por me influenciar muito, porque era na natureza que eu procurava respostas. Creio que até hoje aquela forma dos ilhéus de viverem, de sentirem, de contemplarem, influencia muito também o facto de eu ser artista. É uma terra muito fértil em arte, em cultura e eu creio que fui buscar muito naquela terra aquilo que sou hoje. Mas também, o espírito aberto da minha família africana também me trouxe este lado expansivo de ir procurar, para mim não há fronteiras.
CM: O teu último álbum saiu em 2022. Estás a preparar outro?
Katia Guerreiro: Tenho estado a lançar temas que me vão apetecendo ao longo do tempo de gravar. Não tenho um fio condutor, não tenho de ter, estou só a fazer aquilo que me apetecer. Provavelmente, no fim disto tudo, eu vou compilar estes temas todos num álbum e com alguns novos temas que possam eventualmente ser um álbum novo. Para já, e porque eu estou com esta missão também da Capital Portuguesa da Cultura, o tempo também não me permite fazer aquele tempo quase sabático de estar só dedicada à recolha, à produção de um álbum completo. Portanto, eu vou fazendo à medida que me vou inspirando em alguma coisa para fazer. Neste momento, eu acabei de fazer anos, 50 anos, e decidi gravar um tema que é um bocadinho uma reflexão sobre a vida. Vai ser no Dia Internacional da Mulher, no dia 8 de março, também como gratidão a todas as mulheres que são alta inspiração na minha vida.
CM: Queres fazer colaborações ou preferes mesmo cantar sozinha?
Katia Guerreiro: Eu tenho tido muitas experiências ao longo destes anos todos com muitos artistas de vários países. Já cantei com uma cantora de ópera chinesa, já cantei com músicos da América Latina, com brasileiros, com espanhóis, com turcos, com marroquinos, etc. Tenho tido experiências muito enriquecedoras e é tão bonito perceber que a música é efetivamente uma língua universal. Não tem barreiras, não é preciso cantarmos na mesma língua para nos entendermos, porque há aqui uma energia que nos une através da música, que é muito especial. Vou continuar a fazer parcerias com músicos, porque é tão gratificante e tão enriquecedor.
CM: Para acabar, uma mensagem para convencer os jovens a irem ver-te no palco dia 14.
Katia Guerreiro: Era muito importante sentir as novas gerações ligarem-se aos seus valores culturais de origem, porque na essência há qualquer coisa que nos move, que tem naturalmente a ver com o meio que nos rodeia, mas há um lugar que é sempre o nosso, onde nós sentimos que somos uma pessoa por inteiro. O fado é casa. O fado não é a música dos mais velhos. Isto já passou, já não é isso. O fado é cada vez mais apreciado e mais ouvido pelas novas gerações. Há tantas coisas bonitas para descobrir no fado. Não só a poesia, mas sobretudo a alma e a verdade que o fado traz por dentro. Se os jovens que nos estão a ouvir se sentirem atraídos pela verdade e por emoções verdadeiras, então eu convido-vos a vir, porque pode ser que aconteça qualquer coisa especial aí dentro dos corações.
CM: Muito obrigada Katia. Nós vamos estar lá!
Não se esqueça de comprar os seus bilhetes para o concerto dia 14 de Março.
Também pode seguir Katia Guerreiro nas suas redes sociais.
Entrevista realizada pela Clarisse Bernardino,
de Tempestade 2.1, e a Julie Carvalho,
Publié le 02/03/2026.




