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27 mai 2026A Orquestra Filarmónica Portuguesa sobe ao palco do Théâtre de la Ville Sarah Bernhardt, em Paris, no próximo dia 9 de junho, para um concerto especial que junta música clássica, fado e muitas surpresas. A Cap Magellan quis saber mais e obteve uma entrevista exclusiva com o maestro Osvaldo Ferreira, o pianista e compositor Mário Laginha e o fadista Camané.
Cap Magellan: Boa tarde, Camané, Mário Laginha e Osvaldo Ferreira. Fazem parte da Orquestra Filarmónica Portuguesa e vão estar em Paris dia 9 de junho para um concerto excepcional no Teatro de la Ville Sarah Bernhardt de Paris. O que representa este concerto para vocês?
Mário Laginha: Este concerto é, para mim, um grande desafio — mas um desafio muito motivador. Normalmente, quando toco um concerto para piano e orquestra, não toco fado, e quando toco fado, não estou a tocar um concerto para piano e orquestra. Misturar estas duas linguagens com uma orquestra é algo muito especial.
Além disso, não é todos os dias que se toca num teatro como o Théâtre de la Ville, em Paris. Estou muito entusiasmado com esta ideia e tenho a certeza de que será um momento único.
Osvaldo Ferreira: Partilho totalmente da opinião do Mário Laginha. Sou um enorme admirador dele, da sua música e da forma como pensa a música.
Para nós, enquanto orquestra, este tipo de projetos é muito importante. Hoje em dia, fala-se muito sobre o futuro da música instrumental e das orquestras. Temos de ser capazes de reinventar, criar novas experiências e surpreender o público. Num concerto pop ou jazz, o público sabe que vai ouvir certos temas conhecidos, mas também espera ser surpreendido. Acho que as orquestras também devem procurar isso: criar interação e emoção.
Isso acontece muito no fado: quando vou ouvir fadistas — e o Camané é um deles — sinto sempre essa ligação emocional. Estamos a ouvir, quase a cantar mentalmente cada palavra, e ao mesmo tempo admiramos a forma como o artista interpreta aquele fado.
Levar isso para uma orquestra é fascinante. A sonoridade muda, a abordagem muda, tudo se transforma. Quando surgiu a ideia de ir a Paris, pensámos: “O que podemos fazer de diferente?”. Foi aí que surgiu esta combinação entre o concerto do Mário Laginha, o fado do Camané e a orquestra.
Também quisemos prestar uma pequena homenagem à França, incluindo Ravel no programa. Ainda haverá algumas surpresas no final… mas essas não podemos revelar. Vai ser mesmo muito divertido estar em palco a fazer isto.
CM: Camané, como é que reagiu ao convite de cantar fado com uma orquestra?
Camané: Há dois temas que vou cantar apenas com o Mário Laginha — músicas dele com poemas do David Barão Ferreira. Depois há outros temas em que cantarei com o Mário e também com a orquestra. Vai ser um prazer.
CM: Gostávamos também de falar um pouco dos seus percursos. Como nasceu a ligação entre vocês e a Orquestra Filarmónica Portuguesa?
Osvaldo Ferreira: A Orquestra Filarmónica Portuguesa celebra agora 10 anos de existência. Nos últimos anos temos desenvolvido um conceito muito interessante: tocar em grandes cidades europeias. A primeira experiência aconteceu em Paris, na UNESCO, a convite do embaixador Sampaio da Nóvoa, numa celebração dedicada à língua portuguesa. Foi um projeto muito bonito, que reuniu várias culturas lusófonas — Portugal, Brasil e países africanos de língua portuguesa. Depois disso estivemos novamente em Paris, participamos na Saison Croisée Portugal-França, estivemos em Berlim, Madrid, etc. e este ano surgiu este convite para regressar a Paris.
Quanto ao Mário Laginha e ao Camané, a ligação vem naturalmente do percurso artístico extraordinário dos dois. Conheço o trabalho do Mário há muitos anos, desde a altura em que surgiu a ideia de encomendar o seu concerto para piano. Também me lembro perfeitamente de um concerto muito especial do Camané no Teatro das Figuras, em Faro. O Mário e o Camané já partilharam muitos palcos, muitos projetos e muitas experiências musicais.
Há algo muito especial em levar esta música para fora de Portugal. Eu próprio vivi fora do país durante vários anos — em Inglaterra, Rússia, Estados Unidos, Brasil, Alemanha — e confesso que ouvir fado longe de Portugal toca-me de uma forma diferente. Há qualquer coisa de muito profundo no fado quando estamos fora do nosso país.
Camané: Tem a ver com a saudade. Com o sentimento de estar fora de Portugal, mas ao mesmo tempo sentir Portugal muito perto através da música.
CM: Osvaldo pode explicar o trabalho de maestro para quem não o conhece?
Osvaldo Ferreira: O trabalho do maestro pode ser comparado ao de um diretor no teatro. Temos uma obra escrita, tal como um texto teatral, mas cada músico interpreta de forma diferente. O papel do maestro é coordenar todas essas interpretações para criar um discurso coerente e harmonioso. Numa orquestra existem muitos solistas e diferentes vozes musicais. O maestro não ensina um músico a tocar o seu instrumento — muitas vezes ele toca melhor do que nós — mas ajuda a unir todas essas vozes. É isso que fazemos nos ensaios.
No caso deste concerto, por exemplo, o Mário Laginha pode decidir tocar uma frase de maneira diferente, com outro ritmo ou outra emoção, e a orquestra tem de responder a isso, dialogando musicalmente com ele.
Com a voz acontece ainda mais. A voz é o instrumento mais especial de todos porque transmite palavras, emoções e intenções diretamente. Se o cantor sussurra, a orquestra também tem de sussurrar. Se ele cresce emocionalmente, a orquestra o acompanha.
No fundo, a música é sempre uma mensagem e cada intérprete traz algo único. Reconhecemos imediatamente a voz do Camané, por exemplo, porque ninguém canta como ele. Isso é o mais bonito da música.
CM: Diz-se muitas vezes que o fado não utiliza partitura e que muitos fadistas não sabem ler música. Camané, é o seu caso?
Camané: Vou por dentro do texto e vou cantar a música através daquilo que tenho no ouvido desde criança.
CM: Que mensagem gostariam de deixar ao público de Paris e aos jovens que sonham seguir uma carreira na música?
Osvaldo Ferreira: Há uma frase muito conhecida que diz que o sucesso é 10% inspiração e 90% transpiração. Na música, no desporto ou em qualquer área da vida, é preciso persistência, trabalho e acreditar no caminho. Nem sempre os resultados aparecem imediatamente. Algumas pessoas têm oportunidades mais cedo do que outras, mas isso não significa necessariamente que sejam melhores. O importante é continuar.
Eu vivi em vários países, estudei fora de Portugal e sei que nem sempre é fácil. Mas há uma característica comum em todas as pessoas que conseguem alcançar os seus objetivos: a persistência. Também é importante perceber que o sucesso profissional não pode afastar-nos da nossa felicidade pessoal, da família, dos amigos e daquilo que nos faz sentir bem. Temos de acordar de manhã e sentir que gostamos daquilo que fazemos.
Neste momento, por exemplo, estou feliz por estar aqui a conversar convosco, a conhecer pessoas da diáspora portuguesa em Paris e a partilhar estas experiências. Espero que estas palavras possam tocar alguém, inspirar alguém ou simplesmente provocar um sorriso. É isso que importa.
Para mais informações e para comprar os seus bilhetes, consulte o site do Théâtre de la Ville de Paris.
Entrevista realizada pela Clarisse Bernardino
e a Julie Carvalho, de Os Cadernos da Julie.
Publié le 27/05/2026




