
Calema, tournée 2026-2027
13 octobre 2026Em Paris, na editora Chandeigne & Lima, foi apresentada no dia 29 de setembro a tradução francesa de Terrinhas, o romance de Catarina Gomes. Depois de 20 anos de carreira no jornalismo, a autora estreia-se na ficção com uma história que parte de uma experiência pessoal para abordar questões universais: a relação com as origens, o afastamento do mundo rural e a adaptação a uma nova realidade. Cap Magellan obteve uma entrevista exclusiva.
Cap Magellan: Estamos em Paris, na editora Chandeigne & Lima, para a apresentação da tradução francesa do romance Terrinhas, Terres minuscules em francês. Como estás a viver esta estreia francesa?
Catarina Gomes: Estou entusiasmada. Tenho recebido comentários positivos, sobretudo de livrarias onde o livro foi colocado e tenho-me sentido muito bem acolhida. Espero que chegue tanto ao público lusodescendente como aos leitores franceses. É uma história que parece particular e portuguesa, mas que também é universal: a saída do campo para a cidade e a adaptação a um novo meio.
CM: A história pode falar a muitos leitores franceses, porque também há quem deixe as suas terras para ir viver para a cidade. Acreditas que seja um tema universal?
Catarina Gomes: Em todo o mundo, as pessoas estão a mudar-se para as cidades e os campos estão a ficar abandonados. Na Europa Ocidental, isso acontece em grande escala. A relação com a origem que deixámos para trás diz muito a muitas pessoas. Quando escrevi o livro, não pensei que chegaria a outros leitores. Escrevi sobre aquilo que me interessava. Se a história chegar a mais pessoas, isso deixa-me muito feliz, mas a universalidade não era necessariamente o objetivo: acabou por ser uma consequência natural.
CM: Terrinhas é o teu primeiro romance, depois de vários livros de investigação e sobre a questão colonial. Como surgiu a ideia de escrever este livro?
Catarina Gomes: Já queria escrever um romance há muito tempo. Fui jornalista durante 20 anos e este era um sonho adiado, em parte por receio de não conseguir.
O jornalismo que desenvolvi nos últimos anos, por vezes designado jornalismo narrativo, literário ou não-ficção literária, já recorria a ferramentas da ficção, como a construção de cenas e personagens e a tensão narrativa. O livro nasceu de uma circunstância biográfica: herdei terrenos na aldeia dos meus pais, que passaram diretamente dos meus avós para mim, porque o meu pai já tinha morrido. Eram nomes estranhos numa folha de papel, como o Lameiro e a Boça, e eu já nem sabia o que eram aqueles lugares. O facto de não sentir nada por aquelas terras entristeceu-me. Era quase como se estivesse a ser injusta para com a geração dos meus avós e bisavós. Se recuarmos no tempo, provavelmente todos descendemos de agricultores. Como é que, no espaço de uma geração, se produziu este afastamento da terra? Quando pensei em vender os terrenos, percebi que nem sequer apareciam no mapa ou no GPS. Esta ideia de um passado perdido começou a trabalhar em mim e percebi que dali poderia nascer uma ficção sobre a nossa relação com a terra. A palavra terrinhas tem vários sentidos: pode referir-se à aldeia, ao solo ou aos pequenos grãos de terra. Durante gerações, vivíamos daquilo que a terra nos dava. Hoje, vamos ao supermercado e esquecemo-nos de que viemos de lá.
CM: O romance dá bastante destaque às batatas. Que significado têm na história?
Catarina Gomes: Sou uma pessoa muito visual e acredito que a boa literatura cria imagens. Durante algum tempo, fui tirando notas, até que me surgiu a imagem de enormes sacos de batatas, daqueles antigos, de serapilheira, nas bagageiras dos carros portugueses, nas autoestradas, nos anos 1980 e 1990. Pensei nas batatas que os avós enviavam aos filhos e netos que tinham passado a viver nas cidades. Os meus avós também faziam isso connosco. Porque é que alguém precisa de levar batatas quando as pode comprar no mercado? Porque “estas são das nossas”. Essa imagem fez-me pensar numa espécie de cordão umbilical entre o campo e a cidade. As viagens no Natal ou na Páscoa, com batatas, couves ou cenouras, representavam essa ligação entre gerações. As batatas acabaram por adquirir várias dimensões simbólicas no livro, mas tudo começou com essa imagem.
CM: Cláudia é designer de interiores. Como surgiu esta escolha profissional?
Catarina Gomes: Quis que tivesse uma profissão urbana. No livro, existe uma divisão entre o interior e o exterior. Cláudia é uma mulher virada para dentro, para a casa, mas a história obriga-a a sair, a ir para o campo e a sujar-se. Os pais, que vieram da aldeia, preocupam-se com as aparências e com aquilo que os outros vão pensar. Esta preocupação também ressoa em muitas pessoas que vêm de terras pequenas, onde parece que toda a gente está a olhar para nós. Apesar de se querer moderna, Cláudia escolheu uma profissão profundamente ligada às aparências. Uma casa também é uma encenação, sobretudo quando a decoração de interiores é a sua profissão. Quis juntar estes dois mundos e mostrar como essa herança se adapta a uma profissão contemporânea.
CM: De que forma o teu percurso como jornalista influencia a tua escrita?
Catarina Gomes: Foi uma transição que exigiu que me convencesse de que era capaz. Também tive de desmistificar a palavra “escritor”, que parece representar algo muito importante. Existe a ideia de que é preciso esperar pela inspiração para escrever, mas percebi que isso não funcionava comigo. Sempre li entrevistas a escritores para compreender os seus métodos. Um dia, li um escritor que dizia entrevistar as suas personagens e percebi que também podia fazê-lo. As minhas ferramentas de investigação são essencialmente jornalísticas. Como jornalista, estou habituada a ter os contactos das pessoas e a poder telefonar-lhes para esclarecer dúvidas. Senti falta de não ter o número de telefone da Cláudia, porque ela não existe. Por isso, entrevistei-a como se existisse. Foi assim que lhe dei corpo. Também investiguei a área do design de interiores, conversando com pessoas que trabalham nesse meio. No fundo, são métodos de reportagem que aplico à ficção, onde posso inventar, moldar e adaptar a realidade à narrativa que quero construir.
CM: Com Terrinhas, recebeste o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís. O que representou esse prémio?
Catarina Gomes: Saí do jornalismo com a intenção de escrever o livro, mas precisava de alguém que me perguntasse quando o iria terminar. Durante 20 anos, trabalhei com prazos, editores e limites de carácteres. De repente, deixei de ter essas referências. A liberdade também pode trazer desorientação, porque podemos escrever sem ter ninguém que nos obrigue a terminar. Utilizei o prazo de candidatura ao prémio como meta para acabar o livro, sem grandes ilusões de ganhar. Continuei a trabalhar no texto e a melhorá-lo. Quando recebi o prémio, senti-me legitimada. Foi importante porque me deu um prazo concreto e me ajudou a acreditar no meu trabalho.
CM: Depois de Terrinhas, vais continuar a escrever romances?
Catarina Gomes: Tenho um segundo romance em preparação, mais autobiográfico do que este, que gostaria de terminar até ao final deste ano, para ser publicado no próximo. Prefiro não revelar outros projetos enquanto não estiverem concretizados.
CM: Que mensagem gostarias de transmitir aos lusodescendentes?
Catarina Gomes: Falaria da Cláudia, que, em determinado momento, se envergonha das suas origens rurais. Penso na forma como, por vezes, a portugalidade nem sempre é motivo de orgulho. Podemos transformar as nossas origens numa mais-valia, como acredito que a Cláudia acaba por fazer. O percurso dela, do campo para a cidade, pode também representar a passagem de Portugal para França. Quando nos mudamos para um lugar novo, queremos pertencer. Para isso, por vezes tentamos apagar aquilo que nos torna diferentes: a língua, a maneira de vestir ou outros aspetos da nossa identidade. Com o tempo, percebemos que aquilo que nos distingue é precisamente o que deixámos para trás. Começamos a valorizar essas raízes e a compreender a sua importância. Acredito que os jovens podem fazer esse percurso e passar a olhar para o facto de serem portugueses ou terem raízes portuguesas como uma mais-valia.
Convidamos toda a gente a comprar Terres minuscules de Catarina Gomes, disponíveis nas livrarias e no site da Chandeigne & Lima.
Também pode seguir a atualidade de Catarina Gomes no seu site.
Entrevista realizada pela Julie Carvalho,
Publié le 13/10/2026



