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27 mai 2026SURVEY ON AN S WAVE é um programa paralelo em cinco partes, concebido por Marco Bene, com quem a Cap Magellan falou, que se desenrola ao longo dos sete meses de RedSkyFalls no Fondaco Marcello, onde está instalado o Pavilhão de Portugal na Bienal de Veneza 2026. Entre abalos e fendas, o programa apresenta visitas guiadas recorrentes com um Arquivo Sísmico Portátil, propagação por ondas de rádio e eventos flutuantes na lagoa veneziana.
Cap Magellan : O programa SURVEY ON AN S WAVE parece funcionar mais como uma extensão sísmica da própria exposição do que um simples “programa paralelo”. Como pensou esta relação entre curadoria e diálogo com a exposição principal?
Marco Bene : Tudo começa um pouco com o convite da equipa curatorial e do artista, Alexandre Estrela. Eu trabalhei com o Alexandre há muitos anos e pensei numa forma de o programa comunicar com a própria peça ou de um programa paralelo comunicar com a peça através da história dos terremotos, desde o princípio de um tipo de empirismo europeu que está a chegar ao seu fim. Tudo começa com o inquérito pombalino. Após o terremoto de Lisboa de 1755, o Marquês de Pombal manda enviar a todos os bispos este inquérito, com perguntas muito específicas e muito empíricas sobre o que aconteceu exatamente. Não havia nenhum rasto de redistribuição divina ou de castigo divino. Então, converte-se num tipo de predecessor da sismologia moderna. Através desse inquérito, dividido em cinco partes, questiona-se a obra de Alexandre, que responde ao vivo ao pulso da Terra e aos terremotos que acontecem por todo o planeta. O primeiro capítulo fala sobre aquilo que chega antes dos terremotos: sempre o presságio, o comportamento estranho dos animais, da natureza, os céus vermelhos, um pouco como o título da peça. Todo este programa desenvolve-se ao longo destes cinco meses para ativar, corromper e interromper a peça, mas também para ser interrompido, corrompido e ativado pela própria peça. Todos os eventos, concertos, performances, mas também o Portable Seismic Archive, o Arquivo Sísmico Portátil, são sempre mostrados, ativados e interrompidos pela peça de Alexandre.
Há ainda uma última questão importante: isto também se baseia numa nota biográfica de um dos textos de John Cage, onde ele dizia que tentava fazer “música à prova de terremotos”, ou seja, música que incorpora o acidental, o imprevisível, e o torna seu de alguma maneira. Da mesma forma, os artistas convidados, desde Gavin Bryars até Miguel Abreu ou Stanley Schtinter, são convidados a interagir com o som dos terremotos e a fazer música “à prova de terremotos”.
CM : O texto do programa fala de uma “REDSKYFALLSOLOGIA”, uma ciência incerta e anti-utilitária. O que significa, para si, criar um programa curatorial que se afaste da produção de conhecimento estável ou conclusivo?
Marco Bene : Acho que aqui podemos citar um texto de Derrida. Numa das suas últimas conferências, ele falava de “como não tremer”. Não falo muito bem francês, mas é um texto em que Derrida menciona que as constantes referências ao movimento sísmico, aos tremores, aos terremotos e às linhas de falha não são acidentais. A metáfora do sísmico para falar de problemas políticos, sociais, culturais ou estéticos é uma das metáforas mais pertinentes. Então, fazer uma ciência do incerto e, de alguma maneira, empatizar com o tremor, tanto o próprio como o externo, é aquilo de que precisamos neste momento. Não precisamos de certezas, mas talvez de aprender a tremer juntos.
CM : Como escolheu os artistas e as obras que entram temporariamente nesse arquivo?
Marco Bene : Há uma coisa que acho muito importante em qualquer arquivo: o volume das peças que lá se encontram, mas também aquilo que se inclui e aquilo que se exclui. Na seleção das obras não havia apenas um interesse temático ligado à sismologia, mas também um interesse pelo acidental, por essa interrupção de referências que vêm de todos os lados e que, de maneira inesperada, acabam por incorporar-se neste arquivo portátil. Há referências enviadas pelo próprio artista, Alexandre Estrela, por pessoas que trabalharam com ele, por participantes do programa, amigos e companheiros, mas também através de uma pesquisa que venho fazendo há seis ou sete meses em relação a estes temas e ao inquérito pombalino. Como podemos hoje reencontrar artistas que questionam a matéria dessa forma? Através dos presságios, mas também dos fenómenos líquidos, da entropia, da ruína, do desastre e de outros temas relacionados com a sismologia.
CM : Cada uma das cinco partes do programa (de Presságios & Tremores até Cinzas & Reparação) parece operar como um estado material e emocional distinto. Como estruturou esta progressão ao longo dos sete meses da Bienal?
Marco Bene: Isto surge, em parte, de forma acidental através do próprio inquérito pombalino. Ao dividir as treze perguntas do inquérito em cinco partes (para criar cinco sessões ao longo da Bienal) percebemos que essas questões revelavam diferentes dimensões. Por exemplo, o primeiro capítulo é sobre presságios e os primeiros tremores, porque as primeiras perguntas do inquérito questionavam qual era a hora do início do terremoto em Lisboa e para que lado tinham caído as ruínas dos edifícios. Já o terceiro capítulo, sobre fenómenos líquidos, o abismo e a água, relaciona-se com as perguntas sobre o tsunami que aconteceu depois do terremoto de Lisboa e sobre a forma como mudaram as marés. Há também uma coisa importante que às vezes se perde: a tentativa de ativar o programa em datas como as segundas-feiras ou certos fins de semana, permitindo que os trabalhadores da Bienal de Veneza, que normalmente não trabalham às segundas, possam ver um programa paralelo, já que os outros centros culturais e museus estão fechados nesses dias.
CM : Veneza surge aqui não apenas como cenário da Bienal, mas como uma cidade vulnerável, construída sobre água e permanentemente em negociação com o colapso. De que forma a cidade influenciou o desenho do programa?
Marco Bene : O contexto é sempre algo muito importante e Veneza influencia o programa de duas formas. Por um lado, no terceiro capítulo, sobre os fenómenos líquidos vamos fazer uma parceria com o Floating Cinema, uma estrutura flutuante na lagoa, perto da Giudecca, onde existe um cinema tipo drive-in: as pessoas vão de barco até uma estrutura flutuante e assistem aos filmes ali. Tudo isto está claramente influenciado pela cidade de Veneza, uma cidade de alguma forma flutuante, sereníssima. Mas há também uma brincadeira mais estrutural no próprio título do programa, SURVEY ON AN S WAVE. A S-Wave ou Onda S, é a onda secundária, a shear wave, que acontece depois da onda primária nos terremotos. Para mim, a exposição de Alexandre é uma onda primária, e o programa paralelo é a onda secundária, mas há algo muito particular nas Ondas S: elas não viajam através de líquidos. Isso significa que, de alguma forma, estamos a salvo aqui, na cidade de Veneza, para apresentar tudo isto. Estamos, de certa maneira, como dizia Cage, “à prova de terremotos”.
CM : Que conselho daria a um jovem que quer ser curador ou a qualquer jovem ?
Marco Bene: Acho que nem estou agora, nem estarei nunca, numa posição para dar conselhos, mas diria: pesquisam e também têm vontade de fazer coisas e de fazer com que outras pessoas gostam dessas coisas. Têm um sentido comunitário e de abertura ao acidental, sempre.
Agradeçemos a Marco Bene pelas suas respostas. Podem seguir as atualidades e a programação da exposição RedSkyFalls de Alexandre Estrela, com a curadoria de Ana Baliza e Ricardo Nicolau, para o Pavilhão de Portugal na Bienal de Veneza, no Instagram e no site do projeto. Podem também visitar o Pavilhão na Fondaco Marcello: 30124, C. del Tragheto, 3415, 30123 Venezia VE, Italie.
Entrevista realizada pela Liliana Tavares Ribeiro
estudante em Mestrado em Mercado da arte contemporânea
no IESA arts&culture
Publié le 27/05/2026.




