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22 avril 2026A Cap Magellan conversou com Bárbara Araújo, fotógrafa documental, especializada no parto, na amamentação e na mulher.
Cap Magellan: Olá Bárbara, espero que esteja tudo bem contigo, muito obrigada por ter aceito essa entrevista. Tu és fotógrafa documental e tens uma especialidade que é o parto e a mulher em geral. Antes de ir na tua especialidade, vamos começar rapidamente com o início, como é que começaste a fotografia e porquê?
Bárbara Araújo: Isso é uma história grande. Na verdade, desde pequena o meu pai tinha câmaras fotográficas e curiosamente os meus primos da parte do meu pai são todos das áreas audiovisuais. Nós éramos pequeninos e essa parte dos audiovisuais aconteciam em brincadeira porque os meus primos faziam muitos vídeos e estavam sempre a filmar. Eu não sei se é daí que vem, mas creio que sim. Eles faziam vídeo, mas o vídeo, coisas em movimento nunca foi muito para mim. Eu adorava ver as fotografias antigas, aquelas fotografias que se calhar tu também tens, que os nossos pais tiravam nas nossas festas de anos, nos jantares. Nós olhamos para essas fotografias e são essas fotografias que nos traz à memória aqueles momentos e eu adorava ver essas coisas. Acho que daí ficou o bichinho da fotografia. Depois o meu pai já tinha a câmera fotográfica.
Em Portugal, quando se chega no final do nono ano, tu tens que escolher uma área específica para fazeres os últimos três anos, que é o décimo, décimo primeiro e décimo segundo. No meu caso, havia uma escola artística, que se chamava Escola Artística António Arroio e que não é uma escola profissional, era uma escola comum como as outras todas, mas a única diferença é que só existia o agrupamento de artes na nossa escola. Nós depois podíamos escolher vários agrupamentos dentro das artes.
No meu caso, eu só escolhi fotografia, e então no décimo, décimo primeiro e décimo segundo já faço fotografia. O bichinho da fotografia ficou e dali permaneceu. Nessa altura ainda era mais giro porque fazia preto e branco, fazíamos rolo, revelavamos, eu tinha uma paixão maluca por ficar dentro do laboratório.
CM: O que significa fotografia documental?
Bárbara Araújo: No fundo é quase como fotojornalismo. Tens muitas pessoas que querem uma fotografia de família e quando tu pensas em fotografia de família é, ires ao estúdio e tens as luzinhas e estás com a mãe ou com o pai ou quem seja, não importa, sentados a olhar para a câmara, ou seja, isso é quase como tudo moldado. Eu gosto de capturar a essência da família. Comigo não existe poses, não existe chegar a casa e as pessoas estão maquiadas à minha espera. Podem estar, mas não é para mim.
A minha parte é tentar documentar as fotografias que eu disse há pouco, que nós temos na nossa infância, que os nossos pais tiravam só porque sim. É um bocadinho isto, é eu fotografar um dia normal. No mínimo estou 3 a 4 horas contigo a ver o que é que tu fazes no teu dia-a-dia e isso é que vai ficar registado. Eu acompanho muitas famílias aos domingos, por exemplo com aquela tradição de se fazer panquecas. Nesse dia, eu posso não ir fotografar um domingo, posso ir fotografar uma segunda-feira, mas os pais vão fazer panquecas com as crianças porque é uma coisa que é normal, ou seja, eles fazem sempre isso, só que nunca ninguém os registrou. Então, é um bocadinho de captar a essência real de cada família e não o dia chato em que vais ao fotógrafo com a tua roupa mais bonita.
CM: Qual é o serviço para o qual tens mais pedidos?
Bárbara Araújo: O que eu tenho mais pedidos é muito a fotografia documental de família e a amamentação. Sou uma apaixonada pela amamentação, pela ligação que há entre mãe e filho. Sempre gostei de fotografar o pele a pele, ou seja, é um corpo nu. Há muitas pessoas que têm muito medo quando chegam até a mim, mas é um nu totalmente diferente, porque não é um nu artístico. A ideia não é o corpo dela. A ideia aqui é o bebê conectado com a mãe e a ligação que há entre mãe e bebê.
CM: Em 2021, fundaste o coletivo Fotógrafas e Videógrafas do Parto. Porque criaste este coletivo?
Bárbara Araújo: A fotografia de parto em Portugal é muito difícil. Os hospitais não nos deixam entrar. Daí a razão: isto foi em plena pandemia. Eu na pandemia tive muito mais partos do que tinha tido antes, também por validíssimas razões: estava mais disponível, obviamente, não havia outras coisas a acontecer, não tendo casamentos, não tendo eventos, não tendo outras sessões, eu estava muito mais disponível para poder fotografar partos. Estava sozinha. Pensei que se calhar éramos 5 ou 6 que nesta altura estávamos sozinhas.
O trabalho de parto exige muito de nós porque nós ficamos no chamado on-call. O on-call é o que acontece também com as enfermeiras e com os médicos e tudo mais, que é, no nosso caso, desde as 38 semanas da mãe até às 42, eu tenho que ter a minha agenda disponível. O meu telefone tem que ficar 24 horas ligado, a minha câmera tem que estar pronta dentro da mala com todas as baterias carregadas e eu tenho que estar pronta a sair em qualquer segundo que a mãe me telefone para ir a ter com ela. Nestas quatro semanas eu não posso aceitar trabalhos que não possam vir a ser feitos de novo: um casamento, uma festa de anos, etc.
Eu precisava de ter um grupo de mulheres comigo que me pudesse salvar de alguma coisa. Assim, quando tenho um parto, outra fotógrafa pode substituir-me. Então daí eu ter fundado o No Parto, eram várias colegas que eu já conhecia, em diversos pontos do país, algumas até perto de mim e outras mais a norte ou mais a sul. A ideia era que para uma grávida que estiver à procura de uma fotógrafa do parto, nós estávamos num diretório e cada um escolhia o que queria. O diretório em si era só para nos juntar para dizer que nós seguíamos o código de ética e que tínhamos currículo de fotografia de parto.
CM: Como é que começaste a te interessar no parto, a fotografá-lo? É porque passaste a ser mãe ou foi antes?
Bárbara Araújo: Claro, eu acho que essa ligação aparece sempre quando a gente acaba por ser mãe. Quando engravidei já tinha várias amigas doulas, ou seja, já estava na área do parto, já gostava da amamentação.
Sempre achei que a mulher devia parir e ponto. Todas estas coisas que haviam de hospitais para mim era tudo muito confuso. Eu adorava os índios então acho que era uma coisa super indígena: o bebê sai e vai para cima de nós e está-se bem. Isto não quer dizer que eu não tivesse que ir para o hospital nem tudo mais, não tem nada a ver com isso, mas parece que é uma coisa fácil, é uma coisa natural da mulher, o nosso corpo está feito para isso. Há complicações, ainda bem que temos hospitais, ainda bem que tudo isso, mas é uma coisa selvagem, nós conseguimos. Todos nasceram por mulheres. Então sempre foi uma ligação assim bonita para mim. Sempre achei isso uma coisa mágica, como é que era possível uma vez estar aqui dentro e depois nascer.
Eu tinha muitas amigas da área, fiquei com aquele bichinho: um dia eu quero fotografar um parto. Pronto, e isso aconteceu, um dia veio o primeiro e eu achei magnífico. Cheguei a fotografar no Brasil. Fotografei cesarianas. Eu sei que é um parto e há bebés que nascem por aí, mas não é uma coisa que me fascina, porque é uma operação, é diferente. Não deixa de ser uma operação, não deixa de ser uma cirurgia. Claro que se houver um pedido de uma mãe para eu fotografar uma cesariana, obviamente que eu o faço, porque o trabalho não é para mim, mas sim para um futuro da mãe.
CM: Há algum projeto sobre o qual estás a trabalhar e que queiras partilhar?
Bárbara Araújo: Bom, esta paixão com as mulheres sempre foi uma paixão muito grande, principalmente a paixão de gerações, de coisas antigas. Há dois anos estive na Etiópia e consegui fotografar duas mulheres a amamentar. O meu desejo era conseguir fotografar este tipo de mulheres pelo mundo. Não é que eu vá a todos os países nem ir a correr para um país fazer isto mas em viagem é sempre assim uma coisa que eu gostaria de continuar e quem sabe um dia eu ter assim várias que pudesse até vir a fazer uma exposição.
CM: Tens um conselho para os jovens que querem começar na fotografia?
Bárbara Araújo: Arrisquem! Acho que é a palavra ideal, arrisquem, não tenham medo, porque é assim, nos dias de hoje não há uma profissão para a vida. Dos meus pais sim havia uma profissão para a vida, não há mais isso. Arrisca a fazer a fotografia que tu queres e vais bater muitas vezes com a cabeça no chão e levantas-te. Não tem problema nenhum, sei lá, irmos para trabalhar para um restaurante enquanto não conseguimos viver só da fotografia. Não desistas, continua. O viver de freelancer por muitas vezes é complicado, porque nós não temos aquele mensal garantido, mas acho que o não desistir é o principal.
Não desiste porque acho que todos nós conseguimos e há sempre trabalho para todos. Não é por eu ser fotógrafa documental e tu ser fotógrafa documental que eu não vou conseguir ou tu não vais conseguir. Há para todos porque, por mais que a gente faça todos a mesma coisa, nenhum de nós tem o mesmo olhar. O olhar é teu, eu tenho o meu e vamos fazer sempre alguma coisa diferente.
CM: Obrigada, Bárbara.
Convidamos toda a gente a seguir o trabalho de Bárbara Araújo.
Entrevista realizada pela Julie Carvalho,
Publié le 22/04/2026.




